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A fórmula para monetizar seus dados

Fundada no Vale do Silício por um brasileiro e presidida pelo ex-CEO da Visa no Brasil, a DrumWave registrou mais de 30 patentes antes de lançar um ecossistema que se propõe a gerar riqueza a partir da certificação de dados – e atraiu a gigante IBM como parceira no negócio

Crédito: Fotomontagem de Evando Rodrigues sobre fotos de Rodrigo Rodrigues e divulgação DrumWave

O presidente e o fundador: Fernando Teles, ex-CEO da Visa (de branco), que entrou para a DrumWave como investidor, e André Vellozo, que criou o modelo para transformar dados em dinheiro. (Crédito: Fotomontagem de Evando Rodrigues sobre fotos de Rodrigo Rodrigues e divulgação DrumWave)

No dia 17 de outubro de 2019, a sede da DrumWave Inc., em Palo Alto, Califórnia, recebeu uma intimação do comitê de serviços bancários, imobiliários e de relações urbanas do Senado dos Estados Unidos. Era uma convocação para que os sócios da startup de tecnologia explicassem o “conceito de propriedade pessoal de dados” que a empresa estava introduzindo no mercado. “Adicionalmente, por favor, descrevam como dados pessoais podem ser valorados (…) e seu potencial impacto nos negócios”, solicitava a carta. Segundo o documento, esclarecer esses e outros pontos era crucial para que o Congresso dos EUA pudesse endereçar o tema de forma apropriada dentro da legislação vigente, incluindo o GDPR, sigla em inglês para Regulação Geral de Proteção de Dados — o que equivale, na União Europeia, à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) brasileira. Uma parte das explicações levadas aos senadores americanos está nos próximos parágrafos. Mais que um “conceito”, elas estabelecem um sistema inédito para organizar, precificar e monetizar dados.

“O Senado nos convocou porque ainda não conseguiu entender quem é o dono do dado”, afirmou à DINHEIRO o fundador e CEO da DrumWave, André Vellozo. “Nós entendemos que o dado nasce de uma relação entre duas partes. E relacionamentos são regidos por contratos”, disse. Pensando assim, o que ele propõe é certificar os dados de cada pessoa, atuando como uma espécie de cartório de registro dessas relações. E, claro, atribuindo valores de transação para que todos — e não apenas poucas empresas de tecnologia — possam transformar dados em dinheiro.

“O mercado fala em capturar dados. A gente sempre pensou no contrário: entregar dados. E a quem nós vamos entregá-los? Ao proprietário”, afirmou. Para que isso ocorra, o primeiro passo é a certificação. Depois de estabelecer a propriedade, o dono do dado pode comercializá-lo com quem fizer as melhores ofertas. A monetização ocorre a partir do momento em que o dado recebe um score (pontuação), criado a partir de casos de uso. Dependendo da aplicação, ele pode valer muito, gerando riqueza para a sociedade como um todo.

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Colocado dessa forma, o conceito de propriedade pessoal de dados parece simples. E justo. Mas, como há bilhões de dólares envolvidos — e o modelo de remuneração da DrumWave prevê que parte desse dinheiro mude de bolsos —, tudo fica mais complexo. “Para a Amazon, para o Google, a custódia de dados é hosting. Ou seja, quem hospeda tem a posse. A gente criou um instrumento fiduciário que separa a custódia do dado em si. Quem possui o certificado é o agente custodiante e só ele tem o direito de comercializá-lo. Não importa onde o dado está hospedado”, afirmou Vellozo. Evidentemente, isso não interessa às empresas que hoje hospedam os dados. E como superar esse obstáculo?

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“O que a DrumWave está fazendo é ajudar a gerar valor para o dado como um negócio. temos tecnologia que pode acelerar esse processo” Guilherme Novaes, Líder de Ecossistema da IBM.

CAROLINA Para ser bem didática nesse sentido, a DrumWave criou uma personagem. Carolina Taylor. Ela é americana, tem 22 anos e acaba de terminar a faculdade. Para “tomar posse” de seus dados, Carolina abrirá uma conta corrente, ou carteira. A DrumWave registrou essa ferramenta com o nome Personal dWallet. Carolina irá solicitar seus dados junto às empresas com as quais se relaciona — desde a operadora de telefonia até o TikTok, rede social na qual ela supostamente postou 23 vídeos em 2021. Ao receber os dados, basta depositá-los em sua dWallet para monetizá-los. E é aí que a DrumWave terá de combinar o jogo com o adversário. “Eu viro para as empresas e digo: ‘Sabe aquele dado que está ali no seu servidor? Ele vai começar a andar’”, afirmou Vellozo.

