Negócios

O plano de investimento de R$ 1 bilhão da Solvay

Gigante do setor químico, prestes a completar um século de operação do Brasil, define um plano de investimento de R$ 1 bilhão para os próximos cinco anos. A estratégia inclui aquisições e mudança no portfólio de produtos

Crédito: Thiago Bernardes / FramePhoto

Daniela Manique, presidente: “O Brasil pode ser uma plataforma global de produtos renováveis” (Crédito: Thiago Bernardes / FramePhoto)

Entre 2012 e 2017, os principais executivos da belga Solvay, gigante da indústria química, com receita de € 10,9 bilhões no ano passado, dedicaram boa parte de suas agendas a garimpar o mercado em busca de oportunidades de aquisições e promover processos de integração. Nesse período de cinco anos, foram compradas 17 empresas concorrentes em todo o mundo, entre elas a francesa Rhodia e a americana Cytec, líder global no segmento chamado de materiais avançados, que são plásticos de alto desempenho utilizados, por exemplo, na produção de aviões, de foguetes e de automóveis de luxo. Somente essas duas aquisições representaram investimentos de cerca de € 9 bilhões, consolidando esse ciclo como o mais intenso processo de expansão em 155 anos de existência da companhia. “A estratégia é nos consolidar em frentes de negócios que, inevitavelmente, irão se transformar nas próximas décadas”, disse o CEO mundial e chairman, Jean-Pierre Clamadieu, em recente encontro com parceiros e analistas do setor, em Bruxelas. “O foco será manter o ritmo de aquisições e transformação de nosso portfólio.”

O Brasil, onde a empresa completará um século de operação em 2019, é peça-chave. Desde fevereiro deste ano, a subsidiária está sob comando da executiva Daniela Manique, a primeira mulher a ocupar o cargo máximo da operação da América Latina, com 2,6 mil funcionários e receita de € 1,1 bilhão em 2017. Poucos meses depois de assumir, recebeu a missão de investir pelo menos R$ 1 bilhão no Brasil nos próximos cinco anos. “A ordem é continuar comprando empresas e expandindo a operação no Brasil e em países da região”, disse Daniela à DINHEIRO, em sua primeira entrevista como presidente da Solvay. Antes da Solvay, a executiva passou pelas diretorias da Shell e do Grupo Ultra, dono da rede Ipiranga. “Toda oportunidade de aquisição de empresas que tenham alinhamento com a nova cultura da Solvay será avaliada com atenção”, afirmou.

Química sustentável: o foco da operação brasileira da Solvay será desenvolver produtos de baixo impacto ambiental

Essa nova cultura inclui também a venda de algumas de suas divisões de negócios, como vem ocorrendo nos últimos dois anos. A Solvay se desfez de sua produção de plástico PVC, incluindo a Indupa na América do Sul. Além disso, parou de produzir o “acetow”, matéria-prima à base de acetato de celulose utilizado para a produção, principalmente, de filtros de cigarros. “A transformação do portfólio passa pela decisão de sair de áreas que não consideramos importantes para a construção de uma sociedade melhor”, garantiu. Dentro desse processo, a Solvay vendeu a área de poliamida para a alemã Basf, negócio que ainda está sendo avaliado pelas autoridades antitruste internacionais, inclusive pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no Brasil.

O plano bilionário da Solvay para os próximos anos é sustentado pelo desempenho da subsidiária. Puxado pelo Brasil, que representa cerca de 70% dos resultados regionais, as vendas cresceram 28% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2017, enquanto as exportações cresceram 24%. “Como atuamos em muitos países e em diversos segmentos, temos conseguido equilibrar nos resultados”, disse Daniela. “Quando um segmento cai, outro compensa, e quando um país vai mal, o vizinho ajuda a equilibrar.” De fato, os números endossam a essa estabilidade. Em 99 anos no Brasil, apenas um houve prejuízo: 1990. “Foi um período complicado para toda a indústria, com as incertezas na eleição do ex-presidente Fernando Collor, planos econômicos e tudo mais.”

Dentro da estratégia orquestrada por Daniela para a Solvay está, principalmente, o desenvolvimento de produtos “verdes”. No próximo mês, com investimento de R$ 50 milhões, a empresa irá inaugurar sua nova fábrica de solventes oxigenados de fonte renovável, em Paulínia, no interior paulista. Chamada de linha Augeo, ela será voltada a suprir a demanda de mercados em crescimento no exterior, como Air Care e Home Care. Essa fábrica já iniciará suas operações com 100% da capacidade, segundo a executiva. “O aumento da população e o novo comportamento do consumidor, mais consciente em relação ao impacto do consumo nos recursos naturais, está gerando uma gigantesca demanda global para a indústria química e forçando as empresas a reverem suas estratégias”, afirma o britânico Michael North, especialista no setor e membro do Centro de Excelência em Química Verde da Universidade de York. “Aquelas que insistirem no erro e não se adaptarem, irão desaparecer.”


“O futuro do setor químico passa pela biotecnologia e matérias-primas renováveis”

Daniela Manique, presidente da Solvay

Como será conduzida a estratégia de aquisições e investimentos no Brasil?
Nos próximos três anos, está confirmado o orçamento de R$ 600 milhões para compra de empresas e diversificação do portfólio. O restante será investido conforme surgirem oportunidades de aquisição, em áreas que façam sentindo para a nossa operação. Só investimentos em produtos que estejam alinhados com a cultura da Solvay. E pretendemos sair de segmentos aos quais não queremos ter nossa imagem associada. Nesse processo, vamos investir mais de R$ 1 bilhão, em cinco anos.

Por que o País foi escolhido para receber esses recursos?
O Brasil pode ser uma plataforma global de produtos renováveis. A área do agronegócio, por exemplo, tem apresentando um desempenho fantástico e, cada vez mais, há uma evolução da legislação, exigindo produtos de menos agressivos. Por isso estão animados com as perspectivas de crescimento nessa área e de todo o setor químico.

Essa transformação é motivada pela guerra contra o plástico?
Sim, não há espaço mais para produtos que causam impacto ambiental. O futuro do setor químico passa pela biotecnologia e matérias-primas renováveis. Temos de ser sustentáveis não só hoje, mas no longuíssimo prazo.