Edição nº 1108 15.02 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

João Carlos Marchesan, presidente da Abimaq

A indústria só não afundou porque as exportações estão indo muito bem

A indústria só não afundou porque as exportações estão indo muito bem

Marchesan dedicou grande parte de seu tempo, nos últimos meses, a elaborar uma espécie de cartilha de propostas do setor industrial para os candidatos à Presidência

Hugo Cilo
Edição 05/10/2018 - nº 1090

O industrial paulista João Carlos Marchesan, dono da fabricante de implementos agrícolas que leva seu sobrenome, quase não tem sido visto na sede de sua empresa em Matão, no interior paulista Como presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), entidade que representa 7 mil empresas, que tiveram receita de R$ 66 bilhões em 2017, Marchesan dedicou grande parte de seu tempo, nos últimos meses, a elaborar uma espécie de cartilha de propostas do setor industrial para os candidatos à Presidência. Os principais nomes da corrida eleitoral chegaram a ser sabatinados na sede da Abimaq, na zona Sul de São Paulo, ouviram algumas reivindicações e muitas reclamações. “É importante todos saberem que a indústria no Brasil representava 30% do PIB na década de 1980 e hoje está em 10%”, disse o empresário. Segundo ele, o próximo governo, seja qual for, terá de criar uma política industrial robusta para conseguir gerar empregos e promover o crescimento econômico. Acompanhe, a seguir, sua entrevista:

DINHEIRO – A Abimaq, historicamente, sempre reivindica incentivos que nunca vêm. Agora, com a mudança de governo, há uma nova esperança?

JOÃO CARLOS MARQUESAN – O Brasil precisa criar, urgentemente, uma política de Estado. Nos últimos anos, a indústria só não afundou porque as exportações estão indo muito bem. O Brasil saiu da recessão, mas não está crescendo internamente. Hoje, apenas metade das indústrias exporta. A outra metade depende do mercado interno. Tanto é que, atualmente, 49% do faturamento das 7 mil indústrias associadas à Abimaq vêm das exportações, um número que comprova a importância de se fortalecer as vendas para fora.

DINHEIRO – O dólar está ajudando muito…

MARCHESAN – Realmente. Um câmbio competitivo para a indústria é algo entre R$ 3,70 e R$ 3,80, mas não é uma cotação industrializante. Para que a indústria tenha condições de recuperar parte das perdas dos últimos anos e estimular os investimentos dos empresários, o dólar precisa permanecer acima de R$ 4,00.

DINHEIRO – Então, a indústria está surfando no dólar mais caro?

MARCHESAN – O problema é a volatilidade. O dólar subiu muito em função da insegurança gerada pelo ambiente eleitoral, mas vai se estabilizar em um patamar mais baixo nas próximas semanas. O grande desejo da indústria é que se tenha um câmbio flutuante, mas que seja previsível. Só assim o Brasil terá um ambiente mais competitivo para exportar. Do jeito que está, tem hora que ganha muito dinheiro, mas tem hora que perde muito dinheiro. Um câmbio mais previsível garante uma constância nas exportações.

DINHEIRO – Isso foi dito aos candidatos?

MARCHESAN – Sim. Entregamos para todos os candidatos à Presidência cartilhas que, em resumo, pedem o combate a volatilidade, o que ajudaria a modernizar a indústria e a baixar o chamado ‘custo Brasil’. Esse é o caminho do desenvolvimento. Para o Brasil voltar a crescer, precisa aumentar as exportações. Um câmbio oscilante previsível é melhor do que um câmbio estável muito barato.

DINHEIRO – Mas os empresários pedem menos interferência do governo e, ao mesmo tempo, querem políticas que desvalorizem o real?

MARCHESAN – Todos os países protegem as suas moedas. Se olharmos para a briga entre a China e os Estados Unidos, veremos que o pano de fundo é a política de desvalorização da moeda chinesa, além dos incentivos todos que o governo oferece para os exportadores. O único país do mundo que exporta impostos agregados ao custo do produto é o Brasil. País nenhum exporta impostos. Ao contrário, a China oferece um tipo de Reintegra, regime especial de redução de impostos para exportadores, de 15%.

DINHEIRO – Qual deverá ser, então, a prioridade do próximo governo?

MARCHESAN – O próximo governo terá de se voltar à recuperação da competitividade brasileira, destruída nos últimos trinta anos. Nesse período, o País deixou de crescer e de se industrializar. O processo de desindustrialização foi resultado de alquimias de políticas econômicas implementadas tanto por governos de esquerda quanto de direita. Uma série de planos e mais planos, cada novo economista com suas próprias ideias, levou o Brasil ao atoleiro. Nós, brasileiros, fomos vítimas dessas experiências fracassadas e acabamos pagando a conta. Além do câmbio, precisamos aprofundar as discussões em torno do ‘custo Brasil’.

“O próximo governo terá de se voltar à recuperação da competitividade, destruída nos últimos trinta anos”Linha de produção da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP)

DINHEIRO – Os candidatos se sensibilizaram com as demandas da indústria?

MARCHESAN – Sim. Conversamos com todos eles para mostrar o que a indústria precisa para crescer e se tornar mais competitiva. É importante todos saberem que em 1947 a indústria era incipiente no Brasil e representava 2% do PIB. Chegou a 30% do PIB na década de 1980. Hoje está em 10%. Isso tudo reflete a falta de competitividade. A China exportou no ano passado US$ 2,835 trilhões, mais do que PIB brasileiro. O Brasil, com todo o agronegócio junto, exporta US$ 224 bilhões. É uma diferença muito grande. Mesmo a Itália, um país que caberia dentro do Estado de São Paulo, exporta US$ 554 bilhões por ano, o dobro do nosso resultado. Em 1980, a economia brasileira era maior do que a da China e a da Coreia do Sul, juntas. Hoje, olhe para quem é a China, quem é a Coreia do Sul e quem somos nós. Então, estamos longe de onde devemos chegar. Sem uma política industrial robusta, estamos sempre andando em círculos, como um cachorro correndo atrás do rabo. Temos de sair desse vício de sempre falar do mesmo assunto, mas ficarmos sempre enroscados no mesmo paradigma.

