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A lama virou ouro?

Uma das maiores mineradoras do mundo, a Vale dispara em produção, vendas e rentabilidade, deixando para trás os problemas causados pelo rompimento de barragens e os receios sobre sua capacidade de reação. Hoje a empresa é duas vezes mais que o Itaú e quase o dobro da Petrobras.

Crédito: Marcelo Coelho

A imagem mais didática para mostrar o que se passou com as ações da Vale nos últimos dois anos é uma comparação entre dois números. No dia 6 de maio de 2019, antes da pandemia e ainda no rescaldo da tragédia de Brumadinho, o valor de mercado da mineradora era de R$ 258,5 bilhões. Ela estava em quinto lugar em capitalização na Bolsa. Ficava atrás de Petrobras, Itaú Unibanco, Ambev e Bradesco. Exatos dois anos depois, enquanto este texto estava sendo escrito, essa cifra havia subido para R$ 568 bilhões. O valor de mercado da Vale hoje supera o da Petrobras e do Itaú Unibanco somados. Nesses 24 meses, a valorização de suas ações foi de 119,8%. O Ibovespa subiu 25,8%. E, na avaliação dos analistas de mercado, há espaço para mais.

Em pouco mais de dois anos, a imagem da mineradora foi do inferno ao paraíso. No dia 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem do Córrego do Feijão matou 270 pessoas e deixou 11 desaparecidos, em sua grande maioria funcionários e prestadores de serviços terceirizados. Foi o segundo grande acidente em pouco mais de três anos. Em novembro de 2015, uma barragem da Samarco, controlada pela Vale e pela australiana BHP Billiton, se rompeu na cidade mineira de Mariana. O rompimento matou 19 pessoas e despejou 43,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos no Rio Doce.

Sem contar a tragédia humana e ambiental, o horror em Brumadinho levou a Vale a ter de arcar com a maior multa da história do País. Foram R$ 37,7 bilhões em indenizações, valor definido em fevereiro deste ano. O episódio arranhou sua imagem no Brasil e no exterior. Agora ela é considerada uma das empresas mais promissoras da Bolsa. Para os analistas de mercado ouvidos por DINHEIRO, suas ações – que custavam R$ 110 na manhã da quinta-feira (6) – podem chegar a R$ 150 nos próximos meses, na opinião mais otimista, uma alta potencial de 36%.

DEMANDA EM CRESCIMENTO Desde o final de 2020, as siderúrgicas em economias desenvolvidas têm retomado as operações, toada que vai continuar ao longo deste ano. (Crédito:HILAL OZCAN)

Essa mudança profunda na percepção sobre a Vale tem duas causas. A primeira e mais importante delas é o aumento dos preços internacionais do minério de ferro, que está sendo negociado a US$ 192 por tonelada. Em 12 meses, essas cotações avançaram 128% em dólares. Vários analistas acreditam que os preços podem bater o recorde histórico de US$ 200 ainda neste mês. “O preço do minério de ferro pode superar a máxima histórica de 2008, que atingiu US$ 194”, disse o especialista em mercado de minério de ferro e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rodrigo Leite. “O ciclo do minério de ferro não é muito previsível, mas não acredito que haverá mudanças significativas nos próximos dois ou três anos”, afirmou.

As perspectivas são de que a demanda siga aquecida por bastante tempo devido às obras de infraestrutura que devem ser realizadas ao redor do mundo nos próximos anos. Só nos EUA, a administração de Joe Biden conseguiu aprovar no Congresso um pacote de US$ 1,9 trilhão para investir em estradas, portos e ferrovias. Obras demandam aço. E aço requer minério de ferro, o principal produto da Vale. O ex-presidente da mineradora Samarco Roberto Nunes de Carvalho classifica como “impressionante” o momento atual do mercado de minério. “O que dita os movimentos de preço é aquela dupla conhecida, a oferta e a demanda”, disse ele.

Atualmente, a oferta está apertada. E vai permanecer assim devido à estrutura do setor. Quatro grandes produtoras dominam o mercado, a Vale e três rivais australianas: Rio Tinto, BHP e, um pouco atrás, Fortescue. Essas quatro grandes atendem 72% da demanda mundial, que oscila entre 2 bilhões e 3 bilhões de toneladas métricas por ano. Há dez anos, a fatia era de 62%. Mineradoras menores foram reduzindo ou descontinuando suas atividades, ou por não terem preços competitivos ou devido às restrições ambientais. E as empresas da Austrália vêm enfrentando chuvas pesadas, que afetam a produção. Assim, a oferta deverá permanecer inelástica. Ao contrário da procura, que vem crescendo. “A demanda por minério de qualidade como o brasileiro aumentou, especialmemte por parte da China, tanto que eu não vejo o preço retornando aos níveis anteriores nos próximos três anos”, disse Carvalho. Para ele, os produtores brasileiros estão no melhor dos mundos. Além das cotações em alta, o câmbio segue favorável para exportadores.

Segundo o gestor de fundos da Garde Asset Management, Edoardo Biancheri, os prognósticos do mercado são de que as cotações do minério iniciem uma queda lenta. Na ponta do lápis, o preço médio esperado para o minério neste ano é de US$ 140 por tonelada, caindo para US$ 120 em 2022 e US$ 90 em 2023. A partir daí, a projeção é de uma permanência duradoura ao redor de US$ 70 por tonelada, nível confortável para a Vale, mas nem tanto para as concorrentes. No entanto, para Biancheri, esse cálculo terá de ser revisto em breve. “É uma questão aritmética, já estamos em maio e os preços estão acima de US$ 190”, disse ele. “Terá de haver uma queda muito grande no segundo semestre para confirmar essa expectativa, e não parece ser o que vai ocorrer.” Não por acaso, as ações da Vale são uma das maiores posições dos fundos da Garde.

