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A inflação não dá trégua

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Caiu por terra qualquer esperança minimamente razoável de uma economia estável ao longo de 2022. A revelação do índice de inflação de 2021 na casa de 10,06%, ou em um patamar que equivale a mais do dobro da meta preestabelecida pelo Banco Central, demonstra que o País já está rodando em outro ritmo, numa nova dimensão de carestia, da qual vai demorar a sair. Os preços entraram em órbita de remarcação constante e cada um deles puxa os demais, na mesma espiral de degradação inflacionária que consumiu renda e produção em tempos pretéritos. É triste constatar, mas o dragão do passado reviveu e está mais ativo do que nunca. No mesmo dia do comunicado da taxa de dois dígitos, que foi cravada na virada do ano, a Petrobras informava que iria aumentar o valor do litro de combustível em 8%. Com ele segue o reajuste de diversos derivados e a cadeia de remarcações avança sem controle. Na contabilidade de remarcações das mercadorias, o etanol já subiu 62% apenas em 2021. O café passou de 50% no período. É uma safra de números explodindo que pressiona o custo de vida brutalmente. O Banco Central, como autoridade monetária, voltou a público como combinado para explicar o descumprimento da meta. Diga-se de passagem que esse é o pior índice inflacionário desde 2015, portanto dos tempos mais nebulosos do governo Dilma Rousseff. O BC sustenta como justificativas os motivos óbvios: pandemia e variação dos custos externos. Talvez propositadamente, esqueceu-se de mencionar a falta das reformas estruturais, prometidas e não cumpridas pelo governo; o descontrole do câmbio e a ausência de políticas públicas de sustentação de emprego, renda e consumo. E, claro, a frustração das privatizações, de um planejamento para a retomada e a responsabilidade ativa do Estado no agravamento da pandemia e no estouro da meta fiscal. Na pororoca de problemas, ainda não resolvidos, deve persistir a instabilidade ao longo do ano. O Brasil vive uma era de incertezas e, certamente, esses revezes econômicos devem se refletir negativamente na campanha eleitoral do mandatário. A inflação em desabalada carreira cai como um balde de água fria sobre as pretensões de reeleição. Afinal, como até as pedras do Planalto sabem, a maior variável determinante nas urnas é a da saúde econômica que, no momento, não existe. Mesmo os benefícios do Auxílio Emergencial e as emendas secretas fora de hora, que devem turbinar obras em regiões de currais eleitorais, parecem insuficientes para fazer transparecer alguma sensação de melhoria da qualidade de vida. Afinal, a carestia tudo destrói e consome pela frente. Muitos acreditavam que apesar do acelerado estouro inflacionário, o equilíbrio entre oferta e demanda logo seria restabelecido. Ledo engano. A retração das compras virou uma realidade. O temor do futuro ainda é o grande entrave. A falta de insumos externos também força o encolhimento da oferta. Carros, por exemplo, quase não existem mais para vender. Com poucos produtos e parcos consumidores, os preços altos e em alta prevalecem. E não darão trégua.

Carlos José Marques Diretor editorial