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“A eleição não muda os fundamentos de longo prazo”

Tradicionalmente avesso a entrevistas, Marcio Appel abriu uma exceção e falou com a DINHEIRO. A seguir, os principais pontos da entrevista:

“A eleição não muda os fundamentos de longo prazo”

Seus fundos vêm apresentando um desempenho bastante acima da média do mercado. Qual a estratégia?
Nascemos como um fundo global, com expertise em mercados emergentes e temos posições em mercados desenvolvidos. Nossa filosofia é construir um portfólio equilibrado no longo prazo. Equilibramos posições compradas e vendidas em diversos mercados. O objetivo é não ter nenhuma posição que, isolada, seja responsável pelo resultado do fundo.

Onde a maior parte do capital está investida hoje?
Uma parcela do risco está alocada no País, mas a maior parte está fora do Brasil. E quando falamos risco, não obrigatoriamente significa estar comprado. Às vezes, estamos vendidos, apostando que determinada moeda vai melhorar ou piorar.

A exposição no mercado internacional protege contra o risco Brasil?
Só investimos em posições que acreditamos ser vencedoras e que ajudam a equilibrar as alocações.

Tem alguma posição comprada que o sr. destacaria?
Ganhamos muito dinheiro ficando comprados na bolsa americana, especialmente nos últimos 24 meses.

Ainda há espaço para alta nos bolsas americanas?
As ações não estão tão baratas quanto antes. Mas não achamos que os preços estejam esticados. Tínhamos posições em mercados futuros na bolsa americana. Hoje não temos mais. Temos posições compradas em algumas empresas e vendidas em outras.

Qual a sua projeção para o Ibovespa?
A bolsa brasileira tem se comportado bem, apresentou alta relevante em comparação com a volatilidade. Estamos comprados há algum tempo, e ela já deu uma subida razoável desde então, mas achamos que ainda há muito espaço
para ganhos.

Um das principais ativos dos seus fundos são ações do Facebook. Como o sr. lidou com a queda em março, devido ao escândalo do uso ilegal de informações pessoais de milhões de usuários?
Não temos nenhuma posição que individualmente faça muita diferença. Temos uma posição no Facebook, mas o resultado do mês passado foi muito mais uma volatilidade da posição como um todo, que oscilou de maneira muito mais errática. Mas, em abril, o desempenho tem sido melhor.

Muitos gestores tentaram adivinhar sua estratégia no último vencimento dos contratos futuros de Índice Bovespa. Sua posição comprada era estimada pelo mercado em R$ 3,5 bilhões. Se o sr. a desmontasse, isso poderia levar a perdas em cascata. Um gestor até chamou o sr. de “homem-bomba do mercado”. Seus concorrentes estão certos?
Não temos uma posição que seja tão grande em comparação com o tamanho do mercado, e muito menos tão relevante para o nosso portfólio. As pessoas não entendem direito.

A percepção dos seus pares está errada, então?
Talvez alguns estejam achando isso, mas eles não são meus pares.

O sr. não está sendo reticente em tratar de sua estratégia?
Não, a posição não é relevante mesmo. Saiu na imprensa que eu teria R$ 3,5 bilhões em bolsa. Eu não confirmo e nem desminto a posição de bolsa que disseram que eu tenho. Mas, vamos supor que alguém fez a conta certa. Como eu administro R$ 26 bilhões, isso é 12% do total. Suponha que a bolsa caia 10%, sobre 12% dos ativos. Meu fundo perderia pouco mais de 1%. Não é nada de mais. Vez ou outra essas quedas acontecem. Obviamente, para o gestor que administra R$ 500 milhões, R$ 3,5 bilhões pode parecer muito dinheiro.

As incertezas no curto prazo, por conta das eleições, podem impactar a economia e, por consequência, mudar a sua estratégia em relação ao Brasil?
Da maneira que olhamos, a eleição pode gerar ruído de curto prazo, mas não muda o fundamento de longo prazo.

Como o sr. avalia a economia do Brasil neste momento?
A economia segue se recuperando de maneira cíclica, mas esse processo está um pouco mais lento do que esperávamos. Com a inflação baixa, acredito que vamos ter espaço para um nível de juros ainda menor do que a média do mercado espera.

Qual é a sua projeção?
No longo prazo, devemos ter uma taxa de juros real, já descontada a inflação, em torno de 3% ao ano, talvez menos.

No seu trabalho, o sr. está cercado por executivos com quem já trabalhou. É importante ter pessoas conhecidas por perto?
Tive a felicidade de encontrar gente boa nesses últimos 20 anos de carreira e é sempre um prazer trabalhar com eles.

O sr. tem fama de ser incisivo e por defender de maneira rígida os seus pontos de vista. Algumas pessoas avaliam que o sr. é uma pessoa dura demais. Essa percepção está certa?
Eu só posso mensurar isso levando em conta que pessoas com quem já dividi o escritório voltaram a trabalhar comigo. Quando você toca o negócio, sempre acha que está tudo indo bem. Então, a melhor confirmação disso é quando as pessoas querem continuar trabalhando com você.

Seus ex-colegas destacam a rapidez do seu raciocínio. Esse é seu principal diferencial como gestor?
Nosso principal diferencial é nosso método de trabalho, a maneira de construir o portfólio, que vem evoluindo há 20 anos. Isso é mais do que as minhas ideias isoladamente.

O que o mudou nesses 20 anos em relação à sua forma de trabalhar?
Aprendi a equilibrar o portfólio e a antever o desconhecido. Eu aprendi que surpresas acontecem, que não é bom entrar em posições assimétricas. Teria sido muito menos doloroso aprender isso com os erros dos outros. Mas, na maioria das vezes, você aprende com os próprios erros. No nosso negócio, é preciso ter cicatriz. E um gestor com 20 anos de carreira já tem a pele bastante marcada.

Qual foi o seu maior erro?
Em 1995 e em 1996, cada crise gerava oportunidades de compra. Em 1997, na crise da Ásia, eu ainda era um garoto e operava a mesa de dívida externa no Bozano, Simonsen. Zeramos a posição antes da crise, mas voltamos a comprar cedo demais, achando que a coisa ia aliviar logo, o que não aconteceu. Foi uma experiência marcante.

E o maior acerto?
Em 2008, aproveitei bem a recuperação do mercado de ações global, em especial nas bolsas americanas. Foi o acerto mais singular, pois a maioria dos profissionais do mercado não compartilhava dessa ideia, inclusive os lá de fora.

O sr. prepara pessoas para continuar o seu legado?
Sem dúvida. Espero construir a Adam para a perpetuidade. Os sócios, eu entre eles, temos cerca 40 anos. Em duas décadas, vamos estar sessentões. Preciso ter garotos com experiência, por isso estou treinando seis aprendizes, três homens e três mulheres, em diversas áreas.