Investidores

A nova cara da B3

A bolsa de valores tem crescido com a chegada de investidores mais jovens, com menos recursos para aplicar e sem medo da volatilidade. Juros baixos e plataformas de investimento acessíveis explicam o fenômeno que levou ao recorde de 2 milhões de pessoas físicas a participar do mercado de ações.

Crédito: Gabriel Reis

Morador do município de Arujá, na Grande São Paulo, Matheus Martinez, 22 anos, está alguns passos à frente da maior parte dos jovens da sua idade.

Engenheiro formado pelo Instituto Mauá de Tecnologia, ele tem investido desde março uma parte de seus recursos na bolsa de valores, a B3. A escolha de Martinez ilustra um fenômeno que se acelerou recentemente: o aumento do número de pessoas físicas investindo em ações. Somente no mês de março, 300 mil indivíduos chegaram ao mercado de capitais. Desse total, 220 mil investiram pela primeira vez na vida em ações.

O restante já havia feito aportes em algum momento e retornou às negociações.

Esse movimento coincidiu com o período de maior pânico, com queda acentuada dos preços dos papéis e o acionamento por seis vezes do circuit breaker — a parada temporária das transações que ocorre quando o Ibovespa cai 10% em um dia. Com isso, a B3, que havia alcançado em julho do ano passado a marca de 1 milhão de investidores, passou a ter, desde abril deste ano, precisamente o dobro: 2 milhões de pessoas físicas detentoras de produtos de renda variável. Desse total, cerca de 60% têm entre 19 e 39 anos.

O aumento na quantidade de investidores trouxe, assim como mudanças no perfil etário e social de quem aplica seu dinheiro na B3, alterações em alguns dados estatísticos desse mercado.

Em 2017, os investidores pessoas físicas somavam R$ 203 bilhões na bolsa. Hoje, o volume é quase 30% maior: de R$ 260 bilhões. Em contrapartida, o valor médio investido apresentou queda. Em 2011, as carteiras com até R$ 10 mil respondiam por 44% dos integrantes. Em março deste ano, o percentual alcançou 54%. Dos 220 mil investidores que entraram na renda variável há dois meses, 30% aplicaram menos de R$ 500. Isso ajuda a explicar o aumento do percentual de pessoas com saldos relativamente baixos. “Isso é positivo. As pessoas colocam pouco dinheiro por uma questão de segurança”, diz Tarcisio Morelli, diretor de inteligência de mercado da B3. “Esse pessoal está experimentando a renda variável.” O executivo afirma que, diferentemente do que se poderia imaginar, esses novos investidores não ficaram assustados com a elevada volatilidade do mercado.

Na crise, os novos investidores viram seus recursos diminuírem, mas não zeraram as aplicações. “Os dias de maior estresse, com circuit breaker, foram aqueles em que as pessoas físicas mais investiram”, diz Morelli. E o movimento de novos entrantes continua alto. Em abril, mais 140 mil pessoas aportaram investimentos. Se, como disse o especialista, esses novos investidores tiveram sangue frio no pior momento da crise, agora começarão a colher os frutos da recuperação do mercado.

O Ibovespa, que pouco antes da pandemia havia chegado aos 120 mil pontos, em março caiu para quase a metade (63 mil). Com dois meses seguidos de alta, o índice fechou a quarta-feira 3 a 93 mil pontos. O fluxo de investimentos feitos pelas pessoas físicas, até o dia 28 de maio, somava R$ 1,26 bilhão, elevando o total do ano a R$ 34,7 bilhões. “Esse comportamento também depende de outros fatores macroeconômicos. O momento é muito diferente do que estamos acostumados”, afirma Morelli. “As consequências da pandemia ainda serão dimensionadas. O que temos visto é que as pessoas continuaram a investir e esperamos que continue assim”.

Especialistas consultados pela DINHEIRO concordam que o fenômeno é resultado de fatores distintos. Um deles é o que motivou o jovem Martinez a tirar recursos da poupança e colocar na renda variável: a queda na taxa de juros básica. Ele explicou ter percebido que deixar dinheiro parado na poupança não seria um bom negócio. Então, começou a fazer pesquisas na internet e a consultar amigos que já tinham experiência em Bolsa para saber mais sobre o assunto. “Com o rendimento lá embaixo, vi que não dava para manter o dinheiro na poupança”, afirma. “Dinheiro parado não dá certo. Essa foi a oportunidade para criar patrimônio”, conta o engenheiro.

