A eleição americana vai entrar no radar

A eleição americana vai entrar no radar

Estamos a menos de 60 dias das eleições americanas e o mercado parece ainda não ter se interessado pelo assunto. Antes do surgimento da pandemia, esse era o maior fator de risco para a continuidade da valorização dos preços das ações americanas, na minha visão. Depois da pandemia, acho que esse risco é maior ainda. Estão em jogo não apenas o controle da Casa Branca, mas também da Câmara e do Senado. E é aí que mora o problema.

No cenário atual, a Casa Branca e o Senado são controlados pelo partido Republicano, de Trump. A Câmara, pelos Democratas de Biden. Esse relativo balanço de poder evita que qualquer dos dois partidos possa implementar, por completo, qualquer agenda unilateral sem o devido processo político.

Quando Trump assumiu o poder, em 2017, os republicanos conseguiram manter, ao mesmo tempo, o controle da Câmara e do Senado. Nesse momento Trump conseguiu aprovar um pacote gigantesco de corte de impostos, talvez sua maior realização até agora. Foi também nessa época que quase emplacou a sua promessa de campanha mais emblemática, a derrubada do Obamacare: só não conseguiu porque resolveu arrumar confusão com o falecido senador republicano John McCain, que na última hora votou contra o projeto. Nesse caso, o inimigo de Trump não foi o partido democrata, mas ele mesmo.

Nas eleições de 2018 para o Congresso, os republicanos perderam o controle da Câmara e, a partir daí, a possibilidade de emplacar qualquer agenda conservadora ficou muito mais difícil. Trump teve até que passar por um humilhante processo de impeachment que certamente lhe custou muitas noites de sono – vide a quantidade de mensagens no Twitter. Entretanto, no que é realmente importante, o processo político entregou resultados. O exemplo mais recente foi o pacote de auxílio pós-pandemia aprovado pelo Congresso e sancionado por Trump, o CARES Act. Na minha visão, Executivo e Legislativo sob controles distintos é positivo, e força os políticos a fazerem política de verdade.

Segundo as pesquisas, Biden segue na liderança pela Casa Branca (vale lembrar que nessa altura da disputa, em 2016, as pesquisas também indicavam que Hillary Clinton iria levar a melhor). Tudo até agora indica, também, que os democratas devem manter o controle da Câmara. O controle do Senado pelos republicanos, entretanto, parece estar em risco. Das 100 cadeiras do Senado, 35 estão em jogo no dia 3 de novembro: 12 democratas e 23 republicanas. Segundo o Cook Political Report, das 12 cadeiras democratas em jogo, dez são quase certezas de reeleição; apenas duas correm algum risco. Do lado republicano a situação é mais complicada: somente dez são quase certezas, e as outras 13 correm, em maior ou menor grau, algum tipo de risco.

Segundo o site politico.com, alguns Estados são completas incógnitas (o que o pessoal chama por aqui de toss-up, ou seja, é como uma moeda lançada para cima: 50% de chance de dar cara, 50% de chance de dar coroa). Montana, Iowa, Carolina do Norte e Maine, hoje nas mãos de republicanos, estão nesse grupo. Se a moeda cair para o lado dos democratas nesses quatro estados, o controle do Senado muda de mãos.

Acredito que as eleições para o Senado são relativamente mais importantes para os mercados do que a própria eleição para o Executivo. Biden já deixou claro que, se eleito, vai tentar reverter os cortes de impostos de Trump. O imposto de renda das empresas, portanto, sairia dos atuais 21% para algo em torno dos 28%. Além disso, ele já anunciou que pretende aumentar a cobrança de impostos sobre os rendimentos das empresas no exterior e sancionar uma alíquota mínima de 15%. Um Senado com controle democrata viabiliza esse cenário de imediato, e é o que Biden quer.

Essas medidas pegariam em cheio os setores de tecnologia e consumo discricionário, exatamente os que lideraram a recuperação do mercado acionário depois de março. Segundo Biden, “os dias da Amazon pagando zero de impostos federais estão contados”. Um estudo do Goldman Sachs indica que a eventual implementação do plano de Biden reduziria o lucro das empresas em aproximadamente U$20/ação em 2021, uma queda de 12%. Dinheiro que sai do bolso do acionista e vai para o bolso do governo.

Na verdade, Biden, Trump, ou quem vier depois deles vai necessariamente ter que enfrentar uma reforma fiscal. A realidade sempre chega, e os déficits, que já eram crescentes antes da pandemia, se ampliaram ainda mais. Alguém vai ter que pagar essa conta e, de fato, os mamutes de tecnologia são um alvo fácil. Além de, claro, como sempre, os bancos.

A implementação gradual, e não imediata, de um ajuste fiscal seria bem recebida pelo mercado. Esse cenário seria muito mais provável se o Senado continuasse sob o controle republicano numa eventual eleição de Biden à presidência. A Casa Branca democrata com o controle da Câmara e do Senado traz um risco que, nesse momento, não está no preço de nada. Do outro lado da moeda, Trump na Casa Branca com o controle democrata do Congresso acirrará ainda mais a guerra total entre o Executivo e o Legislativo, deixando o processo político travado no meio de uma pandemia. Longe de ser o cenário dos sonhos. A campanha presidencial desse ano promete muita emoção, e vai dar muita manchete. Mas o Senado é, na minha visão, o verdadeiro campo de combate em novembro. Olho nele.

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Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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