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Entrevista

Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea

A indústria automobilística não vai apenas produzir carros. Ela será prestadora de serviços de mobilidade

Gabriel Reis

A indústria automobilística não vai apenas produzir carros. Ela será prestadora de serviços de mobilidade

Ao assumir a presidência da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, o executivo que fez carreira na Mercedes-Benz injeta novo combustível em um setor que passa pela maior revolução de sua história em todo o mundo

Gabriel Baldocchi, Leonardo Motta
Edição 26/04/2019 - nº 1118

De caminhões a comerciais leves, passando por projetos de novas fábricas e investimentos no exterior, o economista Luiz Carlos Moraes, 59 anos, já lidou com os mais diversos aspectos da indústria automotiva. Os desafios que enfrentou em quatro décadas na Mercedes-Benz também o tornaram especialista em conjuntura nacional. Aprendeu na prática a lidar com temas que estão na pauta do setor, como custo Brasil e abertura comercial. Sua recente eleição para presidir a Anfavea evitou um racha na entidade. Ao tomar posse, na terça-feira 23, para o mandato até 2022, o conciliador Moraes já sabia que teria pela frente alguns dos maiores desafios de sua carreira, para os quais precisará da união de todas as montadoras. Nesta entrevista exclusiva à DINHEIRO, ele detalha os planos das empresas para lidar com a revolução da mobilidade e antecipa as mudanças pelas quais essa indústria deverá passar nos próximos anos.

DINHEIRO – A perspectiva da Anfavea é de alta de 9% na produção de veículos em 2019. Considerando o recuo no primeiro trimestre, essa meta ainda é possível?

LUIZ CARLOS MORAES – A previsão se baseou num determinado crescimento do PIB, no controle da inflação e numa taxa de juros mais adequada ao atual momento. Achamos que isso está se confirmando no faturamento diário, dos diversos setores ­ automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus.

DINHEIRO – O setor automotivo está indo na contramão da indústria. Qual é o segredo?

MORAES – A indústria passou por um momento muito difícil nos últimos três anos. A gente está saindo de uma base baixa e é natural que as frotas nas ruas comecem a ser renovadas. No caso de veículos comerciais, há veículos envelhecidos circulando. No caso de automóveis, a gente percebe que a inadimplência caiu. Tudo isso colabora, na média, para que a gente tenha um mercado mais robusto este ano.

DINHEIRO – Olhando além do setor, o senhor enxerga algum problema estrutural na indústria brasileira?

MORAES – A gente acha que é preciso aprovar as reformas, começando pela Previdência. Ela vai trazer um ambiente de negócios mais favorável para o investimento e para o consumo. Isso é fundamental para ter um crescimento mais robusto e não ser um novo voo de galinha como no passado.

DINHEIRO – O senhor vê o risco de um novo “voo de galinha” na economia brasileira?

MORAES – Esperamos que não aconteça. A nossa aposta é que a reforma será aprovada e será robusta. Não tem saída. Precisamos de uma reforma profunda para ter a economia funcionando rapidamente em velocidade de Fórmula 1.

“A discussão (da reforma da Previdência) é necessearia para as pessoas entenderem”Aprovada pela CCJ na terça-feira 23, a proposta de reforma da Previdência exaltou os ânimos no Congresso (Crédito:Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil )

DINHEIRO – Diante das dificuldades de articulação, o senhor não teme que a reforma seja diluída ao passar no Congresso?

MORAES – Tem desgaste, esse vai e volta no Congresso, mas isso faz parte do debate. É natural. Não é um tema simples de se explicar. Mas é necessário e a gente apoia a forma como o governo propôs. Achamos que, se ela for fraca, teremos de enfrentar esse problema de novo lá na frente.

DINHEIRO – Como o senhor avalia a posição do presidente Jair Bolsonaro em relação à reforma da Previdência?

MORAES – O presidente fez a parte dele. O debate técnico já está sendo feito de forma adequada. Ele encaminhou a proposta ao Congresso, mas não é só o presidente que tem que articular. É todo um grupo de executivos do ministério, o ministro, os presidentes da Câmara e o do Senado. Isso faz parte da democracia. A discussão é necessária para as pessoas entenderem.

