Economia

A guerra do arroz

Preço do grão dispara e faz governo federal retroceder ao milênio passado. Joga a culpa nos varejistas e prega mais patriotismo.

Crédito: Mateus Bonomi /Adriano Machado

Só FALTA O BIGODE Com proposta de controlar preços por meio de críticas a varejistas e pedidos de patriotismo, Bolsonaro remete a práticas econômicas que marcaram o governo de José Sarney. (Crédito: Mateus Bonomi /Adriano Machado)

No arroz com feijão do liberalismo você não interfere em preços – tabelamentos, congelamentos ou outras bizarrices. Não é assim no Brasil de Bolsonaro. Item indefectível na alimentação diária nacional, o arroz chegou a dobrar de preço em 12 meses até agosto. No ano, subiu 19,2% contra inflação de 0,70%. Dá 27 vezes mais. A alta, explicada por economistas de qualquer viés, é a mesma: se tem menos produtos o preço vai subir. E há menos arroz na mesa. Porque o consumo interno cresceu e porque, com o dólar além dos R$ 5, vale mais a pena ao produtor exportar. A resposta do governo foi constrangedora. O presidente pediu “patriotismo” aos donos de supermercados. Seja lá o que a palavra embute, ressoou a convocar os Fiscais do Sarney – um embuste da época do Plano Cruzado (1986), quando cidadãos comuns faziam patrulhamento de preços (tabelados) nos pontos de venda.

O presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, refuta o carimbo. “Não seremos os vilões por uma coisa que não somos responsáveis”, disse. Ao tratar de um problema técnico e puramente econômico como cruzada política, Brasília produz inconsequências. A começar por insegurança jurídica e imprevisibilidade, essenciais para que o setor produtivo e investidores atuem. Pior: o preço não baixará por decreto. O Ministério da Agricultura conseguiu junto à Secretaria de Comércio Exterior derrubar a alíquota de importação do arroz para uma cota de 400 mil toneladas até o fim do ano. A ministra Tereza Cristina precisou garantir que não haverá tabelamento de preços.

PREÇO ARREDIO Inflação entre janeiro e agosto é de 0,70%, mas alimentos subiram bem acima. O arroz variou 19,2%. (Crédito:Bruno Rocha)

Um pouco de sensatez se a palavra dela vingar em relação ao chefe. O temor não é o descontrole inflacionário. Risco distante com inflação anualizada (2,44%) abaixo do piso da meta (2,5%). Mas isso não é verdade para o preço dos alimentos. Apenas em agosto, tomate (+12,98%), óleo de soja (+9,48%), leite longa vida (+4,84%), frutas (+3,37%) e carnes (+3,33%) subiram muito acima da média geral – o IPCA ficou em 0,24%. O arroz, que nem puxa essa fila e levou a fama, teve alta de 3,03% no mês. É mais de 12 vezes a média de preços, mas nem seria preciso tanto barulho. Pedro Kislanov, coordenador da pesquisa do IBGE, disse que os preços não estão descontrolados. “É uma questão temporária”, afirmou. O diretor comercial de uma das maiores redes supermercadistas do Brasil confirmou à DINHEIRO a dificuldade na compra do grão. Mas igualmente acredita que não será duradouro. “Logo o arroz volta ao preço normal”, disse. Em vez de esperar pelo mercado, Bolsonaro resolveu voltar aos anos Sarney. Já chegou a 1986. Se continuar nesse ritmo, pode retornar a 1776 e conseguir um livro recém-lançado de um tal Adam Smith.

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