Finanças

A guerra dos bancos chega ao pedágio

Com a Veloe, Bradesco e Banco do Brasil querem enfrentar a ConectCar, controlada pelo Itaú Unibanco e pelo Grupo Ultra nos pagamentos eletrônicos

Crédito: Eduardo Knapp/Folha Imagem/Folhapress

Fila no pedágio: só em 2017, 1,8 bilhão de transações pelos 18,7 mil quilômetros de rodovias pedagiadas (Crédito: Eduardo Knapp/Folha Imagem/Folhapress)

Usualmente pontual em seus compromissos, Raul Moreira, presidente da empresa de benefícios Alelo, chega apressado – e cinco minutos atrasado – à entrevista exclusiva concedida à DINHEIRO na segunda-feira 7. Devido ao trânsito pesado do fim da tarde na região da Avenida Faria Lima, zona Sul de São Paulo, Moreira decidiu descer do carro em que estava e percorrer alguns quarteirões a pé. “Não posso perder tempo”, diz. Para o sucesso da nova iniciativa que vai comandar, é fundamental que muitos motoristas pensem da mesma maneira e que, para poupar tempo, decidam contratar o serviço de pedagiamento eletrônico oferecido pela Veloe. Controlada por Bradesco e Banco do Brasil, a Veloe foi lançada na quarta-feira 9. A empresa vai estender às estradas e estacionamentos o duelo que os grandes bancos já travam em outros setores da economia. Uma das principais concorrentes da Veloe é a ConectCar, controlada por Itaú Unibanco e pelo Grupo Ultra. Ao lado da líder de mercado Sem Parar, a ConectCar domina o segmento dos pagamentos por meio de etiquetas afixadas aos veículos, conhecidas como tags.

A nova arena da disputa é ampla. A malha rodoviária brasileira tem pouco mais de 98 mil quilômetros. Cerca de 19% deles estão aos cuidados de 54 concessionárias, segundo dados da Associação Brasileira de Concessões Rodoviárias (ABCR), em sua maioria nas regiões Sudeste e Sul do País. Em 2017, as cabines de pedágio registraram 1,8 bilhão de transações. Nos três primeiros meses de 2018, foram 500 mil pagamentos, dos quais 46% realizados automaticamente, segundo a ABCR. Segundo Moreira, essa é apenas uma das várias facetas do novo negócio. “O pedagiamento eletrônico está muito ligado às estradas, mas o uso urbano vem crescendo”, diz ele.

Além de poupar tempo ao passar pelos pedágios, os 3,9 milhões de veículos com tags podem fazer com que seus condutores driblem as filas para pagar tarifas de estacionamento, especialmente em shopping centers, e não tenham de digitar senhas ao fazer compras nas lojas onde o serviço é prestado sem que o cliente desembarque do carro, os drive-thrus. “Nas pesquisas junto aos clientes, notamos que essa era uma demanda bastante forte”, diz Moreira. “As pessoas vêem valor em não ter de usar os meios mais tradicionais, como cartões, para pagar essas contas.” A meta da empresa é ambiciosa. Em três anos, Moreira quer conquistar 1,5 milhão de clientes.

Moreira, da Veloe: “O pedagiamento eletrônico está muito ligado às estradas, mas o uso urbano vem crescendo (Crédito:Aneto Herculano)

Usar o próprio carro como um, sem trocadilho, veículo para pagar contas é uma tendência mundial. “Processar as transações eletronicamente, sem ter de usar um cartão e digitar uma senha em um POS, aumenta a segurança, pois dispensa o transporte de dinheiro e reduz os custos com pessoal nas cabines de pedágio”, diz Paulo Kulikovski, CEO da empresa de pagamentos Acesso. “Quanto menos interferência humana, maior a confiabilidade da transação”, diz ele.

Moreira sabe bem disso. Uma de suas metas é usar as tags da Veloe, que serão vendidas nas cerca de 9,5 mil agências do Bradesco e do BB, como um instrumento de disseminação dos pagamentos sem cartão. Crescer não será fácil. A Sem Parar, fundada em 2004 e pioneira no negócio, domina 90% das transações com pedágio. A ConectCar, que teve 50% de seu controle adquirido da Odebrecht pelo Itaú Unibanco por R$ 170 milhões em outubro de 2015, tem cerca de 6% (os 4% restantes se dividem entre empresas menores como Auto Expresso e Move Mais). A estratégia do Grupo Ultra, que controla a rede Ipiranga, é usar a ConectCar para ampliar o tráfego em seus postos.

Para deslocar esses concorrentes, a Veloe vai oferecer flexibilidade nos preços, com planos que vão de R$ 4,90, pagando apenas pedágios, a R$ 19,90 por mês, que permite mais pagamentos. Na Sem Parar, os preços dos planos individuais vão de R$ 8,81 até R$ 21,74 por mês. A ConectCar vende apenas um plano para pessoas físicas, com mensalidade de R$ 19,90. Segundo Moreira, outra vantagem da Veloe será a possibilidade de o cliente modificar as características do plano por meio de um aplicativo de celular. “Investimos R$ 110 milhões no desenvolvimento dos sistemas”, diz Moreira. Muita munição para a guerra que os bancos passam a travar nas cabines de pedágio. Procurados, Conect Car, Grupo Ultra, Itaú Unibanco e Sem Parar não concederam entrevista.