DINHEIRO – Mas a falta de competitividade é crônica no Brasil…

MARCHESAN – Passamos recentemente pela pior e mais duradoura crise da nossa história. De 2011 para cá, o estrago que foi feito na economia do Brasil é incalculável. O tecido social foi desgastado. Hoje se fala em mais de 30 milhões de desempregados e subempregados. Um quarto da população economicamente ativa está sem condições de consumir nada além do essencial para a subsistência. Por isso, é um problema que precisa ser consertado.

DINHEIRO – Algum candidato apresentou um plano concreto para estimular a indústria?

MARCHESAN – Todos os candidatos e seus economistas concordam que é preciso definir uma política de Estado que crie um ambiente de incentivo aos investimentos, quer seja em infraestrutura, quer seja no incentivo ao consumo das famílias. Não vou citar nomes agora, porque em um período eleitoral pode gerar interpretações equivocadas. O que posso dizer é que, de nenhum candidato, vi um plano definido ou um esboço de como será feita a reindustrialização do Brasil. Por isso, estamos em contato direto e permanente com os economistas formuladores dos planos econômicos dos principais candidatos.

DINHEIRO – Mas o que a Abimaq defende: um governo menos intervencionista, mais liberal e de livre mercado, ou um Estado que tenha políticas de controle de câmbio e de proteção da indústria?

MARCHESAN – Temos de ter um Estado necessário no Brasil. Nem mínimo, nem máximo. O ideal é estar no meio. Somos favoráveis que o País se insira nas cadeias globais de produção. Temos falado muito sobre a importância de se promover uma abertura comercial, de fazer o Brasil crescer e gerar empregos pelo caminho da reindustrialização. Vimos que alguns têm ideias mais equivocadas, outros têm ideias mais fortes. Fizemos um estudo que mostra que o Brasil precisará investir, nos próximos 20 anos, R$ 8,8 trilhões em infraestrutura. Em saneamento serão necessários mais R$ 500 bilhões. Por outro lado, as obras que estão inacabadas se depreciam R$ 250 bilhões por ano.

DINHEIRO – A ideia é abrir ou fechar o mercado?

MARCHESAN – O próximo governo precisa fazer uma abertura comercial inteligente. Uma abertura de mercado mal elaboradora, executada de uma hora para outra, vai prejudicar ainda mais a situação. Não haverá ganho. A abertura deve ser feita em conjunto com a definição de uma política de competitividade. Como abrir a economia tendo uma estrutura tributária complexa e falha como a nossa? Como expor a economia sem rever a questão dos acordos comerciais? Temos de jogar aqui dentro o mesmo jogo lá de fora. Isso passa por uma reforma tributária.

DINHEIRO – A indústria brasileira está preparada para um eventual acordo de livre comércio com a União Europeia?

MARCHESAN – Somos a favor desse acordo, mas a abertura deve ser escalonada. A própria União Europeia, que tem defendido seu mercado agrícola, principalmente, está colocando obstáculos para que esse acordo seja feito. O livre comércio poderá afetar não só o Brasil, mas também os outros países do Mercosul.

“O único país do mundo que exporta impostos agregados ao custo do produto é o Brasil”Terminal de contêineres no Porto de Santos, a principal rota de exportação do Brasil

DINHEIRO – Mas o Mercosul, visto pelo mundo como um bloco de países fracassados, não deveria fazer algo para ter mais acesso aos mercados globais?

MARCHESAN – O que nós entendemos é que essa abertura precisa ser feita de forma gradual, dentro de um prazo de 15 anos. Assim, os países podem ir melhorando sua competitividade. Essa é uma preocupação maior das maiores economias do Mercosul. O Brasil tem uma indústria forte. A Argentina ainda tem indústria, mas o Paraguai e o Uruguai não têm indústria.

DINHEIRO – Quinze anos não é muito tempo em um País que pressiona por mudanças estruturais mais rápidas?

MARCHESAN – Seria em até 15 anos. Mas, realmente, a sociedade brasileira está exaurida na sua paciência. Depois de ver tanta coisa ruim acontecendo na política e na economia, perdeu a paciência por completo. Temos um País rico, farto, abundante e continental. Não podemos aceitar viver em uma situação dessas. Então, o próximo presidente que assumir o comando em janeiro, e que tiver atitude de fazer as reformas e diminuir o peso do Estado, vai fazer a economia brasileira crescer.

DINHEIRO – Essa paciência exaurida é o que explica o extremismo dos eleitores?

MARCHESAN – Não restam dúvidas. Essa é uma eleição única. Quase um plebiscito. Uns apostam que a solução virá de uma forma, outros acreditam que virá de outra. Mas todos buscam o mesmo objetivo. É consenso que o Brasil precisa tomar um novo rumo para sair do atoleiro que se enfiou com as políticas equivocadas dos últimos anos, tanto da esquerda quando da direita.

DINHEIRO – Passada a eleição, a economia voltará aos trilhos?

MARCHESAN – Acredito que sim. Um equilíbrio fiscal mais contundente é essencial para melhorar o ambiente de negócios e a segurança para os investimentos. Estamos com inflação controlada, Selic baixa e consenso sobre a importância das reformas. Por isso, temos tudo para decolar em 2019.

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