Edição nº 1078 13.07 Ver ediçõs anteriores

A herdeira não dorme no ponto

A herdeira não dorme no ponto

A empresária mineira Marcela Constantino, neta do bilionário Nenê Constantino, fundador da Gol Linhas Aéreas, parece ter herdado a principal característica empresarial de sua família: o tino para os negócios. Em 2015, aos 33 anos, assumiu o comando de uma das mais tradicionais empresas de ônibus do País, a Reunidas Paulista, que pertence à sua mãe, Aurivânia Constantino. Sua missão é preparar as operações paras os novos tempos. Hoje, aos 35 anos, ela orquestra uma diversificação do modelo de negócios, com renovação de parte da frota de 116 ônibus e o lançamento de novos serviços, como transporte de pequenas mercadorias entre as 69 cidades em que atua em São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul.

Na prática, a empresária está criando uma concorrência direta com os Correios e, ao mesmo tempo, acirrando a disputa pelos passageiros que, nos últimos anos, migraram para as companhias áreas – inclusive a Gol – e para os aplicativos de carona. “Hoje temos de enfrentar os novos hábitos de locomoção dos brasileiros e a concorrência desleal de alguns aplicativos, sem perdemos a capacidade de nos adaptar às mudanças”, diz Marcela, em entrevista à MOEDA FORTE. Engana-se, segundo ela, quem pensa que sua rotina como executiva tem a ajuda do avô ou do tio, Constantino de Oliveira Júnior, presidente do conselho de administração da Gol. “No mercado, cada um toca seu negócio de forma independente, e chegamos a concorrer, muitas vezes”, afirma. Na semana passada, ela anunciou um investimento de R$ 15 milhões na compra de 20 ônibus Euro 5, os mais modernos do mundo em emissão de poluentes. Acompanhe, a seguir, sua entrevista:

O que mudou na Reunidas Paulista com a sua administração?
Estamos fazendo vários ajustes para dar mais agilidade e modernidade à empresa. Além da renovação da frota, que passará da média de 5 anos de idade para 3,5 anos, daqui a pouco tempo, vamos rever a quantidade de paradas em algumas rotas para reduzir também o tempo de viagem. Com ônibus mais novos, mais bonitos e cheirando a perfume de carro novo, poderemos manter os veículos em circulação por mais horas, melhorando a rentabilidade por veículo.

Qual será a estratégia para reconquistar o cliente que hoje prefere avião ou aplicativos de carona?
Vamos fazer campanhas para mostrar que viajar de ônibus tem muitas vantagens. Na disputa com o avião, não temos como concorrer em agilidade. Mas, por outro lado, temos a vantagem de não limitar a quantidade de malas transportadas, algo que hoje é cobrado pelas companhias áreas. Além disso, atendemos cidades que não possuem aeroportos. Já na concorrência com os aplicativos de caronas, como o Blablacar e outros, que considero uma disputa desleal e clandestina, queremos mostrar aos usuários que somos alternativas mais seguras. Temos investido muito no treinamento de motoristas, na manutenção da frota e na qualidade de excelência de nossos serviço de atendimento. Quem pega carona não sabe as condições do veículo e nem conhece a habilidade do condutor.

O serviço de transporte de mercadorias que a Reunidas vai lançar é uma forma de diversificar as fontes de receita?
Com certeza. Desenvolvemos um modelo que acredito ser inédito no Brasil. Teremos caixinhas nos ônibus em que o cliente que precisar enviar uma pequena encomenda entre as cidades que atendemos, poderá despachar por apenas R$ 20. Será mais ágil e mais barato do que o Sedex, dos Correios. Estou confiante no sucesso desse novo serviço.

Ao tentar recuperar os clientes que migram para a Gol, por exemplo, não surge algum conflito em família?
Não, não. Gosto muito de ouvir os conselhos da minha mãe, do meu avô (Nenê Constantino) e do meu tio (Constantino Júnior), mas nossas empresas não fazem parte do mesmo grupo e têm gestões independentes. Então, quando tem almoço de família, cada um esconde suas estratégias.

(Nota publicada na Edição 1077 da Revista Dinheiro, com colaboração de: Claudio Gradilone, Luana Meneghetti e Pedro Arbex)


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