Entrevista

Antônio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda

A economia sob Bolsonaro é lastimável e medíocre

Claudio Gatti

A economia sob Bolsonaro é lastimável e medíocre

Para o economista de 93 anos, o maior erro de Paulo Guedes foi centralizar o poder de vários ministérios sob um único guarda-chuva. Em vez de aumentar sua autonomia, fez dele um Posto Ipiranga sem combustível.

Hugo Cilo
Edição 21/01/2022 - nº 1257

O mais longevo personagem em atividade na política e na economia brasileira, o economista Antônio Delfim Netto, 93 anos, observa um cenário inédito no País sob o governo de Jair Bolsonaro: o derretimento dos pilares macroeconômicos construídos desde o Plano Real. Ex-ministro da Fazenda (1967-1974), da Agricultura (1979) e do Planejamento (1979-1985), ele participou ativamente da transição do regime militar e dos principais planos econômicos — muitos deles fracassados — desde a redemocratização. Em entrevista à DINHEIRO, Delfim criticou o fiasco de Bolsonaro e Paulo Guedes na condução do Brasil. Ele aposta que um eventual novo governo Lula não cometerá os mesmos erros do passado.

DINHEIRO – Qual o seu diagnóstico para a economia sob a gestão Bolsonaro?
ANTÔNIO DELFIM NETTO – Defino como lastimável e medíocre. Na parte econômica, o grande problema é que o governo de Jair Bolsonaro é uma gangorra. No primeiro ano, cresceu 1%. No segundo ano, caiu mais de 4%. No terceiro ano subiu uns 4%. E, em 2022, teremos um crescimento muito próximo
a zero. Com Bolsonaro, temos quatro anos absolutamente perdidos.



Qual é o problema mais preocupante?
Difícil escolher um só. A inflação piorou dramaticamente. Ele pegou o País com uma inflação na casa de 4% e vai entregar com uma inflação na casa de 10%. A dívida pública federal já passa de R$ 5,5 trilhões e continua crescendo. Esse é um fardo imenso para o País carregar e será um grande obstáculo para o próximo governo.

Onde o atual governo mais tem errado?
O governo não tem um projeto bem armado. Bolsonaro não sabe onde ele está e para onde quer ir. As políticas têm sido aleatórias.

Algum nome apresentado como alternativa à presidência te agrada?
Até agora o debate presidencial tem sido muito pobre. Ninguém consegue apresentar um verdadeiro projeto para o Brasil. Está todo mundo focado em coisas pequenas, em interesses pessoais, distribuindo promessas e favores aqui e ali. Não há um projeto. Não vejo ninguém que mostre que estamos no ponto A e temos de chegar no ponto B, e para ir de um ponto a outro devemos fazer isso e aquilo.

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Seja qual for o próximo governo, há chances de salvar a economia no ano que vem?
Duvido muito que algum presidente consiga em 2023 restabelecer a ordem na economia e promover a recuperação dos estragos do atual governo. A pandemia vai continuar. Tivemos um choque de oferta muito violento, que desarticulou todo o sistema produtivo. O novo governo terá o desafio de reorganizar nosso sistema produtivo de forma que haja um desenvolvimento forte, acelerado e com relativa distribuição de renda.

Quais são os riscos para a economia num cenário de medidas populistas em 2022?
Tenho dificuldades de entender quando falam sobre medidas populistas ou populares desse governo. O Bolsonaro é um homem de partido. Suas medidas populistas são sempre destinadas a certos níveis de atividades. Atividade policial, atividade dos caminhoneiros, atividades dos militares. Não são medidas para benefício da maioria da população.


“Nada funciona na economia. Está tudo atrasado. O número de erros é brutal. Vai terminar o governo sem conseguir fazer uma reforma” (Crédito:Mateus Bonomi/AFP)

Isso não pode causar uma reviravolta na corrida presidencial?
O agrado do presidente a determinados grupos é insuficiente para mudar o quadro eleitoral. Não creio que o Bolsonaro tenha mais espaço para manobrar suas medidas em ano de eleição. Vai ser uma eleição muito complicada, muito disputada, mas não creio que ele tenha condições de impor uma política populista que, digamos, conseguisse conquistar o voto da maioria da população. Ele vai conseguir o voto daquela minoria que é dele mesmo. Ainda bem que os eleitores fiéis a ele são minoria.

As pesquisas de intenção de voto indicam que o ex-presidente Lula tem chances de se eleger em primeiro turno. Isso é bom para a economia?
Esse é um ponto muito interessante. O economista depende da política. Nem mesmo o melhor economista do mundo, que conheça todas as teorias econômicas, vai conseguir fazer uma boa gestão sem ter o poder para fazer o que pensa em fazer. Não dá nenhum resultado. Nesse ponto, o Lula tem instrumentos para melhorar a economia. Ele fez um bom governo. Então, se conseguir definir a disputa em primeiro turno, a crise política que contamina a economia deve ser resolvida.

Mas parte dos problemas econômicos de hoje foram criados nos anos do PT…
Sim, e foram piorados pelo Bolsonaro. Não podemos confundir o governo Lula com o governo Dilma. Lula fez bem para a economia. Eu só lamento que o quadro eleitoral não seja mais rico. Era preciso ter uma grande discussão em torno de um projeto de país. Seria importante que novos participantes se apresentassem como alternativa para governar o Brasil, que apresentassem caminhos alternativos de tal forma que a sociedade se informasse melhor e votasse melhor informada.

