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A Fiat sem Marchionne

O poderoso-chefão do grupo Fiat Chrysler, que salvou a companhia da falência, no início dos anos 2000, morre aos 66 anos. O sucessor terá o desafio de dar continuidade ao plano de expansão global e imprimir seu estilo próprio de gestão

Crédito: Mark Thompson/Getty Images

Sergio Marchionne: o homem que evitou a falência da Fiat, há 14 anos, se aposentaria em abril de 2019 (Crédito: Mark Thompson/Getty Images)

È come insegnare a tuo figlio ad andare in bici, cosa importante è che tu devi stare indietro per evitare che cada (É como ensinar seu filho a andar de bicicleta, o importante é que você esteja atrás para evitar que caia). Uma das últimas declarações públicas do italiano Sergio Marchionne, presidente mundial do grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA), quando indagado sobre sua rotina no comando da companhia, exemplifica com precisão seu estilo de gestão à frente de um dos maiores grupos automobilísticos do mundo. Nos últimos 14 anos, Marchionne precisou ensinar a centenária montadora de Turim a literalmente se manter em pé. Ao assumir a presidência, no início de 2004, a companhia estava à beira da falência, com um prejuízo de € 6 bilhões.

Fábrica da Jeep, em Goiana (PE): construção da unidade em Pernambuco foi idealizada e acompanhada de perto por Marchionne (Crédito:Alex Silva/Estadao)

A rival General Motors chegou a propor a compra por € 1,5 bilhão, mas sem assumir as dívidas, proposta recusada por Marchionne com um palavrão típico do dialeto da região de Abruzzo, onde ele nasceu. Dois anos depois, ao passar por uma profunda reestruturação, com renegociação das dívidas, demissão de mais de 2 mil funcionários, corte no número de cargos de diretoria e enxugamento de custos em todas as suas fábricas, a companhia já havia voltado ao lucro. E mais: em 2009, a Fiat mergulhou de cabeça no mercado americano ao comprar uma das maiores rivais da GM, a Chrysler, dando origem ao principal conglomerado industrial da Itália. “A virada da Fiat sob comando de Marchionne é comparável à estratégia militar do cartaginês Aníbal, que quase destruiu o exército romano em seu próprio território”, comparou o economista Raffaele Frau, da consultoria MSC, em Milão.

Fábrica em Betim (MG): durante mais de uma década, o Brasil foi o maior mercado da Fiat no mundo (Crédito:Divulgação Fiat)

Na manhã da quarta-feira 25, a era Marchionne chegou ao fim. Ele já havia planejado sua aposentadoria para abril de 2019, mas, em decorrência de complicações de uma cirurgia no ombro, o executivo morreu aos 66 anos em um hospital de Zurique, na Suíça. Seu sucessor, o britânico Mike Manley, diretor-executivo da Jeep, foi nomeado dois dias antes, assim que o estado de saúde do chefão da companhia se agravou. “O que me impressionou foram suas habilidades de gestão, inteligência incomum, suas qualidades humanas, sua generosidade e a maneira como ele entendia pessoas”, disse, em comunicado, o herdeiro John Elkann, neto do fundador da Fiat, Gianni Agnelli. “Ele nos ensinou a pensar de maneira diferente e a ter a coragem de mudar.”

Essas mudanças influenciaram diretamente as operações da companhia no Brasil. Marchionne nunca escondeu seu carinho e entusiasmo pelo mercado brasileiro. Ele idealizou a construção da fábrica da Jeep, em Goiana (PE), a mais moderna da marca no mundo. Durante mais de uma década, o País ocupou a primeira posição no ranking global da Fiat, maior até que a da Itália – posições que se inverteram após a forte retração do setor automobilítico local nos últimos anos. “Marchionne foi um grande líder da indústria mundial, um líder inspirador e com uma visão estratégica além de qualquer concorrente”, disse à DINHEIRO Cledorvino Belini, ex-presidente da FCA na América Latina, entre 2004 e 2016. “Ele nos ouvia muito, nos dava conselhos e valorizava muito o Brasil. Terei saudade eterna.”

Com seu estilo de poderoso-chefão, Marchionne, famoso por demitir sem dó, nem piedade, também colecionou desafetos, especialmente sindicalistas. O mais recente embate aconteceu em junho, quando os funcionários da fábrica em Melfi cruzaram os braços em protesto à contratação do craque português Cristiano Ronaldo pela Juventus, por € 100 milhões. A família Agnelli, maior acionista da empresa, com 30% do capital, também é dona de 64% do time. “É inaceitável que, enquanto os donos pedem sacrifícios financeiros enormes aos trabalhadores da FCA, eles mesmos gastem milhões de euros para comprar um jogador”, disse o sindicato, em nota.

Polêmicas à parte, o fato é que Marchionne deixa um incontestável legado a um grupo empresarial que foi da quase falência à uma potência global com faturamento de € 56 bilhões no primeiro semestre deste ano, 236 mil funcionários e marcas poderosas como Jeep, RAM, Dodge, Alfa Romeo, Maserati e Lancia, além da Fiat e da Chrysler. “Ele nos ensinou que a única questão que vale a pena se perguntar no final de cada dia é se fomos capazes de mudar alguma coisa para melhor, se fomos capazes de fazer a diferença”, completou Elkan. Sem dúvida, Marchionne foi capaz.