Tecnologia

A hora Oracle

Empresa ressignifica negócios, mergulha nos serviços, muda a forma de tratar diversidade e modela operação brasileira baseada na transformação.

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RODRIGO GALVÃO CEO da Oracle há três anos diz que dados mostram que para ter um mundo melhor é preciso mais diversidade. “Quanto mais representatividade de mundo eu tiver aqui, mais resultados terei” (Crédito: Divulgação)

Existem várias maneiras de falar de negócios e empresas num texto jornalístico. Usar a língua dos números está entre as melhores. Especialmente se você quer entender o presente de uma organização. No último ano fiscal da Oracle, encerrado em maio de 2020, as receitas globais ficaram em US$ 39,068 bilhões, leve variação negativa de 1,1% em relação aos US$ 39,506 bilhões do período anterior (jun2018-mai2019). No lucro líquido a queda foi um pouco mais expressiva, de 8,5% – de US$ 11,083 bilhões (2019) para US$ 10,135 bilhões (2020).

Ainda assim uma performance notável: mais de US$ 1,1 milhão de lucro líquido a cada 60 minutos. “Nossos negócios teriam sido ainda melhores, exceto pelos clientes nos setores mais atingidos [pela pandemia] que adiaram algumas de suas compras”, disse a CEO Safra Catz aos investidores.

Parte dessas oscilações deve-se a uma mudança e tanto nos rumos estratégicos da Oracle, que decidiu atuar no mundo em nuvem, onde gigantes como Amazon|AWS, Microsoft|Azure, Google, IBM, Alibaba, Salesforce e Tencent já brigam ferozmente. De certa forma, o que a Oracle fez foi invadir o saloon, ficar parada na porta e chamar todos os caubóis para a briga. Todos. E ao mesmo tempo. Hoje, uma reunião de sua firma feita pelo Zoom usa serviços tanto da AWS quanto da Oracle.

Esse tipo de postura caracteriza a empresa desde seu nascimento. E faz a alegria dos investidores. Uma ação da Oracle foi negociada a US$ 56,95 na terça-feira (7) – o melhor preço do ano. Fechou a US$ 56,07. Quando a companhia abriu o capital, em 1986, seus papeis foram vendidos a US$ 15. Esse preço, no entanto, é enganoso porque as ações passaram por muitas divisões. O mais fácil é pensar que a pessoa que colocou US$ 1 mil lá, e esqueceu, hoje caminha para ser dona de US$ 1 milhão. De toda forma, usar somente os números pode não ser a melhor maneira de enxergar para onde se move uma empresa. Os algoritmos são ótimos para o retrato. Outras narrativas costumam ser mais ricas para entender o filme. “Na Oracle vivemos o momento de ressignificar. Porque tudo o que era de um jeito passou a ser de outro”, diz Rodrigo Galvão, seu CEO no Brasil.

O que podia valer apenas para uma analogia sobre a quarentena vale para o futuro da companhia. “Entramos de vez na era digital, aquilo de que tanto falávamos aconteceu. E não me refiro apenas a ferramentas, falo de ter pensamento digital.” Galvão não é um CEO dentro do mind set mais comum que costumamos construir sobre CEOs. Passou metade de sua vida na companhia, onde chegou aos 19 anos. Desde 2017, é a principal liderança na operação brasileira, de 2 mil funcionários. Mas faz questão de construir sua gestão sob a marca do indivíduo. “A pessoa”, diz. “Empresa de tecnologia é feita de gente.”

SATISFAÇÃO Há duas grandes diferenças nessa fala em relação a discursos de 100 em cada 100 empresas. A primeira é que Galvão aparenta não ter medo de que confundam esse discurso com falta de pulso pelos resultados. Até por sua trajetória. Ele sempre foi um cara de vendas. E sabe que lá na ponta, no time comercial, nada existe se o resultado não chegar. “Ao longo da história a Oracle se tornou one-stop-shop [reúne todas as soluções], e essencialmente uma empresa de serviços”, afirma. “A gente aqui vive da satisfação do cliente, porque no dia em que ele estiver insatisfeito ele vai embora.”

A segunda diferença é que Galvão de fato tenta quebrar as coisas e construí-las de outra maneira. A tal da ressignificação. Isso vale para um dos projetos mais transformadores do mundo corporativo brasileiro. “Minha missão é transformar por meio dos dados, e o dado está me mostrando que para ter um mundo melhor eu preciso ter mais diversidade”, diz. Com base nessa premissa lançou internamente a proposta de fazer um processo de seleção de estagiários sem viés. Uma seleção às cegas. Livre de renda, idade, gênero. Lastreada apenas nos valores da Oracle.

