Economia

A NOITE QUE NÃO ACABOU

Patrocinada pela nação mais poderosa do planeta, a eleição americana da terça-feira, 7, estava destinada a entrar para a história como a mais emocionante, concorrida e legítima disputa presidencial de todos os tempos. Virou a mais bagunçada, bizarra e polêmica. Inesquecível pelo lado do avesso. Quem ganhou, perdeu. O vitorioso nas urnas, Al Gore, não levou. Um candidato com 0,8% na contagem nacional, Pat Buchanan, foi ungido à condição de estrela da campanha. O de 3%, Ralph Nader, ganhou a recomendação de contratar guarda-costas para se proteger. Uma coincidência histórica que remonta a 1825, pai e filho eleitos presidentes dos Estados Unidos, voltou para o arquivo. Ressurgiu no lugar um fantasma de 1888, quando o candidato escolhido pela população naufragou no Colégio Eleitoral. Não é tudo. Nos demais cargos em disputa, um governador morto foi eleito senador. A mulher conhecida pelo epíteto ?a mais odiada da América?, Hillary Clinton, triunfou. Na terra das oportunidades iguais, o banqueiro Jon Corzine, ex-presidente da Goldman Sachs, gastou US$ 60 milhões para obter uma vaga no Senado por New Jersey. Pátria da mais alta tecnologia, os americanos usaram mecanismos medievais para votar. A melhor imprensa do mundo patrocinou um festival de desinformação e erros. Toda essa coleção de trapalhadas pode levar a definição do novo presidente a se arrastar por dias ou, como pensam alguns analistas, até por meses. ?O povo americano falou agora, mas ainda levará algum tempo para entendermos exatamente o que ele disse?, resumiu o presidente americano Bill Clinton.



Deu tudo errado. A América precisava de um, teve dois e descobriu-se sem nenhum presidente eleito na terça-feira, 7 de novembro de 2000, a noite que não terminou. ?Sempre fizemos piadas sobre repúblicas de bananas que levam quatro, cinco dias para anunciar um presidente depois de eleições?, comentava em Washington um funcionário da Câmara de Comércio. ?E agora, de quem vamos rir?? Muitos acham que seria o caso de chorar. A disputa foi interrompida na quinta-feira, 9, em meio a uma guerra de advogados. A semana terminou sem que houvesse garantias de proclamação oficial do resultado final nem mesmo para esta terça-feira, 14, quando a recontagem dos votos na Flórida, no canto direito do mapa americano, recomeçaram. Na ponta esquerda, no alto, também foram suspensas as apurações no Oregon. Os votos de militares em trânsito serão decisivos na definição do novo presidente, mas só chegarão aos Estados Unidos nos próximos 10 dias. Mesmo concluída a contagem e recontagem dos votos, nada garante que o show de ineficiência se encerre rapidamente. ?A nação pode ficar sem presidente eleito por algum tempo?, disse o coordenador da campanha de Gore, William Daley. ?Se for para prevalecer a vontade popular, nós iremos à Justiça.? Enfim, a tradição do perdedor que não reclama foi quebrada com a facilidade de um cristal. Isso levou o País a uma versão moderna da Guerra da Secessão, com os ânimos de republicanos e democratas cada vez mais exaltados. ?Vamos lembrar de hoje como a fase mais crítica da história da nossa nação?, disse Katherine Harris, secretária do Estado da Flórida, ao anunciar no final da tarde da quinta-feira, 9, a suspensão da recontagem de votos.

