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A guinada da Usiminas

Gigante mineira da siderurgia amplia investimentos para R$ 800 milhões após auge da crise e aposta na retomada da produção industrial.

Crédito: Alexandre Rezende

PRONTO PARA A RETOMADA Sergio Leite, CEO DA Usiminas: "No momento em que a economia se reativa, nós vamos pelo mesmo caminho" (Crédito: Alexandre Rezende)

Não há termômetro melhor para aferir a temperatura da atividade econômica no Brasil do que a produção e a venda de aço pelas siderúrgicas. O produto está na construção civil, nas montadoras, nas fábricas de eletrodomésticos, nas grandes obras de infraestrutura. Após a indústria amargar uma crise sem precedentes – a Produção Industrial Mensal acumulada dos 12 meses encerrados em julho aponta queda de 5,7% –, o setor começa a sair do buraco. E aposta na retomada ainda em 2020. Nesse contexto, a gigante Usiminas é emblemática. Líder no segmento de aços planos no Brasil, ela se movimenta para crescer. Três indicadores marcam esse momento. O primeiro deles é a decisão de rever os investimentos, de R$ 600 milhões para R$ 800 milhões. Ainda abaixo do R$ 1 bi previsto na pré-pandemia, mas 33% acima do corte decidido há cinco meses. O segundo é o aumento da rentabilidade, puxada pelas exportações. O terceiro, e mais simbólico, é a decisão de religar um dos altos fornos de Ipatinga (MG) e retomar as operações na fábrica de Cubatão (SP). “A retomada tem um significado grande, porque não produzimos nada que não esteja vendido. Não fazemos produção de estoque”, afirmou à DINHEIRO o CEO da companhia, Sergio Leite.

A aposta está no crescimento gradual da produção industrial, que subiu 8% em julho em relação a junho, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e teve alta em 25 dos 26 setores. “No momento em que a economia se reativa, vamos pelo mesmo caminho”, disse Leite. “Consumo de aço e crescimento econômico andam juntos.” Nessa perspectiva de seta para cima no último quadrimestre deste ano, a siderúrgica mineira vislumbra a saída do fundo do poço que o setor automotivo viveu.

NO RITMO DA RETOMADA Depois de 120 dias desligado, a Usiminas reativou o alto forno 1, em Ipatinga, que tem capacidade para produzir ao ano 600 mil toneladas de ferro-gusa, matéria-prima para o aço. O forno 2, também na cidade e paralisado em abril, não será religado em 2020. (Crédito:Divulgação)

Montadoras estão entre os principais clientes da Usiminas na utilização de aços planos e, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a produção alcançou 210,9 mil unidades em agosto, 23,6% a mais do que o registrado em julho (170,7 mil). Em abril, ponto alto da crise, foram produzidos irrisórios 1,8 mil veículos. Sem montagem de carros, o consumo de aço foi ao chão. E é justamente nesse tombo do setor automotivo que está parte da resposta para o resultado do segundo trimestre da Usiminas, impactado integralmente pelos reflexos da pandemia da Covid-19. A receita líquida total alcançou R$ 2,4 bilhões, queda de 34% sobre o mesmo período de 2019 (R$ 3,7 bilhões). A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 395 milhões, contra lucro líquido de R$ 171 milhões no segundo trimestre de 2019. “As empresas do grupo que são focadas no negócio aço foram impactadas pelo reflexo da pandemia. Já a mineração foi muito bem.” Mas não o bastante para impedir o tombo nas receitas.

