Entrevista

Entrevista | Luiz Meisler, vice-presidente Executivo para a América Latina da Oracle

A gente tem de resolver as coisas sem esperar que o próximo governante resolva

Claudio Gatti

A gente tem de resolver as coisas sem esperar que o próximo governante resolva

Desde 1998 na Oracle, o engenheiro Luiz Meisler é quem encabeça na América Latina uma das maiores empresas de tecnologia do mundo e questiona a opção do crescer por crescer sem olhar a rentabilidade.

Victor Marques
Edição 05/08/2022 - nº 1285

“O cara que teve a sorte de entender do que ele gosta na vida muito cedo”. Assim se define Luiz Meisler, vice-presidente Executivo para a América Latina da Oracle. Filho de imigrantes pós-guerra, tem hoje a família como centro de sua vida. Conheceu a esposa com 14 anos e têm dois filhos, André e Rony Meisler, que é fundador e CEO da Reserva, empresa referência do segmento de vestuário. Essa solidez na família, que é o orgulho dele, se traduz em solidez no trabalho. O engenheiro entrou na Oracle em 1998, como head de Vendas e Consultoria, um ano antes da entrada da atual CEO global da empresa, Safra Catz. Acompanhar a companhia desde lá proporcionou um assento de camarote para assistir à consolidação da big tech com tecnologias de banco de dados, software e a transição recente de soluções de infraestrutura de ponta a ponta de TI utilizando a nuvem. Para ele, é preciso olhar a rentabilidade. “Porque, caso contrário, não se consegue dar continuidade. E aqui na Oracle é assim.”

DINHEIRO — Como é acompanhar a empresa desde 1998?
LUIZ MEISLER — É espetacular, eu tive sorte. Comecei na Arthur Andersen, que virou Accenture. Depois fiz meu próprio negócio, chamado Results, que vendi para a Presto. Após dez anos resolvi fazer uma aventura e fui ser diretor financeiro nas Lojas Americanas, aos 30 e poucos anos. Com 45 vim para a Oracle. Quando entrei, era uma empresa que você comentava com os outros e ninguém sabia o que era. Peguei uma companhia que tinha 200 pessoas. Na época, não existia a palavra cloud, essas coisas não existiam. Mas o conceito do cliente no centro sempre esteve lá. E estar lá desde cedo me aproximou muito também do board, do Larry [Elisson, um dos três cofundadores da companhia em 1977], da Safra Catz [atual CEO]. Vivi na Oracle um momento na indústria em que tecnologia eram produtos semiacabados. Hoje vejo que sempre vai ter um bug no produto, o importante é ter um suporte rápido.

Qual o propósito da Oracle hoje?
Nós queremos transformar o mundo empoderando as pessoas através da inovação. As novas tecnologias estão empoderando as pessoas de uma maneira que elas nem conseguem perceber. A gente tem hoje muito mais tecnologia disponível do que a capacidade humana. Vai tirar empregos? Vai. Mas vai criar novos, muito melhores do que os anteriores, empregos nos quais as pessoas são valorizadas como pessoas.

Como serão esses empregos melhores?
Nessa linha de reeducação, posso dar o exemplo do banco de dados autônomo. É totalmente automatizado e não precisa de ninguém para atualizar manualmente. Então, como fica quem fazia essa função? A pergunta certa é como capacitar para que possa fazer análises preditivas e outras funções mais estratégicas. E nós estamos fazendo isso.

De que maneira?
Temos vários programas de capacitação de pessoas para empoderá-las a fazer coisas novas. A gente tem trabalhado muito nesse tipo de formação e das soft skills, além de ajudar também onde elas estejam buscando recursos para se aprimorarem. O trabalho braçal em si, de pouco envolvimento intelectual, vai desaparecer rapidamente. Então temos de preparar as pessoas. Somos uma empresa que delega muito e empodera nesse sentido. A gente busca um ambiente para que aqueles que trabalham aqui se sintam seguros e empoderados para fazer o que precisam fazer. Mas isso funciona internamente. Não é assim em todo setor. Acredito muito na democratização da tecnologia.

“A pergunta certa é como capacitar as pessoas para que possam fazer análises preditivas e outras funções mais estratégicas. E estamos fazendo isso” (Crédito:Istock)

O que a América Latina e o Brasil representam para a Oracle?
Nós somos a região que mais cresce no mundo. Sempre fomos e há três ou quatro anos nós aceleramos muito. Eu acho que na nossa cultura há pouca aversão ao risco. E quem não arrisca no nosso mundo não cresce. O empreendedorismo na América Latina é latente e temos uma capacidade grande de resiliência. Uma situação político-econômica ruim não trava um executivo bom e a América Latina tem toda a capacidade de despontar no mundo com muito crescimento.