Para não fazer isso sozinha, a DrumWave buscou a IBM. E o que seduziu a gigante de tecnologia para aderir ao projeto foi justamente a ideia de monetizar dados, segundo o líder de Ecossistema da IBM no Brasil, Guilherme Novaes. “Houve uma sinergia instantânea. Muito do que a gente faz na IBM para coletar, organizar e criar correlações entre dados se baseia em gerar insights para as empresas tomarem decisões”, disse Novaes. “O que a DrumWave está fazendo é ajudar a gerar valor para o dado como um negócio. Não temos isso no nosso portfólio, mas temos tecnologia que pode acelerar esse processo”, afirmou. Uma das formas de fazer isso é apresentar a solução para outras empresas, que se tornarão brokers (corretoras) de dados. Para Novaes, o ponto-chave para que esse modelo funcione é a criação do score, que serve como um ranking. Quanto mais interesse houver pelo dado, maior o valor de transação. Para isso, os dados precisam ser organizados e tratados como token, ou moeda. E é aí que a parceria com a IBM faz toda a diferença. “Além da plataforma da DrumWave estar rodando na nossa nuvem, que oferece altíssimos padrões de segurança, nós embarcamos o Watson na solução que eles desenvolveram”, disse Novaes. Watson é a ferramenta cognitiva da IBM, que trabalha com Inteligência Artificial para modelar os dados que a DrumWave certifica. “É um modelo ganha-ganha.”

Para Vellozo, a parceria com a IBM traz ainda o aval necessário para tornar realidade o projeto que ele começou a delinear há mais de uma década, quando decidiu morar nos Estados Unidos. “Sem esse apoio seria impossível avançar com uma ideia tão disruptiva”, disse. “A gente quer passar uma faca no que existiu até agora e começar uma nova era com as seguintes regras: dado certificado e usuário empoderado.” E, para dar uma dimensão desse empoderamento, Vellozo cita o valor de mercado das empresas que trabalham com dados. “Entre as 200 maiores companhias do mundo, as cinco que estão no topo processam dados como negócio. As outras 195 processam dados para o negócio” (confira o gráfico).

E não é só a IBM que se entusiasmou com a ideia lançada pela DrumWave. Fundador e ex-CEO da Sun Microsystems, Scott McNeilly está no conselho consultivo da empresa e tem ajudado a difundir o modelo de negócio que imagina ser o futuro da Economia da Informação. “Eu e a DrumWave pensamos diferentemente do resto das companhias”, disse McNeilly ao jornal O Estado de S. Paulo. “Acreditamos que seria maravilhoso nos cadastrarmos para dar nossos dados por um preço. Posso decidir com quais empresas quero compartilhar meus dados. Isso é poder para o consumidor, e não para o governo ou o Facebook. Acredito que a DrumWave caminha para uma supermudança na balança do poder.”

BANCO CENTRAL O presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, que implementou o Pix e está em vias de lançar o Real Digital, citou recentemente a monetização de dados como “um tema mais relevante que o próprio metaverso”. “Do mesmo jeito que a gente está fazendo open bank, open finance, open insurance, open health, a gente precisa ter alguma coisa para que as pessoas consigam monetizar os seus dados de forma mais eficiente”, disse. Para ele, assim como as grandes redes sociais criaram o ambiente de ruptura em relação aos meios de comunicação tradicionais, “as redes paralelas de monetização de dados vão criar um ambiente de ruptura para as redes sociais”, afirmou, sem citar a DrumWave.

Sérgio Lima

“Do mesmo jeito que a gente está fazendo open bank, open finance, open insurance, open health, a gente precisa ter alguma coisa para que as pessoas consigam monetizar os seus dados de forma mais eficiente” Roberto Campos Neto Presidente do Banco Central.

A empresa criada em 2015 por André Vellozo com dois sócios — Santiago Ortiz e Alberto Blumenschein, atual CTO — viveu os primeiros anos à base de autoinvestimento, até começar a vender soluções para grandes clientes. “Desenvolvemos mais de 20 aplicações de análise de dados para o mundo inteiro. Um dos projetos, na Ásia, envolve 1,2 bilhão de telefones, 7 trilhões de transações por mês”, disse Vellozo. Para escalar a monetização de dados, ele foi buscar ajuda em um profissional do mercado financeiro. Colocou na presidência da DrumWave o ex-CEO da Visa no Brasil Fernando Teles. Com uma carreira de mais de 30 anos como executivo, Teles decidiu ser também investidor da empresa. “Eu quis participar do risco do negócio”, afirmou. “Ao compreender o que a DrumWave propõe, percebi que ela se encaixa no que eu havia traçado para o meu futuro profissional.” Segundo ele, seu plano incluía três aspectos: aprender algo novo (monetizar dados, por exemplo), contribuir com a profissionalização do negócio a partir de sua experiência como gestor e, acima de tudo, criar um impacto na sociedade por meio da geração de renda. “A DrumWave é uma empresa deeptech, que desenvolveu coisas novas, como a dWallet, o score de dados, tudo ancorado em patentes”, disse Teles. Segundo Vellozo, são mais de 30 patentes registradas e garantidas, a maior parte ligada à experiência do usuário (UX). Para Teles, da mesma forma que a Visa foi pioneira ao propor “arranjos de pagamentos”, a DrumWave fará “arranjos de dados”. De um lado estão os agentes distribuindo o que está nas carteiras e, do outro, empresas comprando essas informações por meio de certificados.