O Estado tornou-se o epicentro da tormenta bancada pelo vice-presidente democrata Al Gore contra a vitória nas urnas, ali, do governador republicano George W. Bush. Contados os votos da primeira vez, Gore recebeu um total nacional de 49.108.420 de sufrágios, enquanto Bush somou 48.889.221. Nunca tantos americanos haviam comparecido às urnas. Em um país com sistema eleitoral mais simples, Gore seria aclamado automaticamente o novo presidente. Mas não na América. Persiste nela a singularidade chamada Colégio Eleitoral, que, quando era usado no Brasil, elegeu ditadores militares e um presidente civil que morreu antes da posse. O foro americano só guarda relação com o antigo instrumento autoritário brasileiro no nome, mas se mostrou, a seu modo, um profundo poço de problemas. Nos EUA, o candidato que ganha no voto popular em um Estado tem direito de levar para o Colégio Eleitoral todos os delegados daquele Estado. A Califórnia, com maior densidade populacional, tem direito a 54 (deu Gore). O Alaska, com a menor, faz 3 (Bush venceu). E com números de delegados proporcionais à população assim é com os demais 48 Estados. Neste momento, petrificado pela interrupção da recontagem de votos na Flórida com seus 25 delegados ao Colégio Eleitoral, o placar é de 260 delegados pró-Gore e 246 pró-Bush. Quando a recontagem foi suspensa, depois de ter sido completada em 64 dos 67 condados do Estado, a margem do republicano se estreitara para 327. Em Palm Beach, juízes eleitorais impugnaram 19.200 cédulas eleitorais por duplicidade de votos, a maioria para Gore e Buchanan. Tudo culpa de um sistema de votação arcaico e complexo. Motivados por um disque-denúncia aberto pelos democratas, dezenas de americanos em Palm Beach avisam que foram levados a erro pelo jeito complicado de votar. Antes do dia da eleição, a reportagem de DINHEIRO esteve na sala de votações instalada no porão da igreja do bairro de Dupont Circle, em Washington. O lugar estava lotado. Tudo difere do que tínhamos no Brasil, no tempo da cédula manual bem legível, e agora na era das urnas eletrônicas. Os americanos são obrigados a marcar manualmente suas preferências num ínfimo retângulo, algo como 0,3 cm de base por 0,1 cm de altura, com a ajuda de um perfurador preso a um eixo. Eles sabem que é difícil, tanto que um mesário fica dentro dos recintos com a incumbência de ensinar os menos hábeis a votar. Muitos eleitores garantem que cravaram o nome de um candidato, mas pensavam em eleger outro.

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País dividido. Enquanto acompanham os lances impensáveis da eleição, os americanos se perguntam: o que será do próximo presidente depois da grande bagunça? ?Independentemente de quem for eleito, essa confusão faz parecer que nenhum deles terá o mandato?, resumiu Mickey Levy, economista do Bank of America. O próximo ocupante do Salão Oval encontrará um país dividido nas urnas e no Parlamento. O Senado rachou ao meio, com 50 deputados republicanos, 49 democratas e uma vaga ainda em disputa na quinta, 9. Na Câmara dos Deputados, o placar é o seguinte: 220 republicanos a 211 democratas, além de 2 independentes. O cargo de presidente dos Estados Unidos remunera seu ocupante com cerca de US$ 250 mil anuais. Sob seu comando, está um orçamento federal anual da ordem de US$ 1 trilhão. Sua caneta pode nomear e exonerar cerca de 20 mil cargos, sem precisar consultar ninguém. Incluem-se na lista vagas de embaixadores e juízes federais, entre eles os honoráveis da Suprema Corte. Ele também dá a palavra final sobre a posição e a ação de dois milhões de militares espalhados pelo planeta. Seja quem for o vitorioso, o novo presidente não terá músculos suficientes para impor seu programa de governo. Analistas americanos acreditam que, em um primeiro momento, o vencedor dará prioridade a temas, cujas propostas não guardassem grandes diferenças na plataforma dos dois candidatos, como é o caso da Educação e da Saúde. Dificilmente, o presidente também conseguirá arrancar do Congresso o ?fast-track?, o instrumento que lhe permitiria negociar acordos comerciais sem a necessidade de aprovação de senadores e deputados. Essa posição de relativa fraqueza foi recebida com entusiasmo pelo Itamaraty. Na avaliação dos diplomatas, essa situação seria uma arma brasileira nas negociações pela abertura do mercado norte-americano. De janeiro a setembro deste ano, os Estados Unidos receberam 23% das exportações brasileiras. Por isso, os empresários locais acompanham o pleito americano com atenção. ?Bush tem uma postura mais liberalizante e voltadas para as causas da América Latina?, diz Rinaldo Campos Soares, presidente da Usiminas, uma grande empresa do setor siderúrgico, um dos mais atingidos pelo protecionismo americano. Soares e os mais de 250 milhões de americanos terão de esperar alguns dias para saber quem ocupará a cadeira de homem mais poderoso do mundo. Enquanto isso, convivem com os fantasmas do passado. Em 1876, os republicanos partidários do candidato Rutherford Hayes não aceitaram a derrota por 250 mil votos para o democrata Samuel Tilden. Demorou quatro meses para a definição.