A segunda causa foi que, pelo menos do ponto de vista dos investidores, a Vale fez a lição de casa. Sem entrar no mérito se os bilhões de reais destinados a indenizações são ou não uma compensação justa pelas vidas perdidas e pelos ecossistemas destruídos, neste momento a Vale é considerada uma empresa ajustada e promissora. “Ela tem a capacidade de gerar muito caixa fazendo o que faz bem, que é vender minério de ferro”, disse o especialista em ações da Levante Ideias de Investimento, Eduardo Guimarães. Além da conjuntura de mercado favorável, a companhia adotou uma estratégia financeira extremamente conservadora ao longo de 2020, preparando-se para o impacto da conta a ser paga devido à tragédia em Brumadinho. Ela reduziu seu endividamento e reforçou seu dinheiro em caixa. Com isso, a maior parte do resultado financeiro deverá ser destinado a pagar dividendos para os acionistas. “A Vale gerou quase US$ 5 bilhões em caixa no primeiro trimestre”, disse Guimarães. “E o primeiro trimestre do ano é, historicamente, o pior para os resultados da mineradora.”

Aline Massuca

“A Vale está bem posicionada no mercado de minério de ferro… tivemos de construir porto, mina, duplicar a ferrovia. Não precisamos mais disso” Eduardo Bartolomeo, CEO da VALE.

Segundo o analista, além dos dividendos regulamentares, a Vale – que esteve impedida de distribuir lucros antes de sair a decisão sobre Brumadinho – deve repetir em 2021 o que realizou em 2020 e voltar a pagar dividendos gordos aos acionistas. “O acordo de Brumadinho retirou as incertezas e agora ela está livre para distribuir proventos”, disse Guimarães. Mesmo que a gestão da empresa seja prudente ao definir o porcentual, não se descarta a hipótese de a Vale pagar uma remuneração ao investidor – conhecida pelo nome técnico de dividend yield – ao redor de 9% neste ano. Em comparação, a taxa Selic está em 3,5%. Ou seja, investir na Vale pode render o dobro dos juros de mercado.

PERSPECTIVAS As boas projeções para a Vale não significam que a companhia seguirá no atual ritmo ad eternum. O próprio CEO Eduardo Bartolomeo reconhece que a tendência é de arrefecimento gradual. “Em cinco ou dez anos, a China vai atingir o pico da demanda por minério e a economia circular vai chegar, com o uso de sucata nos altos-fornos”, disse ele ao chinês Caixin, enxergando um horizonte de estabilização da locomotiva industrial do mundo. “Veremos uma queda na demandas na China. Isso tem que acontecer. É natural, ocorreu em todo lugar”, afirmou o CEO.

A declaração de Bartolomeo, no entanto, não tira a euforia dos investidores e executivos da Vale no curto e médio prazos. Segundo o CEO, a queda na demanda total vai ocorrer em sincronia com a alta na demanda do produto de alta qualidade – que é o caso da Vale, que tem um dos minérios de ferro com maior concentração do mundo. Soma-se a isso o fato de que desde o final de 2020 as siderúrgicas em economias desenvolvidas têm retomado as operações de alto-forno, toada que vai continuar ao longo deste ano. A recuperação da demanda de aço foi impulsionada por três fatores principais: o estoque em toda a cadeia produtiva (matérias-primas, produtos intermediários e produtos acabados) foi totalmente utilizado em 2020; as interrupções na logística e no fornecimento aumentaram os atrasos; e as empresas estão retomando os investimentos em um ambiente de juros baixos. “E é por isso que estamos construindo capacidade, principalmente em Carajás. Podemos adicionar capacidade se o mercado demandar alta qualidade.”

EXPANSÃO CHINESA O crescimento da economia chinesa neste ano, que chega a quase 20%, acelera as exportações para o gigante asiático. Não há sinal de queda em curto prazo. (Crédito:Divulgação)

Outro fator que alimenta o otimismo é a estrutura de produção e logística já instalada. Diferentemente do projeto de Carajás (S11D), inaugurado em 2016, quando a Vale precisou investir pesado para criar condições de escoar a produção, hoje está quase tudo pronto. “[Antes] Tivemos de construir porto, mina, duplicar a ferrovia. Não precisamos mais disso. Vamos fazer expansões marginais na plataforma que já temos”, disse. “É por isso que acredito que a Vale está bem posicionada no mercado de minério de ferro.”

Em uma perspectiva de cinco a dez anos, segundo a Vale, se espera que a demanda de aço da China se correlacione mais estreitamente com o crescimento populacional e o progresso da urbanização, em paralelo com o desenvolvimento contínuo dos setores de manufatura. “A demanda por aço na China pode atingir seu pico em algum ponto nos próximos cinco a dez anos e diminuir lentamente, à medida que a população envelhecida traz um efeito de queda na demanda”, disse a empresa, em nota. “Mas a urbanização contínua e o desenvolvimento dos setores de manufatura trazem um incentivo a favor.”

Sob qualquer ângulo, os fatores que compõem o ambiente perfeito para o crescimento da Vale estão reunidos. A mineradora mais valiosa da América Latina lapidou suas estratégias para, agora, aproveitar a maré alta do mercado global de minério de ferro e aço. Por competência e sorte, a companhia está conseguindo transformar a lama dos recentes problemas em negócios que valem ouro.