TRÊS OPÇÕES E como convencer as empresas a abrir mão dos dados que são a base de seu negócio? Oferecendo uma vantagem. Imagine que você queira certificar a sua relação com o Google. Todos os dados gerados pelo relacionamento com a empresa já estão disponíveis. Quando você entrar com uma requisição por meio da DrumWave, o Google poderá dar três respostas. A primeira (e que parece a mais óbvia) é dizer que não o reconhece. Neste caso, ele continuará monetizando seus dados. A segunda é o Google reconhecê-lo, mas rejeitar a solicitação da DrumWave — e não mandar o dado. A terceira opção é reconhecer a relação, aceitar a requisição e enviar o dado. Aí, segundo Vellozo, acontece uma mágica. “Ele pode compartilhar com você as ofertas que receber. Nesse modelo, ele ganha e você também.”

Ainda que esse compartilhamento se torne o padrão do mercado e as empresas que hoje armazenam dados vejam vantagens financeiras em fornecê-los a quem requisitar, restam algumas dúvidas sobre o modelo de negócio. Uma é em relação aos valores que essa carteira pode render. Uma conta feita pela DrumWave prevê remuneração média de US$ 50 por mês para cada usuário do serviço. É pouco para falar em geração de riqueza. Mas Teles acredita que esse montante irá crescer exponencialmente. “Hoje, os dados são usados basicamente para propaganda e para melhorar análise de crédito. Mas eles podem ir muito além disso. Uma empresa de entregas gera milhares de informações sobre rotas, consumo de combustível, desgaste de pneus, manutenção dos veículos. Tudo isso tem valor, desde que os dados estejam organizados”, disse Teles.

Por fim, há a questão legal. Fundador da Data Privacy Brasil e autor de livros como Proteção de Dados Pessoais: a Função e os Limites do Consentimento, o advogado Bruno Bioni entende que a Lei Geral de Proteção de Dados já prevê o Direito à Portabilidade. “Hoje, pela LGPD, o titular já deveria ter esse direito de chegar para o Facebook ou Google e falar, ‘olha, os dados são meus, eu sou o titular, me dá aqui que eu quero ir para uma empresa que vai me permitir ter uma carteira que me gere valor’ ”. No que depender da DrumWave, fazer isso já não é mais apenas um desejo. É algo que está ao alcance de um clique.

O DADO COMO DIREITO

A tônica do modelo de negócio de empresas como Google e Facebook é que o cliente “paga” pelos serviços fornecendo seus dados. A equação financeira se fecha porque alguém vai direcionar um produto ou serviço de interesse do usuário. Essas empresas não vendem nem repassam esses dados para que outras empresas façam contatos diretos com cada cliente potencial. Apenas intermediam as relações. “É o chamado Differential Privacy, em que se anonimiza dados pessoais”, afirmou o fundador da Data Privacy Brasil, Bruno Bioni. Segundo ele, é difícil dizer se as empresas poderiam vender os dados que coletam. “A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) vem muito numa lógica de manual de instrução para se fazer um uso responsável de dados. Mais para auxiliar na circulação do que para trancafiá-los”, disse. Ainda segundo ele, “a ideia de empoderamento do cidadão, do titular sobre suas informações e dados, vem de antes da LGPD, inclusive. O mercado apelidou de privacy-enhancing technologies”. Entram nesse contexto a criptografia de ponta a ponta e os softwares de gerenciamento de identidades. Bioni cita um movimento surgido no Brasil em 2020: o reconhecimento da produção de dados como direito fundamental. “É uma cláusula pétrea da Constituição, com emenda agora em 2022. Não se pode vulnerabilizar esse status constitucional”. Ao ser entendido como direito fundamental, o dado merece proteção. Ou seja, ao menos em tese, ele não pode ser comoditizado.

Ricardo Ivanov

Evandro Rodrigues