Economia

A nova arrancada

Até outubro deste ano, a produção da indústria brasileira havia crescido 6,6% em relação ao mesmo período de 1999, o resultado mais brilhante desde 1994, ano de implantação do Plano Real



? A capacidade produtiva utilizada pelas fábricas do País atingiu o pico de 82%, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Desde 1992, as linhas de produção não apresentavam tamanha atividade como neste ano

? Nunca houve tantos planos de investimento. Levantamento da Simonsen Associados, obtido por DINHEIRO, revela que as intenções de investimento totalizam mais de US$ 228 bilhões, o maior volume registrado desde o nascimento da pesquisa em 1989

? O emprego também voltou a se recuperar, com a abertura de 766 mil novos postos de trabalho nos últimos 12 meses, segundo o IBGE

? Os trabalhadores começam a colocar mais dinheiro no bolso. Os salários devem crescer entre 2,0% e 2,5% em 2000, depois de registrarem perdas de 4,9% em 1998 e 9,3% em 1999, informa o Dieese. Os metalúrgicos do ABC paulista, uma referência quando o assunto é negociação salarial, conquistaram reajustes de até 10%

+ O economista Paulo Gala revela os caminhos para investir bem em 2022



? Das linhas de montagem da indústria automobilística saíram 1,66 milhão de veículos, o terceiro melhor número da história. Espera-se que, em dois anos, a produção brasileira bata seu recorde, superando os 2 milhões de unidades

? O setor de bens de capital cresceu 15% este ano e deverá repetir a dose em 2001, de acordo com a Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústria de Base (Abdib). Tradução: as empresas brasileiras estão (e continuarão) comprando máquinas equipamentos.

Nunca, nos últimos 20 anos, houve uma coleção de indicadores tão promissores e consistentes na economia brasileira. A base de comparação, pode-se alegar, é baixa e, por isso, qualquer crescimento aparenta mais músculos do que realmente possui. Mas os planos das empresas indicam que elas se preparam mais para uma maratona do que para uma corrida de 100 metros rasos. ?O Brasil parece estar entrando em um novo ciclo de investimentos e desenvolvimento?, diz Carlos Tilkian, presidente da Estrela, maior fabricante de brinquedos do País.

As companhias, segundo ele, aproveitaram os anos de crise para fazer a lição de casa. Em seu setor, por exemplo, o quadro negro pintado em 1995 ganhou cores alegres este ano, graças a um trabalho conjunto do governo e das empresas. De Brasília, o incentivo veio na forma de salvaguardas impostas aos brinquedos importados. Por seu lado, as empresas investiram, desde então, R$ 650 milhões. Dessa forma, a produção saltou de 104 milhões para 250 milhões de unidades. Cerca de 19 mil postos de trabalho foram criados. Foi um ajuste doloroso. Das 2.700 empresas existentes em 1995, 536 fecharam as portas, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos (Abrinq). ?Estamos preparados para o crescimento do País?, afirma Sinézyo Batista, presidente da Abrinq.

A indústria, como sempre acontece, funciona como motor de arranque da retomada. ?Foi o segmento que puxou a fila do crescimento?, diz o economista Wilson Amorim, coordenador técnico do Dieese. Segundo ele, a soma dos índices de expansão dos setores de serviço e comércio atingiu 7,7%, contra 9,8% da indústria.

Os casos de crescimento na indústria apresentam números reluzentes. A fábrica de motores MWM, de São Paulo, aumentou suas vendas para o setor de ônibus e caminhões em 86% sobre os resultados do ano passado. A produção de 69 mil unidades gerou 400 novos empregos, salto de 36% sobre o total de contratados em 1999. ?Vivemos um momento de desenvolvimento e expansão?, diz Roberto Alves dos Santos, gerente da companhia.

O apito inicial vem das fábricas, mas o varejo e os serviços logo pegam carona. O McDonald?s vai investir R$ 1 bilhão nos próximos cinco anos no Brasil. Só em 2001, serão abertos 86 novos restaurantes, ampliando a rede para 630 pontos. ?Há muito potencial no Brasil?, diz Ronaldo Marques, diretor do McDonald?s. ?Aqui, as pessoas comem fora de casa, em média, seis vezes por mês. Em outros países, essa proporção chega a 18 vezes. Por isso, vamos continuar investindo.?