Em fevereiro, Martinez saiu da poupança para o Tesouro Direto e, na terceira semana de março, com apoio de corretores, aplicou em três fundos distintos. “Estar bem informado me ajudou a manter minhas posições. Agora que o pior já passou, vejo tudo com mais tranquilidade ainda”, declara ele, que manteve parte do seu dinheiro em renda fixa, caso tenha alguma necessidade imediata. Se houver contratempos em momentos de baixa, ele terá liquidez garantida e sem perdas.

Atualmente, a taxa da Selic está em 3% ao ano com viés de baixa, um nível de juros que nunca esteve tão baixo na história brasileira. Isso causa impacto negativo em todos produtos de renda fixa, o que serve como estímulo na busca por ativos mais rentáveis. Segundo Rodrigo Marcatti, sócio da Veedha Investimentos, quase a metade da população dos Estados Unidos investe em bolsa, mas isso ocorre porque há muitos anos a renda fixa oferece remunerações extremamente baixas. Por aqui, ao contrário, os juros giraram acima de 13% nos últimos 25 anos. Era o que possibilitava ganhos expressivos sem a necessidade de tomar riscos. “No Brasil, o cara investia na bolsa, perdia dinheiro e saía”, explica Marcatti. “Se a política atual de juro baixo for mantida, mais e mais pessoas migrarão para a bolsa.”

EDUCAÇÃO A procura pelo capital de risco, no entanto, não pode ser vista como uma bala de prata usada pelos investidores para manter ganhos mais expressivos. Laio Santos, CEO da corretora Rico, entende que o movimento atual é consistente e está conectado com um trabalho de educação realizado pelos agentes do mercado, que envolve abordagens presenciais e mais recentemente apoiadas na internet e nas redes sociais. As corretoras passaram estrategicamente a gerar conteúdo financeiro todos os dias. A cobertura se ampliou. Há também os influenciadores nas salas digitais que desenvolvem um papel importante para atrair mais investidores, principalmente jovens. Para Santos, esses jovens, aos poucos, vão percebendo que, quando a bolsa cai, surgem oportunidades.

Desde 2016, a gestora Claritas, em parceria com a entidade Junior Achievement São Paulo, mantém um projeto batizado Claritas Solidária. O objetivo é levar educação financeira para estudantes de ensino médio de escolas públicas paulistas. “A educação financeira é uma forma de contribuir para a mobilidade social. Já impactamos 4 mil estudantes”, diz Ernesto Leme, diretor comercial da gestora de fundos. Na internet, a Claritas oferece um game que estimula a pessoa a investir etapa por etapa, desde a tomada de decisões básicas.

Essa mesma tecnologia, que tem levado educação financeira a potenciais investidores, também contribuiu para a democratização do investimento na B3. Se antes isso parecia uma operação burocrática, com taxas que inviabilizavam o investimento de pequenas quantias e de acesso difícil, agora o processo todo se tornou bastante mais simples. Em especial depois do surgimento de plataformas como a da XP Investimentos e a da Easynvest, que possibilitam a qualquer um com acesso a internet ter contato com os mais diversos produtos financeiros, corretores e agentes autônomos. Isso implica em mais gente procurando empresas especializadas, como acontece com a corretora Clear, que registra desempenho semelhante ao da própria B3. “De janeiro a maio, tivemos crescimento de 103% de investidores na faixa etária entre 25 e 34 anos, e de 234% entre 18 e 24 anos, se compararmos com o mesmo período de 2019”, afirma Roberto Indech, estrategista–chefe da empresa.

“No Brasil, o cara investia na bolsa, perdia dinheiro e saía. Se a política atual de juro baixo for mantida, mais e mais pessoas migrarão para a Bolsa” Rodrigo Marcatti, Veedha Investimentos. (Crédito:Divulgação)

Outro ponto destacado pelo estudo da B3 se refere à diversificação dos investimentos. Em 2016, apenas 26% da base possuíam cinco ou mais empresas em carteira. Hoje, esse percentual é de 48%. No mesmo período, 78% detinham apenas ações, índice que caiu para 54%. No fim de 2019, 640 mil pessoas investiram em fundos imobiliários. Em março, já eram 790 mil. “Muita gente vem preferindo investir na Bolsa por meio de fundos diversos. Em parte, porque é uma boa solução para quem tem pouco tempo e precisa de um gestor profissional, que toma decisões de forma racional”, afirma Rodrigo Marcatti, da Veedha Investimentos. “Implica em custo mais alto, mas com o tempo isso se reverte em retorno acima da média.” São Paulo é o estado com o maior número de investidores. Eram 549 mil em dezembro de 2019 e, em março, já somava 729 mil (alta de 33%). O Rio de Janeiro vem na sequência, com 214 mil em março (26% a mais) e Minas Gerais em terceiro, com 180 mil (39%).

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