Entrevista

Michikazu Matsushita, CEO da Panasonic Brasil

A internet das coisas tem um potencial enorme no Brasil

Luisa Santosa

A internet das coisas tem um potencial enorme no Brasil

Depois de elevar sua produção de eletrodomésticos em 240% ao longo de seis anos, a fábrica da japonesa Panasonic em Extrema (MG) agora prepara o lançamento de 20 novos modelos em sua linha branca. Todos eles estarão no mercado até 2020. E a meta é seguir crescendo dois dígitos a cada ano

Valéria Bretas
Edição 26/08/2019 - nº 1135

Há seis anos, a Panasonic inaugurou em Extrema (MG, a sua primeira fábrica de eletrodomésticos fora da Ásia. A empresa japonesa investiu R$ 200 milhões na instalação com o objetivo de ganhar escala no Brasil e transformar o país em um dos seus cinco maiores mercados. De lá para cá, com mais de um milhão de geladeiras produzidas desde 2012, a filial brasileira cumpriu a meta e hoje é a terceira maior do segmento de produtos linha branca fora do Japão. Quem está por trás da estratégia vitoriosa é Michikazu Matsushita, presidente da subsidiária da Panasonic no País. Nesta entrevista à DINHEIRO, o executivo antecipa que agora, já consolidada em território nacional, a marca vai investir em novas tecnologias para tornar seus produtos mais eficientes e econômicos, além de apostar na “internet das coisas”, que conecta objetos à rede de computadores. “Existem grandes oportunidades para explorar esse novo mercado”, diz ele.

DINHEIRO – A fábrica da Panasonic em Extrema (MG) completou seis anos em 2019. O que mudou na operação da empresa com a entrada desta unidade?

MICHIKAZU MATSUSHITA – Com cerca de mil funcionários e mais de 1 milhão de refrigeradores produzidos desde 2012, a fábrica é essencial para a operação da empresa no Brasil. Essa foi a primeira fábrica de linha branca da Panasonic fora da Ásia e tem grande relevância para nós. Ela registrou o crescimento de 50% em 2018 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Além disso, o fato de ela estar localizada próxima aos principais centros comerciais do Brasil, caso de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, também ajudou a contribuir para o nosso desenvolvimento operacional e logístico.

DINHEIRO – Naquela época, a meta era tornar o Brasil um dos cinco maiores mercados da Panasonic. A previsão foi confirmada?

MATSUSHITA – A fábrica foi fundamental para o crescimento da Panasonic no Brasil e em toda a região da América Latina. Se considerarmos o segmento de linha branca da Panasonic, o Brasil já está posicionado como o terceiro maior mercado fora do Japão.

DINHEIRO – A expectativa era de que o retorno dos R$ 200 milhões investidos na unidade chegaria em 2015. A empresa conseguiu isso?

MATSUSHITA – Não podemos divulgar ou detalhar os nossos dados financeiros internos, mas o ritmo de desenvolvimento do nosso negócio de itens da linha branca, como refrigeradores e lavadoras, excede a nossa expectativa inicial. O que posso dizer é que todo esse investimento estratégico foi muito bem-sucedido e também já foi pago.

“O Brasil é um dos mercados mais importantes para a Panasonic devido ao potencial nas vendas de linha branca” (Crédito:Giovanni Del Nero)

DINHEIRO – Qual a relevância do mercado brasileiro para a matriz?

MATSUSHITA – O Brasil é definitivamente um dos mercados mais estratégicos e importantes para a Panasonic devido ao alto potencial de crescimento nas vendas de produtos e soluções para outras empresas, também chamado de B2B, e os eletroeletrônicos destinados ao consumidor final, o B2C. Temos um grande reconhecimento da marca aqui graças ao nosso longo histórico de 52 anos. Dentro da companhia, o Brasil está globalmente posicionado entre os cinco maiores países em termos de vendas de vários tipos de produtos. Na prática, isso representa mais de metade da receita de toda a região da América Latina.

DINHEIRO – Como o senhor avalia o mercado global de eletrônicos?

MATSUSHITA – Em linhas gerais, e independente de considerarmos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, o interesse ou preocupação das pessoas está mudando. Em vez possuir ou consumir algum tipo de item físico, elas querem desfrutar da qualidade de vida real, o que inclui saúde, riqueza mental, economia de tempo, segurança, entre outras coisas. Com esse cenário em mente, nós prevemos grandes oportunidades para explorar o novo mercado consumidor. Acredito que o segmento de hardware convencional se tornará cada vez mais difícil e restrito a partir de agora. Por outro lado, os produtos que resolvem os problemas dos consumidores, somados aos aplicativos ​​conectados por meio de tecnologia de internet das coisas, terão um enorme potencial em um futuro próximo. Em respostas à nova tendência, já estamos lançando várias iniciativas de negócios inovadores no Japão e na China, mas é claro que isso também estará dentro do escopo do Brasil.

DINHEIRO – Ainda há espaço para crescer nos segmentos em que a Panasonic atua no País?

MATSUSHITA – Sem dúvida. Prevemos uma enorme potencialidade de crescimento nos negócios de segmento B2C quanto no B2B. Na área de B2C, nosso principal foco será a linha branca, onde continuamos fortalecendo a linha de produtos de ponta enquanto expandimos a nova linha de embutidos ou pequenos eletrodomésticos. Há também um grande espaço para desenvolver ainda mais o nosso segmento de baterias, que conta com uma fábrica em Manaus. Em relação ao B2B, reconhecemos que há um grande potencial na área de eficiência energética e inovação nos processos de negócios da indústria de manufatura e também no varejo. Nossa recente aquisição das empresas Union Rhac e Digital Full Service aqui no Brasil também está alinhada com essa estratégia.