Consultores e economistas logo saíram à cata de explicações para a nova arrancada da economia. A mais evidente é o entupimento das linhas de produção. ?O primeiro estímulo se dá quando a indústria opera no limite?, diz Flávio Castelo, coordenador da Unidade de Política Econômica da CNI. ?É exatamente o que está acontecendo agora.? Os analistas também concluíram que, além disso, nada de especial aconteceu para justificar tanta euforia ? e, pasmem, justamente essa calmaria explica muita coisa. Afinal, nos últimos anos sempre houve fatos que inibiram investimentos. Em 1997, foi a crise da Ásia. No ano seguinte, a Rússia quebrou e colocou o Brasil de barbas de molho. A desvalorização cambial brecou o entusiasmo em 1999. ?Ano após ano, as decisões foram sendo adiadas e a necessidade de crescimento ou modernização, reprimidas?, diz o consultor Harry Simonsen, diretor da Simonsen Associados. ?Bastou um ano sem sobressaltos para que os projetos fossem desengavetados.?

O ?sentimento de alívio?, como diz Simonsen, explica o volume de intenção de investimentos identificado em seu levantamento. No final do ano passado, os planos de desembolso das empresas não somavam US$ 100 bilhões. Agora, estão em mais de US$ 228 bilhões. Embutida nessa fortuna, há informações óbvias. Os setores líderes nos investimentos são os privatizados, como telecomunicações. Só a Siemens pretende gastar R$ 700 milhões nos próximos três anos, estimulada pela chegada da Banda C de telefonia móvel. Mercados livres da amarra estatal também estão atraindo dinheiro. A Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip) calcula investimentos de R$ 100 bilhões na exploração de petróleo entre 2001 e 2010.

Boa parte dessa dinheirama aparece como intenção de investimento ? e pode não passar disso caso algum solavanco interno ou externo crie um clima de desconfiança. A maior preocupação vem dos Estados Unidos, onde há quem aposte em uma desaceleração brusca da economia. Os mais recentes pronunciamentos de Alan Greenspan, presidente do Fed, parecem ter aliviado o ambiente. Outra fonte de temor é o preço do petróleo. Nesse caso, também há sinais de estabilização. Existe ainda o fator Argentina, que atinge diretamente o Brasil.

Na lista das preocupações, um lugar de destaque é ocupado pelo estrangulamento do setor energético. Mesmo aí surgem oportunidades de investimento. Líder no mercado de equipamentos para usinas hidrelétricas, a Alstom Power investirá US$ 20 milhões em 2001 para aumentar sua produção de geradores e turbinas. Assim, serão criados 200 postos de trabalho, que se somarão aos atuais 1.200 funcionários. ?Nosso objetivo é ampliar a capacidade de geração de 3 mil para 4 mil megawatts?, diz José Nogueira Reis, presidente da Alstom Power no Brasil. Segundo ele, a companhia também tem planos de adquirir empresas no País. ?A estagnação do setor no passado criou uma grande demanda reprimida?, afirma. ?Chegou a hora de atendê-la.? A conclusão de Reis parece ser a expressão de um sentimento generalizado no País, o que empurra a economia para uma nova arrancada.

Os empresários querem aproveitar a maré de
crescimento para criar uma política industrial no País

Joaquim Castanheira

Nem governo, nem empresários duvidam que a economia brasileira tem à sua frente uma porta escancarada que levará o País a um novo ciclo de desenvolvimento. Pronto: fim da unanimidade. Para o pessoal do Ministério da Fazenda, basta garantir as chamadas ?condições macroeconômicas? e todo o resto se ajeita. Mas, na opinião do empresariado, está aí um bom momento para criar um espécie de mapa que conduza os investimentos ao encontro das necessidades brasileiras. Em outras palavras, chegou a hora de ter uma política industrial, como defende um estudo produzido recentemente pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, (Iedi), batizado com o pomposo título de ?Indústria e desenvolvimento ? uma agenda de política de desenvolvimento industrial para a nova década?. Pode-se não concordar com uma linha sequer do que está escrito ali, mas talvez seja o momento de discutir o assunto. ?O Brasil vive um momento com todas as condições para um crescimento explosivo?, diz Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor executivo do Iedi. ?Vencemos a inflação, temos estabilidade política e os investimentos externos procuram o País. A criação de uma política de desenvolvimento nos levaria a um período de expansão sem precedentes.?

O Iedi reúne industriais como Eugenio Staub, Roberto Vidigal, Amarílio Macêdo, Paulo Francini e Claudio Bardella. O documento elaborado por eles traz uma constatação e várias propostas. A constatação: o Brasil está pronto para voltar a crescer e colocar um ponto final na estagnação dos últimos 20 anos. A economia deve engordar no mínimo 4% para gerar emprego e renda compatíveis com o crescimento populacional. Para atingir esse patamar, a indústria terá de registrar índices de expansão superiores a isso. ?A indústria é o motor do desenvolvimento?, diz Almeida. ?O PIB só supera os 4% quando a indústria cresce acima disso.?

