A moeda do “sur-real”

A moeda do “sur-real”

Soou como a mais nova piada econômica produzida por delírios de governantes que não enxergam nada mais à frente do que o oportunismo político. Com o objetivo de dar um aceno ao parceiro argentino Mauricio Macri e estimular a sua campanha eleitoral, o mandatário brasileiro tirou dos escaninhos embolorados que remontam a origem do Mercosul a malfadada ideia de uma moeda única a servir para todos as nações do bloco. De tão insustentável seria a medida que ela nem foi considerada seriamente no meio dos especialistas, descrita por eles como uma aventura inviável sem qualquer sustentação técnica.

Assim ficou combinado: Bolsonaro fez seu jogo de cena para a plateia, recebeu os tradicionais tapinhas nas costas do parceiro Macri, posou para fotos e o assunto encerrou ali. É elementar que uma união monetária desse calibre não tenha a menor chance de ir adiante pela disparidade de condições, em todos os sentidos, entre os países envolvidos. Tome-se, por exemplo, o fato de o Brasil contar hoje com reservas da ordem de US$ 380 bilhões, enquanto a Argentina, em situação pré-falimentar, dependa de empréstimos do FMI.

Como equalizar câmbios nessas condições? As desproporções no campo da inflação, dos juros, do PIB e outras mais seriam impeditivos adicionais para uma convergência dessa natureza. O delírio ainda encontra entraves na multiplicidade de bases de impostos dos diversos envolvidos e na falta de entendimento mínimo sobre como seguir com o desenvolvimento do bloco. Uma pergunta básica: essa moeda, que chegou a receber a alcunha debochada de “Sur-Real”, pelo surrealismo nela embutido, teria lastro em que tipo de riqueza? Commodities brasileiras? Petróleo venezuelano? As dúvidas se multiplicam, até porque a integração de economias e de leis tributárias – pressupostos para a união monetária – ainda está longe do ideal.

Há diferenças monumentais que colocam os vizinhos em eterno conflito. E seria mais honesto prever a separação em diversas áreas de atividade para um desenvolvimento mais robusto de cada um. O fim do Mercosul já esteve até na agenda de presidentes anteriores. E Bolsonaro resolveu propor o contrário, só que sem amparo para tamanho desatino. A União Europeia levou 30 anos de negociações e entendimentos para conseguir equalizar mercados e adotar o euro.

O Mercosul, certamente, teria trabalho para mais de duas gerações antes de pensar em algo minimamente semelhante. Só não há como passar em branco no assunto porque foi levantado por aquele que deveria ser o primeiro a liderar propostas equilibradas sobre um acordo multilateral que trouxe ao Brasil tantas dores de cabeças como negócios. Por enquanto, fica como está.

(Nota publicada na Edição 1125 da Revista Dinheiro)

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Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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