Ainda que em queda na receita no período de março a junho, as exportações contribuíram para minimizar o impacto. Com o dólar em alta, mesmo com redução no volume de vendas para o exterior, a fatia da receita do que foi enviado para fora do Brasil ficou maior. A queda no volume de exportação no segundo trimestre de 2019 contra 2020 foi de 7,3% (de 110 mil toneladas para 102 mil). Mas a receita nesse segmento cresceu de R$ 591 milhões, de abril a junho de 2019, para R$ 897 milhões, somando os mesmos meses deste ano. O share das exportações mais do que dobrou no período, passando de 16% para atuais 37%. A empresa deixa claro que não se tratou de uma decisão estratégica, mas simplesmente pela queda das vendas no Brasil. Nesse crescimento do mercado interno nos próximos meses está o principal simbolismo da retomada do alto forno 1, em Ipatinga, no fim de agosto, em ato que teve verniz político, com o presidente Jair Bolsonaro e o governador mineiro Romeu Zema. O forno ficou 120 dias desligado pela queda brutal na demanda de aço no País. Sozinho ele produz 600 mil toneladas ao ano, o equivalente a pouco mais de 17% da capacidade total da unidade de Ipatinga, de ferro-gusa, matéria-prima para a fabricação do aço. Também foi retomada a operação de laminados na fábrica de Cubatão. O alto forno 2, também desligado em abril e com a mesma capacidade do forno 1, segue sem data para a volta. A única certeza é de que não será em 2020. “Com a reativação do alto forno 1 e a operação de Cubatão, conseguimos abastecer o mercado de forma equilibrada neste ano”, afirmou Leite. O alto forno, também em Ipatinga e que não foi paralisado, é responsável pela produção de 2,2 milhões de toneladas de ferro-gusa.

Leo Pinheiro

“O setor de aço vem mostrando enorme resiliência e capacidade de recuperação, mas é necessário discutir os meios de competitividade” Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil.

Durante o pico da crise, entre fim de março e abril, 13 dos 32 altos fornos das siderúrgicas brasileiras foram desligados. Desde então, quatro já voltaram à ativa: da ArcelorMittal, da Gerdau, da Sinobras e o da Usiminas. Para o presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, a recuperação também está relacionada à discussão sobre a recomposição tributária, principalmente sobre as exportações. “O setor de aço vem mostrando enorme resiliência e capacidade de recuperação, mas é necessário discutir mecanismos para garantir mais competitividade no mercado internacional.” Mesmo com retomada em franco crescimento, a indústria siderúrgica ainda trabalha com apenas 60% de sua capacidade instalada.

Para preencher a ociosidade de 40%, será preciso aumentar o ritmo das exportações. O problema é que houve aumento de estoque global de aço por causa da baixa no consumo mundial. Além disso, há questões protecionistas. Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou esticar a corda com o Brasil para diminuir a entrada do aço no país, até devido à pressão das siderúrgicas americanas. Mas o dirigente do Aço Brasil entende que, no fim das negociações, o cenário não foi de todo ruim para as empresas brasileiras. O Brasil divide sua cota anual aos Estados Unidos de 3,5 milhões toneladas de aço por períodos: 30% em cada um dos três primeiros trimestres e 10% nos últimos três meses. “Os americanos queriam que o País deixasse de exportar esses últimos 10%, o que significaria 350 mil toneladas a menos. Mas alertamos que são contratos já assinados e conseguimos liberar 60 mil”, afirmou Mello Lopes. “A conversa para o envio dos demais 290 mil deve ocorrer em dezembro.” Depois da eleição americana.

No ambiente interno, a retomada dos projetos de concessão de infraestrutura é um caminho para o setor crescer. A previsão do governo federal é de que os projetos do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) aloquem recursos da ordem de R$ 320 bilhões. Levando-se em conta somente o setor de óleo e gás, segundo estudo do Instituto Aço Brasil, serão necessários 10,7 milhões de toneladas de aço. O que significa mercado garantido para as siderúrgicas nacionais.

CORTES E INVESTIMENTOS A crise vivida pela Usiminas afetou o quadro de pessoal. Com 14 mil funcionários, reduziu o número de colaboradores de Cubatão, após batalha na Justiça com o sindicato dos metalúrgicos. A empresa conseguiu cassar liminar que impedia o corte de cerca de 900 trabalhadores, mas, segundo o presidente, o volume de desligamentos foi menor. “Temos de ser competitivos em infraestrutura, equipamentos e também em produtividade laboral”. Leite disse que as demissões ficaram no patamar de 350 a 400. “Os cortes foram necessários para que a planta de Cubatão fosse mais competitiva.”

