Tecnologia

A fantástica fábrica de efeitos especiais da O2

Com criatividade e poucos recursos, a produtora de Fernando Meirelles se credencia para disputar o mercado global de computação gráfica

Crédito: Divulgação

Limite imaginário: o ator Jesuíta Barbosa grava em um cenário todo verde uma cena do filme Malasartes. À direita, os efeitos especiais produzidos pela 02, que representam o Vale Encantado (Crédito: Divulgação)

O começo do filme “A Cidade de Deus” (2002), do diretor brasileiro Fernando Meirelles, é uma das cenas mais cultuadas da história do cinema mundial. Ele mostra a perseguição a uma galinha, sob o ponto de vista do animal, que corre pelas vielas apertadas da favela homônima. A forma como foi filmada impressionou os bambambãs de Hollywood. Todos queriam saber como Meirelles tinha conseguido aquelas cenas de forma tão real. Para eles, não havia dúvida: a galinha havia sido criada por efeitos especiais. Meirelles, então, explicou o jeitinho brasileiro. Ele amarrou a câmera no próprio galináceo para conseguir uma perspectiva única da desesperada fuga do animal para não virar um ensopado.

A “gambiarra” brasileira cedeu espaço, 15 anos depois, ao profissionalismo. A 02, produtora independente fundada por Meirelles, criou a 02 Pós, área de pós-produção que tem desenvolvido trabalhos de computação gráfica que não chegam a fazer feio nem mesmo às produções milionárias de Hollywood. Comandada por Paulo Barcellos, a O2 Pós se abriu ao mercado em 2013, quando deixou de atuar exclusivamente à produtora. No ano passado, participou de 50 filmes ou séries. “Estamos começando a provar ao mercado que temos condições de fazer os efeitos especiais no Brasil com um nível de qualidade similar ao dos Estados Unidos”, afirma Barcellos.

Dupla: di Segni (à esq.) e Barcellos, da 02, realizaram efeitos em mais de 50 filmes e séries em 2016 (Crédito:João Castellano/Istoe)

O cartão de visitas da O2 Pós é o filme Malasartes e o Duelo com a Morte, que estreou nos cinemas em agosto deste ano. Com orçamento de R$ 13 milhões, alto para o padrão brasileiro, ele conta a história de Pedro Malasartes (interpretado pelo ator Jesuíta Barbosa), um matuto ingênuo de bom coração que, sempre que possível, aplica pequenos golpes para ganhar uns trocados. Esse é o longa brasileiro com maior número de cenas construídas digitalmente na história. São 800 planos com efeitos especiais de alta complexidade, o que corresponde a aproximadamente 50% de sua duração. Sua fase de pós-produção demorou dois anos para ficar pronta e mobilizou uma centena de funcionários trabalhando quase que exclusivamente na produção. “Esse filme nos preparou para voos maiores”, diz Sandro di Segni, diretor de efeitos especiais da 02 Pós.

O próximo desafio serão os efeitos para Pluft: o fantasminha, uma adaptação de um clássico de Maria Clara Machado, que vem acompanhando gerações após gerações desde a década de 1950. Dirigido por Rosane Svartman e produzido por Clélia Bessa, ambas sócias da produtora Raccord, o longa que conta a história de um fantasma com medo de gente deve estrear no fim de 2018. Desde o início, di Segni envolveu-se nas filmagens, que será em 3D, para garantir que os efeitos pudessem funcionar na etapa de pós-produção. Não é para menos. Para garantir a leveza dos fantasmas, Rosane resolveu filmar os atores embaixo d´água. O set subaquático foi montado em uma piscina de seis metros de profundidade da Escola de Bombeiros de Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo. “O planejamento foi a chave para trabalhar dentro de um orçamento de um filme brasileiro”, afirma Rosane.

Leveza: a atriz Fabíula Nascimento em gravação subaquática de Pluft. Ao lado, o diretor Fernando Meirelles, fundador da 02 (Crédito:Divulgação e Andre Lessa/Istoe)

Para garantir a qualidade dos efeitos, di Segni participou de todas as fases do projeto. Ele pediu que fosse feito um storyboard de todas as cenas. Além disso, esteve presente todos os dias no set subaquático monitorando as filmagens. Os atores foram gravados separadamente. Não podiam soltar bolhas enquanto falavam. Depois, todo esse material será unido na O2. Para se ter uma ideia da complexidade, di Segni terá de unir, em alguns casos, as imagens dos atores submersos a um cenário em miniatura, no qual a mesa do ambiente foi desenvolvida digitalmente. “Cerca de 80% do filme tem alguma intervenção de computação gráfica”, diz o diretor da O2 Pós.

É um trabalho hercúleo para di Segni, um experiente profissional da área que morou 15 anos fora do Brasil. Ele trabalhou em produções como O Homem de Aço e o último filme da série Harry Potter, As Relíquias da Morte – Parte 2. No Reino Unido, atuou na Double Negative, produtora vencedora do Oscar de efeitos especiais, em 2011, por A Origem, de Christopher Nolan. Em Cingapura, era funcionário da LucasFilm, e participou da produção da série de TV Star Wars: The Clone Wars. Quando voltou, em 2013, ajudou a estruturar a 02 Pós e, ao lado de Barcellos, teve de usar o famoso jeitinho brasileiro. Um exemplo são os computadores usados para realizar os efeitos. Eles são montados pela própria 02, que compra as partes e peças na Santa Ifigênia, tradicional reduto popular de lojas de eletrônicos no centro de São Paulo. “Com isso, em vez de pagar R$ 100 mil por uma estação de trabalho, gasto R$ 30 mil”, diz Barcellos. Os caros softwares para manipular imagem seguem regra semelhante. A opção é por versões gratuitas ou baratas. Exemplos são o DaVinci e o Fusion, da Blackmagic, cujas licenças não passam de US$ 300 anuais.

A 02 beneficia-se também do aumento de produções locais, impulsionado pela lei que regula a tevê por assinatura no Brasil e garante a presença de audiovisual brasileiro na maioria dos canais fechados. “Estamos vivendo um momento especial”, diz Hugo Gurgel, sócio da Quanta Post, uma empresa de pós-produção, e coordenador do curso de efeitos da Escola Britânica de Artes Criativas. Outro fator é chegada da HBO e da Netflix, que passaram a produzir séries por aqui. A própria Quanta Post atuou na parte de efeitos especiais da série 3%, da Netflix, e de O Hipnotizador, da HBO. Apesar disso, o grande desafio do Brasil é trabalhar com verbas bem curtas. “Se comparar os orçamentos de produção brasileiros com os dos EUA, você ri”, brinca Gurgel. “No caso de pós-produção, dá vontade de chorar.”

Globalmente, o mercado de computação gráfica é bilionário. Uma pesquisa da consultoria americana Jon Peddie Research estima que ele será de US$ 235 bilhões em 2018. Não há dados sobre o Brasil, mas acredita-se que seja incipiente. Por esse motivo, o próximo passo da 02 Pós é começar a atuar fora do Brasil. Antes disso, ela terá de submeter a certificações internacionais para conseguir prestar serviços nos Estados Unidos e na Europa. Um dos objetivos é construir um bunker para evitar pirataria das imagens. Quando isso for concluído, provavelmente, no fim de 2018, a ideia é bater nas portas dos grandes estúdios de Hollywood. Para conseguir trabalho, Barcellos e di Segni contam com o melhor relações públicas do Brasil nessa área: o próprio Fernando Meirelles, um diretor respeitado e premiado lá fora.