Como foi a transição para cloud?
Esse modelo de cloud a gente absorveu rapidamente e isso é uma mudança brutal. Deixamos de ser empresa de vender produto e passamos a ser empresa de vender serviço. Começamos esse processo há mais de cinco anos.

A transição já se deu?
A receita da Oracle, na América Latina e todo lugar do mundo, já é 75% cloud. Nossa solução vai desde a captura de dados para a gestão do marketing até a entrega do produto e solução integrada em plataforma cloud, isso é um diferencial competitivo monstro. Sempre tive o serviço como principal na cabeça. Sempre enfatizei os valores disso, que são fundamentais. O principal é viver pela excelência.

E ambientes ainda não consagrados, como o metaverso?
O metaverso ainda é um desafio, não só para a Oracle como para todo mundo. Vai ser uma realidade que impactará todos nós. Quantas pessoas você acha que usam comando de voz nos aplicativos? Poucas ainda.

Mas vai se massificar?
É como a Alexa nos Estados Unidos. Virou um hábito usar esses assistentes para fazer compras, ligar a luz, perguntar a temperatura. Com essas tecnologias as gerações novas vão ter de entrar no poder dentro das empresas para incentivar a utilização disso. Por um lado, não precisar viajar fisicamente para algum lugar vai ser algo muito bom. Eu viajava para São Francisco, bate e volta, ia fazer a reunião e voltava, viajava para o México, mesma coisa. Quando veio a pandemia e consegui fazer as reuniões de casa, eu falei: “Caramba! Que absurdo que eu fazia.” Acho que são coisas que vão acontecer nos próximos cinco anos. Vai acontecer muita coisa boa, muita coisa mesmo. Coisas que mudarão os padrões das companhias cada vez mais rapidamente.

A crise dos semicondutores afetou também a Oracle?
Eu tenho a impressão de que muitas coisas nossas começaram [agora] a ser fabricadas nos Estados Unidos em vez da China, onde aconteceu a maior crise de chips. Sei que hoje a gente entrega com o mesmo nível de qualidade e rapidez do que antes.

No ano que ficou marcado pelas demissões nas empresas de tecnologia, como foi para a Oracle?
Toda hora você tem empresas em constantes transformações, isso é fruto de uma mudança de modelo de negócio em alguma área. Alguma coisa muda e você tem que ter gente ganhando eficiência. Eu acredito bastante que as empresas vão continuar se estruturando, porém, esse conceito de growth por growth (crescimento pelo crescimento) é algo que está sendo questionado hoje bastante. Acredito que puro growth dificilmente sobrevive. Deve ter rentabilidade, porque senão não consegue dar continuidade. E aqui na Oracle é assim.

“Eu tenho a impressão de que muitas coisas nossas começaram a ser fabricadas nos EUA em vez da China, onde ocorreu a maior crise de chips” (Crédito:Istock)

Qual é o principal desafio do setor da tecnologia hoje?
Qual o gargalo? Gente! Se nós tivermos a capacidade de formar gente numa velocidade exponencial e a capacidade de captar o maior número de pessoas, vamos conseguir chegar lá. Não só no setor de tecnologia, mas para as empresas que precisam dela. Hoje eu diria que não temos nenhuma limitação de produto, temos limitação de gente. Capacitamos 50 mil pessoas no ano passado. Quanto mais gente capacitada, mais vamos crescer. A [saída] é formar, formar e formar. Como indivíduos, como profissionais e como cidadãos.

Disparidades sociais e desigualdade entram nessa conta?
Entram e é algo que temos que resolver. E [para isso] não devemos depender de governo nenhum. Ficar dependendo do governo para socorrer, já sabe, né? Temos de buscar inclusão através de programas que façam a diferença, coisa que aqui no Brasil é muito importante, já que temos uma disparidade muito grande.

Com a eleição chegando, o que o novo governo deve trazer para melhorar o setor?
A educação deve ser garantida e da melhor qualidade possível. Eu vi uma palestra uma vez do primeiro-ministro do Canadá e é impressionante o conhecimento de educação, a profundidade que ele tem de conhecimento das ferramentas que existem. De alguma maneira a gente tem de resolver as coisas que ficamos esperando que o próximo governante vá resolver.

Temos condições para essa solução no curto prazo?
A gente tem tudo para fazer essa mudança, porque somos um país autossuficiente. Alguém tem que trazer alguma coisa, não sei quem é esse alguém, mas precisamos dele. O Brasil é muito especial, então vamos rezar para a gente chegar a uma coisa boa também na política. Tomara.

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