DINHEIRO – Então o setor de eletroeletrônicos não foi afetado pela crise econômica que enfrentamos nos últimos anos no Brasil?

MATSUSHITA – A volatilidade da economia e do ambiente de negócios às vezes pode afetar nosso ritmo de crescimento em alguns segmentos no curto prazo. No entanto, devido à nossa iniciativa de acelerar vários novos pilares de negócios, tanto no B2C quanto no B2B, e no esforço de diferenciar nossos produtos e serviços no mercado, conseguimos oferecer um crescimento constante e forte, apesar da volatilidade da economia. Além disso, independente da situação econômica, nós valorizamos a grande abertura do mercado brasileiro e dos consumidores, que sempre nos incentivam a desenvolver produtos locais com mais tecnologia e serviços melhores.

DINHEIRO – Os produtos lançados no Brasil têm algum diferencial em relação ao portfólio global?

MATSUSHITA – Produtos lançados no Brasil têm suas particularidades, pois identificamos uma série de necessidades específicas do consumidor por meio de pesquisas. Toda a parte de tecnologia é desenvolvida na nossa sede, mas o design e os detalhes de cada um dos itens são pensados ​​para identificar as necessidades do consumidor brasileiro.

DINHEIRO – Pode dar alguns exemplos sobre o que o consumidor brasileiro exige em relação a outros países?

MATSUSHITA – No segmento de eletrodomésticos, todos os produtos lançados no Brasil foram exclusivamente desenhados para o nosso consumidor. Trazemos a tecnologia japonesa com adaptações para o mercado local. Vou te dar um exemplo. Os refrigeradores do Brasil possuem mais espaço para as caixas de suco ou leite tetra pak, gavetas de legumes e verduras maiores, um compartimento específico para gelar mais rápido as latinhas, já que há uma clara demanda por consumir cerveja gelada, e outros atributos para atender o consumidor da melhor maneira.

“Com certeza a batalha comercial gera muita instabilidade, mas o maior reflexo para o negócio é a variação cambial” (Crédito:Divulgação)

DINHEIRO – O possível acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul poderia ter algum impacto positivo na operação brasileira?

MATSUSHITA – Apesar de ainda estarmos reunindo informações relevantes, não prevemos nenhum impacto direto em nossos negócios e operações.

DINHEIRO – De que forma a guerra comercial entre China e Estados Unidos pode afetar os negócios?

MATSUSHITA – Com certeza essa batalha comercial gera muita instabilidade, mas o maior reflexo para o nosso negócio pode ser na variação cambial e no que poderia impactar no custo das commodities, pois a maioria das nossas matérias primas tem esse vínculo direto.

DINHEIRO – Qual é o diferencial da Panasonic em relação aos principais concorrentes?

MATSUSHITA – A Panasonic é líder mundial no desenvolvimento de uma variedade de tecnologias e soluções eletrônicas para clientes nos setores de eletrônicos, habitação, automotivo e B2B. Por atuarmos em diversas áreas, conseguimos expandir globalmente a operação e agora temos 582 subsidiárias e 87 empresas associadas em todo o mundo. É importante ressaltar que reportamos vendas líquidas consolidadas de US$ 72,10 bilhões no ano fiscal de 2018. Esses números e a maneira como trabalhamos tornam a Panasonic única.

DINHEIRO – Que tipo de tecnologia está no radar da empresa agora?

MATSUSHITA – A Panasonic está oferecendo cada vez mais produtos que ajudam as pessoas a economizar recursos, algo que é fundamental e muito discutido no Brasil atualmente. No geral, tecnologias como a Econavi, um sistema inteligente que aumenta a economia de energia de acordo com a forma que o consumidor utiliza o produto, e a Inversor, que reduz o consumo de energia em 40%, são iniciativas que já contribuem para isso. Planejamos manter esse foco de ajudar os brasileiros a viver de forma sustentável ao tornar os nossos produtos mais eficientes.

DINHEIRO – Existem planos de expansão para o Brasil?

MATSUSHITA – Vamos acelerar ainda mais o crescimento dos negócios no Brasil com mais investimento em nossa operação. No entanto, não posso revelar números detalhados devido à política interna da Panasonic.

DINHEIRO – Que tipo de produtos a Panasonic ainda não fabrica no país, mas pretende começar?

MATSUSHITA – Identificamos várias possibilidades no mercado e precisamos procurar alternativas para explorá-las, mas não posso entrar em detalhes sobre elas neste momento.

DINHEIRO – Qual é o maior desafio para a empresa hoje?

MATSUSHITA – Olhando para o que a Panasonic representa no mundo, a possibilidade de trazer outras linhas para o Brasil e crescer nosso portfólio é enorme. O desafio é acelerar a expansão do nosso leque de produtos com base na estratégia e força de negócios global da Panasonic, mas de uma forma que todo esse plano e tecnologias possam ser adaptados ao mercado e aos clientes no Brasil.

DINHEIRO – O que podemos esperar para 2019?

MATSUSHITA – Nos produtos da linha branca, a empresa registrou um crescimento de 240% na produção entre 2013 e 2018. A nossa expectativa é continuar evoluindo. Até 2020, a nossa ideia é lançar ainda 20 novos modelos de linha branca. É claro que isso exige um investimento, mas, por política interna, não podemos revelar os detalhes.

DINHEIRO – E qual é o próximo passo para a Panasonic?

MATSUSHITA – A meta é um crescimento de dois dígitos por ano até 2021. Em relação à estratégia de médio prazo, o objetivo é consolidar cada vez mais a marca no cotidiano dos brasileiros, mas também ajudá-los a levar uma vida mais sustentável.

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