Economia

A nova cara da Europa

Em meio a mudanças no comando britânico e nas cadeiras do parlamento do bloco, a economia europeia figura como principal vilã do PIB global

Crédito: Wiktor Szymanowicz/NurPhoto

Como tradicional disruptor do establishment, o presidente americano Donald Trump aproveitou uma visita protocolar ao Reino Unido, na terça-feira 4, para apoiar a uma saída sem acordo dos britânicos da União Europeia, o chamado hard Brexit. Ao cogitar que o sistema de saúde inglês poderia fazer parte das negociações com os EUA depois da saída, Trump, porém, deu um tiro no pé. A ideia de uma parceria americana mais favorável vinha sendo usado como argumento pelos defensores do Brexit, como compensação a potenciais perdas na relação com os europeus. O tema da saúde é sensível demais e agora deve ser usado como arma retórica pelos opositores do processo. A confusão de narrativa simboliza o que o próprio Brexit significa para a Europa. De tão confuso, pode ter fortalecido uma visão pró-bloco e sepultado futuras tentativas separatistas. O risco de um desmoronamento da União Europeia parece mais remoto, mas nem de longe isso significa o fim dos problemas na região.

Analistas em todo o mundo vem apontado a Europa como o maior risco econômico de curto prazo, uma vez que a esperada desaceleração dos EUA está se dando de forma mais lenta. A avaliação leva em conta muitos problemas políticos internos do bloco. As dúvidas não se restringem aos britânicos. Envolvem desde incertezas em relação à Itália até a mudança de comando da Alemanha. A perspectiva de um crescimento mais tímido na zona do euro foi a principal responsável pela revisão nas expectativas de crescimento do Banco Mundial para a economia global neste ano, de 3,1%, em janeiro, para 2,8%. Ao cortar a previsão para as economias europeias de 1,6% para 1,2%, a instituição destacou as incertezas em torno do Brexit.

Ato final: pressionada pelas dificuldades com o Brexit, a premiê britânica, Theresa May, anunciou sua renúncia. Na quarta-feira 5, recebeu a visita do presidente Donald Trump (Crédito:Tolga Akmen / AFP)

O processo de retirada do Reino Unido ficou mais confuso com a saída da premiê britânica Theresa May. A renúncia da liderança se dará oficialmente na sexta-feira 7, mas ela permanece no cargo até a entrada de um substituto, prevista para julho. O sucessor será escolhido no partido Conservador e deve alçar um dos ferrenhos defensores do Brexit ao posto máximo da administração britânica. Um dos favoritos é o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, um nome repudiado pelos europeus por seu histórico de ataques à coesão regional. A troca de comando só tumultua mais o processo. Muda o rosto, mas permanecem as dúvidas. O acordo desenhado por May por um Brexit organizado já foi rejeitado três vezes no Parlamento. A casa também dá sinais de que não apoiará uma saída sem acordo. Tudo está aberto neste momento. Os Conservadores dizem que entregar o Brexit é uma questão de sobrevivência. Por outro lado, as consequências econômicas podem acabar varrendo o partido da história.

No radar, surge a possibilidade de uma nova eleição. Tanto porque a escolha de um novo premiê dentro dos Conservadores se mostra menos representativa ou por pressão dos europeus. Quanto mais distante de uma solução, maior é a insatisfação da população com o partido. Para o professor de relações internacionais da USP, Kai Enno Lehmann, o mais provável é uma nova prorrogação do prazo final do Brexit, marcado para 31 de outubro, com a contrapartida de uma solução firme internamente, como eleições ou um novo referendo. “Os dois principais partidos correm um sério risco de quebrar diante do Brexit”, afirma Lehmann. “Uma vez que seja escolhido um substituto para o cargo, nada terá mudado. Mesmo se apostarem numa saída sem acordo, o caos econômico seria tão grande que levaria o Reino Unido a bater na União Europeia e pedir uma negociação.”

Muda o rosto, fica o problema: o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, um dos favoritos na disputa para suceder Theresa May, é um ferrenho defensor do Brexit e repudiado entre europeus (Crédito:Daniel Leal-Olivas / AFP)

A EUROPA SOBREVIVE A confusão britânica ajudou a mobilizar um movimento para conter a expansão dos populistas no Parlamento Europeu. A eleição de membros anti-Europa ficou abaixo da expectativa e não deve ser suficiente para abalar a integridade do bloco. Há um racha também entre os separatistas. O líder italiano Matteo Salvini, que tenta liderar o grupo dos eurocéticos, vem sofrendo derrotas em montar uma coalizão no parlamento. Uma outra mensagem emergiu do pleito. A derrota de partidos tradicionais reforçou a ideia de insatisfação com Bruxelas, sobre as decisões morosas e burocráticas tomadas pelo bloco. Embora o parlamento, com 751 cadeiras, tenha um poder limitado em legislar, pois precisa compartilhar as decisões com os 28 governos dentro da União, deve figurar como uma frente de pressão por mudanças.

Se por enquanto o Brexit mobiliza as forças entre os europeus, a dúvida é como será a resposta depois de passada a decisão no Reino Unido e qual será a capacidade do bloco de buscar uma coesão capaz de aumentar e, não diminuir, o dinamismo econômico. “A União Europeia tem fortes problemas políticos, não sabe o que quer e não tem coesão grande, tanto em termos estratégicos como práticos, na moeda única, por exemplo”, afirma Lehmann. “Essa falta de coesão leva a uma situação em que o bloco faz o melhor que dá no melhor dos casos. No pior, fica parado. O problema de criar uma economia mais dinâmica na União Europeia existe há décadas.”

Face populista: Salvini, da Itália, e Marine Le Pen, da França, saíram vitoriosos nas eleições
ao Parlamento Europeu, mas enfrentam dificuldades para formar um grupo uniforme anti-Europa (Crédito:Divulgação / Bertrand Guay / AFP)

Numa virada de ciclo como a que parece próxima na economia global, isso cobra um preço. Não só porque as questões políticas locais acentuam a desaceleração, mas porque faltarão respostas para problemas de natureza econômica observados dentro do bloco, como a freada no PIB alemão e os desafios fiscais na Itália, que flerta com a insolvência e espalha tensão pela região. Tudo isso num contexto em que a recuperação da crise de 2008 se deu de forma mais lenta do que no resto do mundo, em meio à longa discussão que se travou sobre um possível calote grego e suas consequências para a sustentabilidade da moeda única. Se confirmadas as previsões de desaceleração, ficará a sensação de que a bonança na região foi tímida e curta diante do estrago da crise global. É o que dizem os números: entre 2008 e 2018, o crescimento médio da zona do euro foi de apenas 0,75%.