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A eleição das redes sociais e do WhatsApp

O discurso político migrou da televisão para a internet. Quem entendeu o recado, como Jair Bolsonaro (PSL), se deu melhor na disputa de 2018

A eleição das redes sociais e do WhatsApp

Com exceção de 1989, a primeira eleição direta para presidente depois do fim da ditadura militar, os dois candidatos com mais tempo de tevê ou com mais dinheiro garantiam sem dificuldades sua passagem para o segundo turno ou liquidavam a fatura sem a necessidade de uma votação adicional. Isso foi verdade nas vitórias de Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998), Luiz Inácio Lula da Silva (2002 e 2006) e Dilma Rousseff (2010 e 2014). Só Collor, há quase 30 anos, conseguiu se eleger sem ser o candidato que mais tempo passava à frente da televisão. Naquela época, de manhã e à noite, eram duas horas e 30 minutos de propaganda eleitoral gratuita. O deputado federal Ulisses Guimarães (1916-1992), candidato pelo PMDB, tinha 22 minutos, o maior tempo entre todos, e ficou em sétimo lugar, entre 22 candidatos, com 4% dos votos.

Na eleição de 2018, a propaganda eleitoral gratuita na tevê e no rádio e o dinheiro gasto nas campanhas não foram determinantes para alavancar os candidatos ao segundo turno. O ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, era quem mais tinha tempo na televisão: dois blocos diários de cinco minutos e 32 segundos. Ele foi também o que mais gastou, atingindo a cifra de R$ 54,4 milhões, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nada disso foi suficiente para conquistar o eleitor. O candidato do PSDB amargou o quarto lugar, com 4,27% dos votos, atrás de Jair Bolsonaro (PSL), Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT). Bolsonaro, que conquistou quase 50% dos votos, tinha minguados dois blocos diários de oito segundos. Sem marqueteiro, ele gastou R$ 1,2 milhão. Cada voto no número 17 custou R$ 0,02. No caso de Alckmin, o valor atingiu R$ 10,67, inferior apenas a Henrique Meirelles (MDB), que precisou desembolsar R$ 41,27 para cada voto “depositado” na urna eletrônica para sua candidatura.

O discurso político nesta eleição migrou da televisão para a internet. Se Bolsonaro era um nanico na tevê, no Facebook e Twitter ele era um gigante. Nesses espaços virtuais, o candidato do PSL conta com 7,2 milhões e 1,9 milhão de fãs e seguidores, respectivamente. Haddad, por exemplo, tem aproximadamente 800 mil nas duas redes sociais. Um análise sobre o desempenho dos dois candidatos nesses espaços mostra que ex-capitão do Exército tinha um legião de fãs que interagiam mais com seus conteúdos. Em um período de 30 dias, os posts de Bolsonaro no Facebook tiveram 31,5 milhões de interações (curtidas, comentários e compartilhamentos), quase o triplo do candidato do PT. Os vídeos publicados na página de Bolsonaro, que se intensificaram após a facada que quase o matou em Juiz de Fora, em setembro, tiveram uma audiência de 92 milhões de minutos, três vezes mais de que seu rival no segundo turno.

Outro fator decisivo, mas difícil ser mensurado, foi o WhatsApp. É consenso que o aplicativo de mensagens do Facebook, que tem 120 milhões de usuários no Brasil, foi influente nessas eleições. Tudo de positivo e negativo circulou por esse canal, em especial notícias falsas. A análise do conteúdo que circula em grupos públicos de WhatsApp, monitorado pelo projeto “Eleições sem Fake”, plataforma desenvolvida pelo departamento de Ciências da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais, contatou que grande parte desses conteúdos foi criada para apoiar o ex-capitão do Exército e rechaçar oponentes. No período eleitoral, o Folha Informações, serviço do jornal Folha de S. Paulo que checa conteúdo mandado por leitores, recebeu 1.339 mensagens pelo WhatsApp: 97% delas eram informações falsas ou distorcidas; 16% delas miravam Lula, Haddad ou outros representantes políticos do PT e todas eram negativas; Jair Bolsonaro foi alvo de 27% delas, sendo conteúdo positivo e negativo. O pleito deste ano mudou, de forma irreversível, a forma de fazer marketing político no Brasil.