 

QUEM ESCOLHE BUSH?

 

Ele já foi presidente dos EUA por exatos 60 minutos

George Walker Bush foi presidente dos Estados Unidos por cerca de 60 minutos na madrugada da quarta-feira, 8. Pode voltar a sê-lo por mais tempo: quatro anos, renováveis em outros quatro. Mas entrará na Casa Branca pela porta dos fundos, guindado à Presidência por um colégio eleitoral e derrotado na preferência popular. O poder que emana do cargo terá de dividi-lo na formação de um governo de coalizão. Sem isso, não será o presidente dos americanos, mas o representante das corporações, dos militares, dos hispânicos da Flórida que lhe deram o voto de minerva num dos mais disputados pleitos de todos os tempos. Todos esses o escolheram. E, certamente, lhe apresentarão a conta no devido momento.

Assim, mesmo que eleito, Bush acordará ao final da longa noite que custa a acabar como perdedor. O champanhe da vitória já estará quente e sem gás. ?A trapalhada da apuração dos votos faz Bush chegar à Presidência numa situação de fragilidade política?, disse à DINHEIRO o assessor da campanha republicana William Perry, um dos principais nomes do Pentágono nos governos de Reagan e George Bush. ?Ele vai precisar de muita habilidade política para superar essa fase inicial de desgaste.? Bush tem a seu favor o fato de o colégio eleitoral não ser alvo de contestações. Nos EUA, nem mesmo entre os derrotados democratas se podia encontrar um defensor de mudanças nas regras com o jogo em andamento. ?O colégio eleitoral foi feito exatamente para isso, aplacar as emoções da eleição pelo equilíbrio da federação?, lembrou um analista. Dada a insistência de assessores de Gore em pedir impugnação de urnas no distrito de Palm Beach, gesto considerado inferior aos padrões da tradicional elegância entre adversários nas eleições americanas, a equipe de Bush acredita que é bem capaz de seu candidato conseguir arrancar a carapuça de vilão que perdeu, mas venceu, mais cedo do que muitos imaginam. ?Nem Nixon, que em 60 tinha mais motivos para pedir impugnações contra vitórias de Kennedy nos estados, chegou a esse ponto?, diz Perry, a respeito das dramáticas eleições em que os democratas bateram os republicanos por menos de 1% dos votos. ?Os democratas exageraram na crítica. Bush pode sair de todo esse imbróglio como vítima de maus perdedores.?

Quem conquistar os votos da Flórida, leva a chave da Casa Branca. Os sete votos do Oregon não farão a menor diferença. A celeuma começou porque, pelas leis da Flórida, quando uma eleição é decidida por menos de 0,5% de diferença, como foi o caso, a recontagem é obrigatória. O ineditismo de uma eleição tão apertada apanhou todos os setores da sociedade de calças curtas. Até aquela que é considerada a melhor imprensa do mundo não escapou e enrolou-se em um emaranhado de vaivém, informações equivocadas, afirmações falsas e desmentidos. Os americanos assistiram ao vivo, às 2h16 da manhã do dia 8, pela ABC, Bush ter sua foto enfeitada na moldura com a legenda ?o 43º presidente dos Estados Unidos?. Os dois mil convidados republicanos da festa oficial do partido no Capitol Hilton Hotel, em Washington, espumaram de alegria. ?No more Gore?, berravam. ?A prosperidade que os democratas criaram foi para a Microsoft, não para mim?, gritava um simpatizante dos republicanos. Gore, de Nashville, Tennesse, onde assistia da sua casa ao espetáculo, ligou para Bush depois de ver o adversário saudado como o novo presidente. Deu-lhe, como manda o figurino, os cumprimentos pela vitória.