SEDE DA ORACLE NA CALIFÓRNIA Briga na nuvem com gigantes e lucro líquido superior a US$ 1,1 milhão a cada 60 minutos. (Crédito:Istock)

O resultado foi revolucionário. “Queríamos os valores de cada pessoa. Porque currículo depois aprende.” Foram 7,5 mil inscritos, que culminaram numa seleção de 62 nomes para a dinâmica. “Perguntei a uma pessoa de uns 50 anos: ‘Por que você está aqui?’ Ele respondeu: ‘É a chance de começar minha carreira’.” Dos 15 selecionados, 14 já foram contratados e um está a caminho. No segundo semestre o programa — exportado para a América Latina — dobrará de tamanho.

Galvão segue uma regra. Primeiro, diz, é preciso que as pessoas queiram estar na Oracle. Depois, que se orgulhem de estar na Oracle. Por fim, precisa que os clientes se sintam satisfeitos e orgulhosos de estarem com a Oracle. “Tendo isso eu tenho os melhores resultados”, afirma. “Porque quanto mais representatividade de mundo eu tiver aqui dentro, mais produtividade terei, mais resultado terei.” Para quem duvida, ou enxerga apenas discursos, ele já tem a resposta. “Há três anos estamos fazendo isso e há três anos, quarter sobre quarter, a gente tem melhorado os resultados, superado os resultados.” Talvez a melhor forma de contar a história de uma empresa seja juntar números com outras narrativas. Na Oracle isso não é mera coincidência.

ENTREVISTA Rodrigo Galvão, ceo da oracle
“Saímos de uma sociedade pautada em instituições para indivíduos”

Estamos à espera da virada no meio do ano. No caso de vocês, literalmente esse momento chegou, já que o ano fiscal da Oracle começa em junho. Como estão de novas resoluções?
Na diversidade a gente conseguiu criar novos métodos, novas formas [de atuar], e para nós a distância aproximou muito mais as pessoas. A gente completou 100 dias trabalhando de casa e as duas principais palavras, que resumem esse momento, são aprendizado e ressignificar. Porque tudo aquilo que a gente fazia de um jeito a gente precisou fazer de outra maneira.

O que mais chamou a atenção?
Entre as coisas que aprendemos muito foi ver o quanto o tempo é importante. Quem precisou ficar em casa, com a família, passou a valorizar mais esse tempo.Um segundo ponto foi que a gente aprendeu que temos limites, precisamos respeitá-los, que devemos cuidar da saúde.

E olhando para fora da empresa?
O mundo acabou entrando numa era em que o digital, aquilo que sempre foi muito falado, acabou sendo aplicado no dia a dia. De uma hora para a outra você tem de fechar as portas e fazer tudo digitalmente. [A pandemia] Trouxe a urgência. Novos métodos de comunicação, de conexão, de vendas, de negócios… O digital passou a ser a única forma de fazer isso acontecer. E quando digo digital não falo apenas das ferramentas tecnológicas, mas sim do pensamento digital.

Qual o papel da Oracle?
Nós, como empresa meio, esperamos ser um grande facilitador desse processo. Já temos isso como grande objetivo: transformar o mundo por meio da tecnologia.

Numa companhia de tecnologia a inovação é vista como algo inerente. Mas num momento como esse o comportamento das pessoas tende a ser o protagonista, o que há de decisivo?
Completamente. A tecnologia está atrelada a nosso comportamento.

Parte da missão da Oracle é “transformar o mundo empoderando as pessoas a ver dados de forma diferente”. Leio da seguinte forma: os dados estão aí, disponíveis, é preciso empresas que saibam fazer sua leitura. Nisso reside a diferença?
É isso. O ouro já foi a grande riqueza do mundo, depois o petróleo, hoje são os dados. A informação.

Ganhará o jogo que tiver os dados.
Sim, as grandes empresas que souberem lidar com essas informações serão as que vão ter os maiores crescimentos. Saímos de uma sociedade pautada em instituições e vivemos hoje uma sociedade pautada em indivíduos. É preciso chegar na ponta. E é muito difícil chegar na ponta, porque envolve todas as nuances do mundo atual.

Na pandemia vocês precisaram socorrer clientes? O que foi feito?
Ajudamos de diversas formas. Em dois âmbitos. No primeiro, revisitamos projetos dos clientes para achar novas possibilidades. Também foram feitas parcerias com hospitais, institutos, órgãos governamentais, para doação de capacidade computacional, ou levando Inteligência Artificial, machine learning. Isso começou nos Estados Unidos e fizemos aqui.

E no âmbito especificamente dos negócios, com seus clientes?
No âmbito dos negócios pegamos clientes pequenos e demos facilidades nas faturas, dentro de um contexto, obviamente, mas a gente buscou principalmente transmitir [a ideia de] transformação. Minha missão nesse momento é apoiar meu cliente a criar novas oportunidades.

De que maneira?
Com soluções que reduzem custos, ou com geração de valor, de receita. Esses são os ganhos mais significativos. Como empresa de tecnologia a gente tem de apoiar nossos clientes nos próximos passos, no ‘daqui a pouco’.

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