Finanças

A fintech da Linx

Empresa de software para o varejo quer ampliar sua participação nos negócios de pagamentos, adquirência e crédito

Crédito: Intervenção sobre foto de Marcelo Justo

Dennis Herszkowicz, diretor de novos negócios da Linx: “Se fossemos uma fintech, seríamos uma das grandes” (Crédito: Intervenção sobre foto de Marcelo Justo)

Os pagamentos com cartões de crédito e débito movimentaram R$ 1,4 trilhão no ano passado. Um em cada sete reais dessa montanha de dinheiro passou, em algum momento, pelos sistemas de informação da Linx, empresa especializada em prestar serviços para o varejo. Todos os meses, os cerca de 45 mil clientes, que vão desde grandes redes até lojas de bairro, realizam 170 mil transações intermediadas pela companhia, fundada em 1985. “Temos uma fatia de mercado total de 40% e, no caso dos shopping centers, a participação chega a 50%”, diz Dennis Herszkowicz, diretor vice-presidente de novos negócios da Linx. Isso fez Herszkowicz, que está na empresa desde 2003, mudar seus cartões de visita no ano passado. O especialista em tecnologia com formação em publicidade deixou de ser o responsável pelas finanças e relações com investidores e está a cargo da nova ofensiva da Linx: tornar-se uma empresa relevante em pagamentos, adquirência e, em um segundo momento, antecipação de recebíveis e concessão de empréstimos.

Denominada Linx Pay Hub, a nova divisão quer aproveitar a massa de informações que lhe permite antecipar os movimentos do comércio, tanto superficiais quanto tectônicos, e usar esse conhecimento para influenciar nas decisões financeiras dos clientes. Por exemplo, ela vai indicar para o comerciante que precisa antecipar recebíveis qual empresa de adquirência oferece as melhores condições e direcionar o sistema para fechar a transação. “Nossa plataforma registra negócios de R$ 200 bilhões por ano e, se fossemos uma uma fintech, seríamos uma das grandes, o que nos permite influenciar nas decisões dos varejistas”, diz Herszkowicz. O passo seguinte será usar essas informações para recomendar aos bancos a melhor hora de emprestar dinheiro para o varejo. “Vamos atuar como uma promotora de vendas, intermediando a concessão de empréstimos dos bancos e cobrando pela prestação desses serviços”, diz Denis Piovezan, diretor da Linx Pay Hub. Piovezan trabalhou na Losango, promotora de vendas fundada pelo Lloyds Bank e depois adquirida pelo HSBC e pelo Bradesco, considerada o paradigma do setor. “Vamos recriar uma Losango com ênfase em soluções virtuais”, diz ele.

O que levou a empresa de informática a alterar sua estratégia foi a percepção de que o varejo mudou drasticamente nos últimos três anos. “Percebemos que os pagamentos com cartões e as compras por meio de dispositivos móveis estão mais freqüentes e isso é só uma parte das mudanças”, diz Herszkowicz. A estrutura tradicional de pontos de venda físicos vem sendo substituída por operações mais leves, digitais e em tempo real. Saem de cena os conceitos de estoque, desconto e promoção e entram novos termos, como marketplace (o uso da plataforma de um varejista por outros comerciantes para distribuir seus produtos) e prateleira infinita. Nesse cenário, terá mais vantagens quem se mover melhor no ambiente digital. Os varejistas estão ávidos por agilidade nos fluxos de caixa e também pela facilidade em realizar a liquidação financeira das vendas.

Nicola Simone, diretor de tecnologia de O Boticário: desafio de inserir rede de varejo no comércio eletrônico (Crédito:Guilherme Pupo Editora Globo / Agência O Globo)

Um bom exemplo é o do Boticário. Nicola Simone, executivo responsável pela tecnologia do grupo, tinha um desafio pela frente quando assumiu o cargo, há dois anos. Com cerca de quatro mil pontos de venda, a rede é um dos maiores varejistas e o maior franqueador do País. Simone precisava descobrir uma maneira de inserir suas lojas no mundo digital. “Tínhamos algumas iniciativas de integração do comércio tradicional com o eletrônico, mas precisávamos ganhar escala”, diz ele, que optou pela Linx. Atualmente, cerca de 550 lojas da rede servem-se dos sistemas e soluções da companhia. “Nossa ideia é que esse uso se intensifique, especialmente na gestão financeira”, diz Simone. Ao longo do tempo, mais e mais informações estratégicas sobre a rede, que faturou R$ 12 bilhões no ano passado, vão passar pelos servidores da Linx.

Para aproveitar esse movimento, a Linx vem enfileirando aquisições e já investiu um total de R$ 350 milhões em compras para completar seu portfólio. Foram três só neste ano. A mais recente foi a compra da DCG, proprietária da marca EZ Commerce, por R$ 49 milhões. Com um faturamento previsto de R$ 18 milhões para este ano, a companhia adquirida no fim de junho é uma das líderes em plataformas de e-commerce e especializada em integração com marketplaces, exatamente o que Simone, do Boticário, precisa. Para os analistas Carlos Sequeira e Bernardo Teixeira, do BTG Pactual, a aquisição reforça o perfil multiplataforma da Linx. “Classificamos a empresa como tendo boas perspectivas de crescimento dada a sua posição única no varejo brasileiro e seu modelo de negócios não cíclico”, afirmam.

A transformação de uma operação de lojas físicas para uma de plataforma multicanal e digital agrada o mercado. Prova disso é a alta de 3.504% nas ações da Magazine Luiza desde 2015. Isso não passou desapercebido nos luxuosos escritórios da Linx. O desempenho de suas ações tem sido mais discreto. Nesse período, a alta acumulada foi de 22%, ante os 30,3% do Índice Bovespa. Mesmo assim, os analistas estão otimistas. Frederico Mendes, do Bradesco BBI, indica um preço-alvo de R$ 25 para o fim deste ano, alta de 27,6% em relação ao fechamento da quarta-feira 11. “A companhia possui um banco de dados muito valioso, cujas informações podem ser usadas de maneira lucrativa em parcerias com empresas de pagamento ou bancos”, escreveu ele.