Estilo

A joia que falta

LVMH, maior grupo de luxo do mundo e dono da Louis Vuitton, oferece US$ 14,5 bilhões pela Tiffany & Co, mas a sedução está apenas no começo

Crédito: iStock

Marcas centenárias. Criadores apaixonados. Peças exclusivas. E dinheiro. Bilhões de dinheiro. Os plot points desta trama, aqueles pontos de virada de um roteiro, são os melhores para um cardápio requintado. E não é cinema. Na última semana de outubro o grupo LVMH, dono de 75 grifes do segmento de luxo, fez oferta para comprar a joalheria americana Tiffany & Co por um valor em torno de US$ 14,5 bilhões. Como num filme, a resposta ainda não foi um ‘sim’ apaixonado. Mas todo mundo sabe qual será o final da história: a Tiffany, por mais que resista, será da LVMH – ainda mais quando o pretendente por trás da investida é o charmosíssimo e obstinado Bernard Arnault, chairman e CEO do grupo.

O LVMH propôs o pagamento de US$ 120 por ação da Tiffany & Co. A assediada achou pouco. O mercado, também. No fechamento anterior à proposta, na sexta-feira (25), as ações da empresa eram negociadas por US$ 98,55. O prêmio de 21,7% não foi suficiente para que a abordagem desse certo. Ainda. O resultado da oferta, no entanto, foi imediato para o valor de mercado da joalheria americana, que terminou a quarta-feira (30) vendida a US$ 123,89 (alta de 25,7% em três pregões). Na quarta-feira seguinte (6) já estava em US$ 124,94 (alta de 26,8% em relação ao período pré-investida). Analistas ouvidos pela Bloomberg estimam que o preço alvo saiu de abaixo de US$ 100 para US$ 130. Isso significa que para levar a joalheria, o grupo de origem francesa precisaria desembolsar ainda mais do que US$ 14,5 bilhões. Para Deborah Aitken, do serviço Bloomberg Intelligence, o LVMH teria até US$ 20 bilhões para a compra. Seria algo quase perto de US$ 165 por ação. É muita bala na agulha.

Cláudio Diniz, CEO da Maison du Luxe (butique na área de Conhecimento, Consultoria e Eventos para o segmento Luxo e Premium), diz que o segmento acredita que o grupo precise de uma marca de joias com bom posicionamento. “O LVMH possui a Bulgari, Chaumet, Hublot, TAG Heuer, mas nenhuma delas tem o grau de importância da Tiffany”, afirma. O LVHM vem com apetite porque apesar de ser o maior do mundo no segmento luxo, e deter as principais marcas de Moda, Beleza e Bebidas, a categoria Joias & Relógios é a única em que o conglomerado não é líder. A aquisição da Tiffany deixaria a corporação com 18,4% de share do segmento de joias de luxo – ultrapassando o grupo Richemont (Cartier), que ficaria com 14,8%. E não liderar não faz parte do repertório de Arnault.

Tiffany & Co: fundada em Nova York, em 1837, a grife ganhou fama com a atriz Audrey Hepburn, em Bonequinha de Luxo, de 1961

Este pisciano francês de 70 anos entrou no segmento luxo ao comprar, em 1984, a empresa por trás da Christian Dior. Ele investiu na LVMH em 1987, assumiu seu controle dois anos depois e em três décadas criou a maior potência de marcas de luxo do mundo, com 156 mil funcionários, atuação em seis segmentos e faturamento de 46,8 bilhões de euros no ano passado. Sua voracidade para negócios o tornou a terceira pessoa mais rica do planeta, pelo ranking da Forbes desta semana, com fortuna de US$ 102 bilhões – atrás apenas de Bill Gates (US$ 106,8 bilhões) e Jeff Bezos (US$ 111 bilhões).

mercado O segmento luxo é dos raros que não enxerga crise. Referência para o setor, o Bain Luxury Study, produzido pela Bain & Company para a Fondazione Altagamma, da Itália, diz que o mercado total movimentou 1,2 trilhão de euros em 2018, crescimento de 5% sobre 2017. O mercado do luxo é dividido em três grandes grupos – Bens (como carros), Experiências (viagens, gastronomia) e Bens Pessoais (roupas, acessórios). Neste último item, considerado o ‘core do core’ do luxo, as receitas em 2018 foram de 260 bilhões de euros, alta de 6% sobre o ano anterior. No Brasil, o mercado de luxo movimentou R$ 26 bilhões no último ano, segundo dados da Consultoria Euromonitor International. O levantamento prevê que, até 2023, ele crescerá para R$ 29 bilhões.