?Ops, ops?. A festa dos partidários de Bush se multiplicava pelo País até que, cerca de uma hora depois, a CNN encheu sua tela com a imagem de Gore e a manchete ?Flórida,Vencedor?. Eleito estava, assim, ao cargo que perdera no outro canal. ?Ops, ops?, cortou o aclamado âncora Bernard Shaw. ?Não ainda. É só uma projeção.? Alertado por assessores, de novo Gore levantou o fone do gancho. Teclou o mesmo prefixo 512 de Austin, Texas, repetiu o número chamado e disse ao adversário que o que falara não valia mais. Mesmo embaraçado, segundo a porta-voz da campanha de Bush, Karen Hughes, o governador teve presença de espírito. ?Senhor presidente, faça o que o senhor tiver de fazer.? Quase dia claro, nas telas ecoaram uma sucessão de interjeições ?inacreditável, inacreditável?. ?É a história do ano?, disse uma loira charmosa da CNN. ?Quer dizer, do século?, corrigiu-se. Os jornais impressos também deram seguidos escorregões. As primeiras edições na madrugada anunciavam Bush como presidente. Depois soltaram outras edições desmentindo a primeira. O Orlando Sentinel enviou quatro edições sucessivas às bancas, cada uma com uma manchete diferente. O New York Times rodou 100 mil exemplares alardeando a vitória de Bush. Voltou atrás. No mesmo dia, cópias com a manchete errada já eram leiloadas e atingiam o preço de US$ 30, contra os US$ 0,25 estampados na capa. O lendário jornalista Ben Bradley, hoje diretor da empresa que edita o The Washington Post, resumiu a sucessão de trapalhadas ao responder uma pergunta de Larry King: ?Todos quiseram sair primeiro com a notícia?, disse ele. Comparações históricas foram inevitáveis. Muitos lembraram a clássica foto do presidente eleito Harry Truman segurando um jornal que anunciava a vitória que não aconteceu de seu adversário Thomas Dewey.

QUEM ESCOLHE GORE?

 

O preferido da maioria dos americanos, vítima do sistema

Nas urnas, o candidato do Partido Democrata, Albert Gore Jr., foi o grande vitorioso da mais bizarra eleição americana de todos os tempos ? mesmo que isso não lhe garanta a principal cadeira da Casa Branca. Gore cravou uma diferença superior a 200 mil votos populares sobre seu adversário George W. Bush. Não é uma vantagem consagradora, já que mais de 120 milhões de americanos compareceram às cabines eleitorais. Mas Gore sempre poderá dizer que a voz das ruas clamava por seu nome e que só não sucedeu a Bill Clinton devido a uma idiossincrasia do sistema eleitoral do País. Além disso, no mínimo, adiou uma vitória que os republicanos chegaram a comemorar e ele próprio a admitir.

Se realmente Gore não conquistar o cargo de homem mais poderoso do mundo, será em função de seus próprios tropeços ? e que tropeços. A lista de erros que um candidato pode cometer em campanha foi percorrida de A a Z. Ele admitiu ter desempenhado papel decorativo na Casa Branca, riscou o patrono Bill Clinton de seu vocabulário e subestimou Bush. Renegou o grande trunfo eleitoral que qualquer candidato democrata poderia ter: o legado de oito anos de crescimento econômico ininterrupto. Sua principal bandeira, o protecionismo econômico defendido pela poderosa central sindical AFL-CIO, só foi empunhada no meio da corrida, quando os representantes dos trabalhadores lhe deram um ultimato em troca de apoio. ?Gore andou em ziguezague?, disse à DINHEIRO Evelyn Dubrow, assessora da central. Os republicanos passaram a chamá-lo de índio de madeira ? alto, bonito, forte, mas que não consegue falar nem andar. Quando despertou, Gore tentou a virada. Desenvolveu o ?rally de 30 horas?, um comício após outro para varrer os estados de Michigan, Wisconsin, Ohio e Illinois, onde havia 72 votos no Colégio Eleitoral em jogo. Em seu estado natal, Tenessee, perdeu. Ali ele construíra sua carreira política, com um mandato para a Câmara dos Deputados aos 28 anos, uma vaga no Senado aos 36 e o posto de vice-presidente aos 44. Milhares de seus correligionários, porém, deram a demonstração mais emocionante da campanha ao ficarem sob chuva, em vigília diante do Memorial aos Mortos da II Guerra, na expectativa da contagem final dos votos da Flórida. Ao saberem que Gore voltara atrás e resolvera anunciar que a campanha continuava, festejaram como se tivessem, afinal, vencido ? o que, de certa forma, as urnas confirmavam.


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