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A fuga dos aplicativos: porque Netflix e Spotify estão saindo das lojas virtuais

Por que Netflix, Spotify e Epic Games estão deixando o Google Play e a Apple App Store, as duas maiores lojas de programas para smartphones do mundo

A fuga dos aplicativos: porque Netflix e Spotify estão saindo das lojas virtuais

Se você busca um aplicativo para smartphone, há duas paradas obrigatórias. Se o celular roda o sistema operacional Android, você tem de acessar o Google Play. Mas se o aparelho está equipado com o iOS, da Apple, o lugar é a App Store. O acesso é fácil e feito diretamente pelo smartphone. Desde que surgiram, elas dominam esses ecossistemas digitais e contam com milhões de programas disponíveis para baixar (confira gráfico ao final da reportagem). Ficar de fora delas, até agora, não parece ser um bom negócio. Mas um grupo de três empresas começa a desafiar essa lógica. Os serviços de streaming de filmes Netflix e de áudio Spotify e desenvolvedora de games Epic Games, dona do jogo Fortnite, um dos maiores sucessos atuais da internet, estão desenvolvendo estratégias para reduzir essa dependência das lojas de aplicativos.

Essas três empresas estão tentando evitar o pedágio que têm de pagar para Apple e Google. Quando os consumidores fazem assinatura de seus serviços por meio das lojas online, as companhias deixam uma parte da receita para os dois gigantes digitais. No primeiro ano, elas são obrigadas a pagar 30%. A partir do segundo ano, a taxa cai para 15%. “Esses aplicativos, aparentemente, não estão mais observando valor nas lojas de Google e Apple e gostariam de reter mais dinheiro da venda de seus softwares”, afirma Rob Enderle, principal analista da consultoria Enderle Group. Os aplicativos da Netflix e do Spotify são o primeiro e segundo mais baixados na categoria de programas baseados em assinaturas. No primeiro semestre deste ano, a App Store e o Google Play movimentaram US$ 22,6 bilhões e US$ 11,8 bilhões, respectivamente, de acordo com estimativas da consultoria americana Sensor Tower, especializada no mercado de mobilidade.

Loja bilionária: a App Store, da Apple, de Tim Cook, movimentou US$ 22,6 bilhões no primeiro semestre (Crédito:Andrew Burton/Getty Images/AFP)

A Netflix confirmou que está testando um novo método de pagamento em 33 países, incluindo o Brasil, cujo objetivo é evitar a App Store. Até 30 de setembro, alguns usuários novos ou antigos não conseguirão fazer o pagamento mensal por meio da loja da Apple. Eles serão direcionados para uma página de internet, no qual receberão informações para concluir a assinatura diretamente com a Netflix. O Spotify, nos Estados Unidos, está usando uma estratégia semelhante, mas somente para novos assinantes. No Brasil, desde 2016, tem uma parceria com a fintech Ebanx para driblar a Apple. Procurada, a Netflix não forneceu mais detalhes da estratégia. “Estamos constantemente inovando e testando novas abordagens de assinatura em plataformas diferentes para entender as preferências de nossos membros”, posicionou-se, por meio de nota. O Spotify não quis comentar.

O Fortnite, da Epic Games, ganhou uma versão para Android, do Google, na semana passada. Mas quem quiser baixá-lo tem de ir diretamente ao site da empresa. Com 125 milhões de jogadores, o game de tiros é um dos grandes fenômenos atuais da internet. Em apenas sete meses, já faturou US$ 1,2 bilhão. Mas, ao contrário de Netflix ou Spotify, o aplicativo é gratuito. A receita bilionária acontece por meio de compras dentro dos jogos. “A Epic Games quer manter uma relação direta com seus consumidores em todas as plataformas onde isso é possível”, disse Tim Sweeney, CEO da Epic Games, em entrevista ao site americano The Verge. “As lojas físicas e os intermediários não são mais necessários.” Até o fim deste ano, o Google pode deixar de ganhar US$ 50 milhões por não hospedar o aplicativo, segundo previsão da Sensor Tower.

É cedo ainda para saber se os movimentos de Netflix, Spotify e Epic Games podem se configurar uma tendência e incentivar outras empresas a adotarem estratégias semelhantes. “Essas empresas devem ter atingido uma massa crítica suficiente que lhes permite deixar as lojas de Apple e Google”, afirma Marcelo Coutinho, coordenador do mestrado profissional da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). “Elas fizeram as contas e chegaram a conclusão que valia a pena correr o risco.” O professor da FGV, no entanto, acredita que poucas empresas conseguirão criar redes independentes, com milhões de consumidores, para evitar o pedágio das lojas de aplicativos. Enderle, do Enderle Group, no entanto, tem uma visão mais pessimista para a Apple e para o Google. “Se a Netflix for bem-sucedida, acredito que muitas empresas possam segui-la.” Os próximos capítulos indicarão se será uma fuga em massa de aplicativos ou apenas de alguns deles.