A melhora para o trabalhador

A melhora para o trabalhador

É no campo do consumo e da renda do trabalho que estão surgindo as notícias mais alvissareiras. Depois de quase cinco anos de piora sistemática na desigualdade de renda do trabalho eis que, ao final do ano passado, a curva dos números passou a mostrar uma inversão importante. Os cálculos da Fundação Getúlio Vargas dão conta de que o índice de renda domiciliar per capita do trabalho ficou razoavelmente superior no quarto trimestre de 2019 em relação ao mesmo período de 2018. O indicador varia de um a zero, sendo zero o nível ideal por traduzir, no método da Instituição, uma distribuição perfeita de renda. Pois bem, no período analisado ele ficou em 0,627, pouco abaixo do 0,628 de 2018. Parece ínfima a variação, mas representa um resultado e tanto após seguidos anos de agravamento da taxa. Essa variável, decerto, contribui de maneira significativa para assegurar que o País está mesmo às portas de um novo ciclo de recuperação. A desigualdade sempre foi uma das maiores chagas de nossa economia e ganhou status de calamidade durante os anos de recessão recente. O retrocesso foi duramente sentido pelas famílias de mais baixa renda, que além de perderem recursos do trabalho para a subsistência deixaram de contar, nos casos mais graves, com o próprio emprego. Sem trabalho, muitos engrossaram o mafuá de pedintes de rua. A virada no cenário agora é acompanhada por uma significativa melhora nas expectativas das famílias brasileiras. O otimismo está de volta. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) também concluiu levantamento que mostra os brasileiros mais animados para consumir. A intenção de compras, ainda pelos dados da CNC, atingiu 99,3 pontos em fevereiro, o nível mais alto desde o início de 2015. De lá para cá, o número foi oscilando de acordo com a variação do PIB, mas jamais entrou no ritmo que experimenta hoje. O varejo está em festa, apesar do resultado abaixo do esperado para as vendas da virada do ano. O que ampara esse entusiasmo é a perspectiva de que, daqui por diante, os sinais só melhorem. Apesar dos desarranjos políticos, ninguém no meio acredita que a escalada do crescimento vá sofrer abalos significativos ao longo do ano. Para a maioria, o pior realmente passou. No ano passado, por exemplo, o consumo cresceu cerca de 1,8% – acima, inclusive, do PIB – e muitos comerciantes e prestadores de serviços trabalham com a hipótese de que esse índice possa até dobrar em 2020. A movimentação ainda não é suficiente para dinamizar a indústria. O chão de fábrica vem de um período tenebroso. Mas já é um começo saber que uma ponta importante do processo passou a exibir boas reações.


Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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