SEM CARRO, SEM AÇO A Usiminas foi fortemente impactada pela paralisação, no início da pandemia, das montadoras, que são os principais clientes dos aços planos produzidos pela siderúrgica mineira. (Crédito:Werther Santana)

Na contramão das demissões, o plano de investimentos para 2020 foi mais uma vez revisto. Desta vez, para cima. No início do ano, a companhia planejava investir R$ 1 bilhão, valor logo reduzido para R$ 600 milhões no início da pandemia. No início do segundo semestre, anunciou o aumento de 33% nos desembolsos, chegando a R$ 800 milhões. “Isso só foi possível por causa da perspectiva da retomada da economia e o resultado do segundo trimestre, que nos mostrou uma situação de caixa muito confortável”, afirmou o CEO, referindo-se ao caixa de R$ 2,5 bilhões no segundo trimestre, alta de 101% em relação ao mesmo período do ano passado. A situação de caixa confortável está também relacionada à queda no endividamento líquido no segundo trimestre deste ano, que baixou 12%, de R$ 4,2 bilhões (2019) para R$ 3,7 bilhões (2020).

Para o analista Luiz Caetano, da Planner Corretora, a Usiminas deve saltar do volume de 608 mil toneladas de aço vendidas no segundo trimestre para 905 mil toneladas no terceiro trimestre, o que significaria alta de quase 50%, e 950 mil nos últimos três meses do ano. “A redução da dívida e o aumento da geração de caixa mostram a robustez da empresa em termos operacionais e a perspectiva de crescimento no próximo trimestre”, afirmou Caetano. O movimento das ações da companhia mostra a variação positiva na medida em que a indústria começou a retomar as atividades. No dia 24 de março, o papel da Usiminas foi vendido a R$ 3,99. Na quarta-feira (9), fechou a 11,21 – alta de 181% em cinco meses e meio e já acima do preço de R$ 9,70 do começo de janeiro.

A performance tem a ver com a retomada, mas também – e muito – com a conscientização ambiental. Dos R$ 800 milhões que serão investidos neste ano, R$ 160 milhões estão relacionados à implementação de um sistema de filtragem e empilhamento de rejeitos, que entrará em operação em março de 2021. A medida pretende acabar, em até três anos, com a utilização de barragem pela companhia e afastar do horizonte qualquer probabilidade de acidentes, como os vividos pela Vale em Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Das três barragens da Usiminas, só uma está em operação, em Itatiaiuçu (MG). A atenção à questão ambiental é decisiva para a performance financeira e de longo prazo da companhia na unidade mineradora. “O aprendizado foi duro, mas o Brasil vem trabalhando para preservar o que é mais importante”, afirmou Leite. “E nada é mais importante do que a vida humana.” Só assim existe a retomada.

ENTREVISTA
“O mais importante é não haver aumento da carga tributária”

DINHEIRO – Como as reformas brasileiras têm sido recebidas pelo setor?
SERGIO LEITE – São extremamente importantes para a indústria brasileira. Tivemos no ano passado a previdenciária, que vai ter impacto a longo prazo e é importante para nós. Nos últimos 30 anos, passamos por uma forte desindustrialização e a gente está ouvindo que vamos iniciar processo de reindustrialização.

A reforma tributária preocupa?
Ela prevê distribuição mais equilibrada e isso vai trazer mais competitividade. Estamos atravessando momento importante da indústria no Brasil. Precisamos estar unidos e trabalhar pelas reformas. A CPMF vai ser discutida no bojo da reforma tributária. O mais importante é que haja compromisso do governo de não haver aumento da carga tributária.

Quais as ações de inovação estão sendo tomadas?
Em 2018, criamos diretoria de inovação e estamos interagindo com mais de 30 startups, que atuam em diversos temas. Fizemos parceria com a Federação das Indústrias de Minas Gerais para desenvolver projetos com mais 50. E vamos trazer inovação no cenário a longo prazo.

Internamente já há resultados?
Criamos um programa de seleção de projetos, desenvolvidos por colaboradores, e implementamos seis. Eles vão representar economia de R$ 25 milhões ao ano. Inovação é o futuro.

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