Daí a necessidade de uma política industrial claramente definida. ?Não existe país no mundo que tenha se desenvolvido sem isso?, diz o empresário Paulo Francini, diretor geral do Iedi. Esse seria o caminho, no entender dos empresários, para recuperar a liderança brasileira no ranking de crescimento mundial, como mostra a tabela ?Bons tempos?. O documento do Iedi, dividido em nove volumes, detalha cada um dos ingredientes de uma política de desenvolvimento, do cenário macroeconômico aos investimentos tecnológicos, do comércio exterior às fontes de financiamento. Eis alguns dos desafios propostos pelo Iedi:

? Derrubar os juros reais, até 2002, para 7% ao ano

? Reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais

? Atingir um volume de investimentos equivalente a 25% do PIB, contra a média inferior a 20% nos anos 90

? Elevar a renda per capita para US$ 7 mil em 10 anos

? Dobrar o volume de crédito para 50% a 60% do PIB

A proposta do Iedi define dois tipos de incentivos. Um deles seria para empresas já instaladas por aqui. ?O objetivo seria melhorar a competitividade, permitindo que atuassem no mercado externo?, diz Almeida. O outro incentivo teria como meta estimular companhias de tecnologia a desembarcar em território brasileiro. ?Hoje, produtos de alto conteúdo tecnológico representam 5% das exportações?, diz Almeida. Nos países emergentes a média é de 15%. O déficit da balança comercial desse setor atinge US$ 15 bilhões anuais. ?Culpava-se o câmbio?, diz Almeida. ?O câmbio mudou e nada aconteceu. O que há é falta de atração para as empresas se instalarem aqui.?

Tudo isso parece muito claro. Mas quais as probabilidades do governo definir uma política industrial? Para o Iedi, quase nulas. ?É como se o governo, depois de atingir a estabilidade monetária, estivesse satisfeito com a vitória e nada mais houvesse a fazer?, diz Francini.

GREENSPAN DERRUBA O PESSIMISMO

Presidente do BC profetiza queda de juros e ajuda economias dos EUA e do Brasil

Fabiane Stefano

 

E assim falou Greenspan: ?Em uma economia que começa a perder vitalidade, devemos permanecer alertas?. Foi na terça-feira, 5, em Nova York, durante uma conferência a 458 sócios da Associação Nacional dos Banqueiros norte-americanos. Em contados 55 minutos, o discurso do presidente do Banco Central americano, Alan Greenspan, causou uma reviravolta nas expectativas pessimistas sobre o futuro imediato da economia americana. Depois de o profeta capitalista falar, foi como se o rio de previsões negativas se abrisse para dar passagem a esperanças renovadas. A Nasdaq, que amargava quedas consecutivas, subiu 10,48%. O velho e bom Dow Jones foi à frente 3,21%. Todos interpretaram que, se preciso for, os juros americanos irão baixar para que a economia não entre em recessão.

No Brasil, o recado foi rapidamente assimilado. O índice Bovespa escalou quase cinco degraus e fechou em alta de 4,97%. ?O volume de negociação das ações de empresas brasileiras em Nova York continuará crescendo?, aposta René Boettcher, executivo do Bank of New York. ?Agora, não vejo sinais de uma recessão?, diz Mário Fleck, presidente da Andersen Consulting no País.

Greenspan, diante dos banqueiros, lançou mão de um discurso repleto de meias palavras, mas com sentido claro. Nos últimos oito anos, período em que o democrata Bill Clinton, na Casa Branca, presidiu o maior período de crescimento continuado da economia americana, o mercado aprendeu a ler os recados de Greenspan. Este último veio na hora certa. Em novembro, os pedidos de auxílio-desemprego aumentaram 20% nos EUA. As vendas de automóveis caíram de 18,2 milhões de unidades no primeiro trimestre do ano para menos de 17 milhões. ?O mundo temia que o FED tivesse puxado demais o freio?, diz Marcelo Carvalho, economista-chefe do JP Morgan no Brasil. Desde 1999 a maio deste ano, o BC americano aumentou os juros de 4,75% para 6,5% para evitar que a aeronave da economia se esborrachasse no fim da pista. Sob a batuta de Greenspan, os EUA alcançaram um crescimento anual de mais de 5%, vivenciando até mesmo uma fase de exuberância irracional, expressão do próprio presidente do FED, em dezembro de 1996. Na época, ao cunhá-la, ele derrubou as bolsas. Agora, além de melhorar os ânimos nos mercados financeiros, impulsionou a decolagem da indústria brasileira.


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