DINHEIRO – A indústria automobilística tem hoje capacidade ociosa. Mas algumas fábricas foram incentivadas pelo programa Inovar Auto. Foi um equívoco? Como resolver esse problema agora?

MORAES – Não. O Inovar Auto não criou esse problema. Existia expectativa de crescimento da economia que atraiu investimentos. Temos 200 milhões de habitantes, havia um potencial enorme e a gente estava apostando num crescimento robusto. Infelizmente, o Brasil passou pela maior crise da sua história. Então, não foi o Inovar Auto que provocou isso, foi a situação econômica do País.

DINHEIRO – Que lição fica do programa?

MORAES – O Inovar Auto trouxe uma série de exigências, criou mais obrigações. Nesse sentido, concordo que não ajudou muito. Aprendemos que é preciso deixar o setor privado decidir o que fazer e como fazer. Agora tem o lado benéfico, como as metas de eficiência energética, por exemplo.

DINHEIRO – Qual é a sua avaliação do programa Rota 2030?

MORAES – É um trabalho que foi desenvolvido pela Anfavea nos últimos três anos, para dar previsibilidade à indústria. A gente sabe o que tem que entregar e quando tem que entregar. Dá para programar os investimentos sem aumento de custo por falta de previsibilidade, essa é a grande vantagem. Além disso, estamos entregando veículos mais seguros.

DINHEIRO – A Ford anunciou o fechamento de uma fábrica na região do ABC paulista num momento em que o setor se recupera. Há risco de novas fábricas serem encerradas?

MORAES – É uma decisão estratégica da empresa que resolveu sair de um determinado segmento e se concentrar em outro. A indústria automobilística no mundo está passando pela maior revolução da sua história. As empresas vão definir as áreas de atuação para poderem ser mais competitivas. Quanto mais a gente reduzir o custo Brasil e melhorar a competitividade, mais investimento teremos. Há espaço para uma produção maior. Em 2013, produzimos 3,8 milhões de carros. Aí veio a crise. Hoje, temos produção de 2,8 milhões. A gente vai conseguir manter a atratividade para a indústria como um todo.

DINHEIRO – Qual o futuro da indústria automotiva?

MORAES – Você vai ter conectividade. A indústria de aplicativos vai crescer, gerar empregos. A posse do veículo será compartilhada e nós, indústria, teremos que atuar em outros segmentos. Eu até brinco que a indústria automobilística não vai apenar produzir carros. Será prestadora de serviços de mobilidade. Isso implica uma mudança radical do modelo de negócio — o que já está acontecendo. No caso do veículo comercial, por exemplo, o cliente não quer só caminhão, quer que eu ofereça serviços de conectividade que facilite a vida dele, melhore o negócio dele, reduza o custo dele. O metalúrgico do futuro será diferente. Os produtos vão mudar, vai mudar o sistema de produção, de vendas, tudo. A indústria não pode fazer isso sozinha. Vai precisar de parcerias com outras áreas, outras empresas, de outros setores.

DINHEIRO – Parece que a manufatura vai ter um papel menor. O Brasil perdeu esse bonde?

MORAES – A manufatura vai continuar existindo. O jeito de fazer é que será diferente. A indústria 4.0 já é uma coisa real na nossa empresa. Estamos lidando com big data para tirar bons negócios e novas oportunidades.

DINHEIRO – Poderemos considerar as montadoras como serviços no futuro?

MORAES – Ninguém sabe o modelo final ainda, mas com certeza será diferente.

“Ninguém compra um caminhão para ficar com ele parado. O problema não é o excesso de caminhão, é a falta de PIB”Entidades que representam os caminhoneiros ameaçam fazer novas paralisações caso os custos do transporte não baixem (Crédito:Stringer/Brazil)

DINHEIRO – O governo tem falado sobre a abertura comercial e a intenção de reduzir a média da alíquota de importação de 14% para 4%. Vocês são a favor? Há espaço para uma abertura comercial?

MORAES – Tendo a competitividade, você compete em qualquer mercado. Mas a gente tem custos absurdos aqui no Brasil que dificultam a competição. Se queremos atrair novos investimentos em futuros ciclos, temos de atacar o custo Brasil, para poder ser eficiente e jogar o jogo global.

DINHEIRO – O governo decidiu começar a abertura pelo acordo de livre-comércio de veículos com o México, que pôs fim às cotas de importação. E a Anfavea foi contra. Qual a sua posição?

