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A hora da Leitura

Com o encolhimento das concorrentes Cultura e Saraiva, que fecharam 41 unidades desde 2020, rede mineira de livrarias se torna a líder em número de lojas e quer mais.

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"Nenhuma crise é para sempre. Por isso, estamos planejando e ocupando os espaços que surgem” Marcus Teles, presidente da Leitura. (Crédito: Divulgação)

Como nas páginas de um bom livro de suspense, a história recente da rede de livrarias Leitura é recheada de emoção e capítulos surpreendentes. No ano passado, a companhia mineira se viu em apuros ao ter de paralisar as operações de todos os seus 80 endereços por mais de dois meses. Sem as lojas físicas, o faturamento desabou 32% em 2020 na comparação com 2019, uma das piores quedas já registradas nos 54 anos de existência da empresa. Mas hoje isso não passa de um “era uma vez”. A rede não só reabriu 76 lojas – quatro ainda sofrem com restrição de funcionamento do comércio – como também se tornou a líder no ranking nacional de livrarias, principalmente porque as maiores concorrentes, Cultura e Saraiva, ambas em processo de reestruturação, fecharam definitivamente as portas de 41 lojas. Atualmente, a Cultura mantém apenas sete pontos de venda. A Saraiva, 38.

Para ocupar os espaços deixados pelas rivais, a Leitura quer acelerar sua estratégia de expansão neste ano, segundo o presidente da companhia, Marcus Teles. Outras 15 lojas serão abertas, com investimentos que variam de R$ 800 mil a mais de R$ 2 milhões por loja. “Estamos planejando e ocupando os espaços que surgem”, afirmou. Com atuação em 22 estados e Distrito Federal, a Leitura tem mercado cativo em Minas Gerais e nas regiões Norte e Nordeste. Por isso, o foco da expansão é Rio de Janeiro e São Paulo.

A crise do mercado livreiro parece ter virado passado. Nos quatro primeiros meses deste ano, as vendas aumentaram 39,8% (para 15,6 milhões) sobre 2020, segundo o Painel do Varejo de Livros no Brasil. O faturamento também cresceu, para R$ 689,5 milhões (alta de 28,3%). Mas um fator foi crucial para a empresa aproveitar o momento: a reserva em caixa. A rede varejista mantém o controle direto de 60% de todas as lojas. O restante é administrado por funcionários que se destacam e assumem o cargo de sócio-gerente. “São pessoas que conhecem bem a região onde estão e garantem um perfil personalizado à loja que gerenciam”, disse Teles. Lojas que não performam num período de dois anos são fechadas.

Para o analista de varejo Eduardo Tomiya esse modelo é arriscado. “Pode ser financeiramente positivo, mas pode criar uma percepção de não consistência junto ao consumidor” afirmou. O especialista também questiona a estratégia de expansão física diante de um mercado digital crescente. O presidente da Leitura, no entanto, navega em mares conhecidos. “As pessoas já ficam o dia todo em frente à uma tela”, disse. “Na hora do descanso você não quer outra tela”. Um jeito mineiro de dizer que constrói seu próprio caminho.