As perspectivas globais seguem pelo mesmo caminho. No estudo Bain/Fondazione Altagamma, as altas estarão entre 3% e 5% ao ano pelo menos até 2025, por causa da ampliação dos consumidores para as gerações millenial e Z e aumento de vendas por e-commerce. Além, claro, da consolidação em públicos consumidores tradicionais, como os americanos e asiáticos. “A compra da Tiffany faz parte da estratégia do LVMH para vender mais no mercado americano, que é o segundo para o grupo em termos de faturamento, sendo a Ásia o primeiro”, afirma Diniz.

LIDERANÇA Bernard Arnault, chairman e CEO do grupo LVMH, enxerga na aquisição da Tiffany um caminho para alcançar o topo no segmento de joias de luxo, à frente da Richemont (Crédito:Joel Saget/AFP)

Uma das principais características do LVMH é incorporar marcas sem que cada uma delas perca identidade – o legado, item nuclear no mundo do luxo. O especialista em mercado de luxo e coordenador da pós-graduação em Gestão e Marketing da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo, Amnon Armoni, diz que o grupo tem um modelo de integração que preserva essa identidade das marcas adquiridas. “Eles têm noção e conhecimento. Vemos isso nos designers separados e identidades absolutamente preservadas”, afirma. “E quando se faz uma aquisição desse tamanho é necessário ganhar volume e diminuir custos. Bernard Arnault sabe também como fazer isso.”

Armoni só enxerga ganho dos dois lados com a confirmação da aquisição. “A Tifanny & Co é uma marca verdadeiramente de luxo, mas possui uma particularidade, ela é uma marca americana. Por mais que a joalheria seja global, ela não tem o mesmo nível de qualquer umas das marcas LVMH. O grupo vai conseguir maximizar o potencial da marca e ganhar muito espaço”, diz. Final feliz – e muito luxuoso – à vista.


Louis Vuitton

Marca que está no DNA do nome do grupo LVHM – as outras duas são o H, de Hennessy (do conhaque) e o M, de Moet & Chandon (do champanhe) – a Louis Vuitton tem uma história quase tão longeva quanto a da Tiffany. Em 1821, em uma pequena aldeia francesa da região de Jura, nasceu Louis Vuitton, oriundo de uma família de carpinteiros e moleiros. Em 1854 – apenas 17 anos após a Tiffany nascer em Nova York –, ele criou em Paris sua empresa, para produzir artesanalmente malas e bolsas. O trabalho foi reconhecido na Europa quando reinventou o formato das malas de viagem, revestida de tecido impermeável, e criou um padrão de desenho diferente comparado ao que havia na época. Em 1885, começou a tornar-se global, ao abrir uma loja em Londres. Um ano mais tarde, apareceu pela primeira vez a logomarca nos produtos, estampando o LV em marrom e bege, utilizada até hoje.


Tiffany & Co

A emblemática Tiffany & Co foi fundada em Nova York em 18 de setembro de 1837, por Charles Lewis Tiffany. Ele se estabeleceu na cidade e abriu a primeira loja da joalheria na Broadway. Com 182 anos de história, a empresa possui 64 endereços no país e outras 103 unidades espalhadas pelo mundo. Ela entrou de vez na cultura popular por meio do filme Bonequinha de Luxo, de 1961, estrelado pela atriz Audrey Hepburn. A matriz, na Quinta Avenida, em Manhattan, é considerada um ponto turístico na cidade e está no Registro Nacional de Locais Históricos dos Estados Unidos. Requintada e com os melhores diamantes disponíveis, a Tiffany passou a ser a favorita da alta sociedade, transformando até mesmo uma simples caixinha de presente – a Tiffany Blue Box – em objeto de desejo. Assim como seu tom claro de azul, conhecido por azul Tiffany.