MORAES – Um estudo da Anfavea mostra que temos uma defasagem muito grande de custos em relação ao México. Por várias razões: questões tributárias, logística, créditos acumulados. Propomos fazer em etapas, manter as cotas por um tempo, enquanto cai o custo Brasil. Estamos discutindo essa questão com o governo.

DINHEIRO – Há risco de desviar investimentos do Brasil para o México?

MORAES – Se você não ataca a questão custo, as empresas vão analisar todo e qualquer lugar do mundo para produzir. Vão buscar os lugares mais eficientes. Isso é um fato. Pode ser México, Alemanha, Japão. É uma dinâmica da indústria.

DINHEIRO – As garantias que a administração do Paulo Guedes tem dado em relação a baixar o custo Brasil são suficientes?

MORAES – Concordamos com o que estão fazendo. O ministro de Infraestrutura também tem feito várias coisas. Estamos preparados para lidar com a abertura, mas temos que discutir a redução do custo Brasil já. Por exemplo: o saldo credor de impostos. Temos uma indicação que acima de 30% de exportação da produção, você já começa a ter saldo credor. É um problema estrutural, um defeito do sistema tributário. Então, de um lado você tenta buscar mais exportação, do outro lado aumenta seu saldo credor, e ainda temos que fazer investimentos em novas tecnologias, em emissões etc. Como podemos lidar com isso?

DINHEIRO – Uma das maiores críticas do consumidor é o preço alto do carro no Brasil. Isso é culpa do custo Brasil?

MORAES – É o custo Brasil e a carga tributária. De 37 %a 41% é o imposto que você paga em um carro, dependendo da cilindrada. Nos EUA, é 12%. O governo está sinalizando uma simplificação. É um primeiro passo. Em seguida, deve vir a redução da carga tributária em si. No momento é possível fazer uma redução da carga tributária? Provavelmente não. Talvez tenha que ser um pouco mais pra frente, mas a gente tem que enfrentar isso. A sociedade não aguenta mais. Nós não aguentamos mais como pessoas físicas. É muito imposto para toda a sociedade.

DINHEIRO – A política liberal do governo ameaça linhas de crédito subsidiadas como o Moderfrota (para compra de máquinas agrícolas). Há um limite na implementação da cartilha liberal?

MORAES – Acho que não. Acredito que a direção está correta. O governo não tem condição de fazer todos os investimentos em todas as áreas. Então deixe a iniciativa fazer investimento na estrutura, em novas tecnologias, em conectividade etc.

DINHEIRO – Mas o setor já pode ficar sem o Moderfrota, por exemplo?

MORAES – O Moderfrota precisa ser previsível. Não dá para fazer o seguinte: este ano tem, mês que vem não tem. O setor privado vai se adaptar.

DINHEIRO – Estamos vivendo constantes ameaças de um nova greve dos caminhoneiros — e muita gente atribui os problemas da atividade ao período em que o governo incentivou a compra de caminhões…

MORAES – Teve o apoio do governo no preço do caminhão com o Programa de Sustentação de Investimento (PSI). Isso é um fato. Mas ele deixou de existir. Talvez tenha havido demasiado subsídio naquela época? Tudo bem. Mas não foi isso que gerou a crise. Ela foi causada pela queda do PIB e a eventual falta de carga a ser transportada. Alguns falaram que há excesso de caminhão. Não é excesso de caminhão, é falta de PIB. A culpa é do caminhoneiro? Não é do caminhoneiro. Ninguém compra um caminhão pagando juros subsidiado para ficar com o caminhão parado. Ele está sofrendo as consequências da queda absurda do PIB, que foi de quase 7% em dois anos. Há, sim, um problema para os caminhoneiros, porque não tem tanto PIB para transportar, e há o peso do diesel, que representa 30%, 40% do custo total. Essa equação não fecha. Precisamos encontrar uma solução.

DINHEIRO – O acordo do ano passado não foi o suficiente. O que esperar do atual?

MORAES – A Petrobras precisa encontrar um mecanismo para manter seu resultado, proteger a empresa, mas sem que toda semana, toda quinzena, tenha essa volatilidade de preços do diesel. Porque o diesel afeta a economia na veia.

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