O Brasil corre o risco de ter mais uma década perdida, como foram os anos de 1980, causada pelos erros daqueles governos militares de que o senhor fez parte como ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento?
Não dá para comparar o Brasil daquela época com o Brasil de hoje. A forma como a economia funciona é totalmente diferente. O País estava passando por uma transição de regimes de governo, com a macroeconomia fragilizada e sem os instrumentos de regulação que existem atualmente.

O que difere a inflação de hoje com aquela hiperinflação de quase 40 anos atrás?
Os mecanismos são completamente diferentes. Não existe mais correção monetária. A inflação que se autoalimentava foi corrigida no Plano Real. Essa é uma conquista definitiva. Não há mais como voltar atrás.

Qual a responsabilidade do ministro Paulo Guedes nessa bagunça que virou a economia?
O Paulo é um bom economista. É um homem que conhece a economia brasileira com profundidade. Só que o Paulo, sob o comando centralizado de Bolsonaro, é um Posto Ipiranga sem combustível. Não tem poder realmente. Cometeu um grande erro ao juntar todos os ministérios num só e causou um imbróglio do tamanho do mundo. Nada funciona na economia. Está tudo atrasado. O número de erros é brutal. Vai terminar o governo sem conseguir fazer uma reforma. Tudo isso é culpa do excesso de centralização.

O maior erro foi centralizar o poder e perder a capacidade de articulação?
Esse foi o maior recibo. Ele perdeu o controle da economia quando acabou com a diversidade e com as múltiplas visões que se deve ter sobre o mesmo problema. Atraiu para ele todo o poder de decisão e, quando perdeu esse poder, entregou tudo nas mãos do presidente, que não sabe nada de economia.

O resultado…
Deu no que deu.

Um eventual governo Lula deve trazer de volta à cena nomes como Aloisio Mercadante e Guido Mantega, que não são bem vistos por grande parte do mercado pelos erros cometidos nas gestões anteriores. Quem é pior, Guedes, Mercadante ou Mantega?
Que homem nunca cometeu um erro no passado? Digo isso porque a volta dos mesmos nomes não é garantia de que os mesmos erros serão cometidos. Até agora, não sabemos o que está sendo conversado entre eles. Ninguém tem informação sobre um eventual novo governo Lula. Além disso, o Mantega é um bom profissional. O Mercadante também. Quando o futuro é passado, você descobre todos os erros que cometeu.

Essa afirmação é uma mea-culpa?
Não. Estou falando dos erros do PT.

Erros de Mantega e Mercadante?
Não temos razão para imaginar que se houvesse um novo governo, Mantega e Mercadante seriam os ministros. Acredito muito que o Lula vai fazer um governo de acomodação. Sem isso, o Brasil não vai mais para frente. O Lula é um ser pragmático. Se eleito, tenho certeza que ele vai tentar fazer um bom governo.

“Quando o futuro é passado, você descobre todos os erros que cometeu. O Lula é um ser pragmático. Se eleito, vai tentar fazer um bom governo” (Crédito:Alan Marques)

Tentar, todos tentam…
Tentam com planejamento, gestão, inteligência e articulação. Não é o caso do governo atual.

Qual é o maior obstáculo?
A resposta é simples. O Brasil é prisioneiro de uma alta burocracia que se instalou no poder e que se apropria de tudo. O Brasil pertence aos funcionários públicos. Ponto final.

As reformas prometidas e não executadas devem sair com a troca de governo?
Isso vai depender da capacidade de entendimento da sociedade na eleição do Congresso. Não adianta ter esperança, não adianta depositar toda a fé em um presidente, se o eleitor não perceber que precisa aprender a eleger o Congresso. Precisamos ter um parlamento com a disposição de fazer as reformas. Caso contrário, elas não vão sair.

A Human Rights Watch acusou Bolsonaro de ser uma ameaça à democracia brasileira. Ele realmente representa um risco?
O Human Richts deveria se afogar para não falar mais. Essa entidade fica o tempo todo falando. Não existe nenhum risco à democracia brasileira. As instituições são sólidas. As Forças Armadas obedecem a Constituição. Quando o Bolsonaro diz ‘meu Exército’, está jogando para os eleitores dele. O Exército não é dele coisa nenhuma. O Exército é do Brasil, é das Forças Armadas, assim como a Marinha e a Aeronáutica. Ele foi lá só um capitão.

Não há risco algum?
O Brasil possui uma democracia consolidada. E um Supremo que está cada vez mais fazendo seu papel, adquirindo prestígio e sendo sacralizado pelos militares nos quarteis. Não existe possibilidade de intervenção de nenhuma natureza.

O Bolsonaro e seus seguidores cultivam um saudosismo do período de governo militar, do qual o senhor fez parte. Como explicar isso?
É curioso esse saudosismo. O Bolsonaro foi punido pelo regime autoritário que ele mesmo exalta. Foi expulso do Exército [na verdade, ele foi reformado e inocentado pela Justiça Militar]. O comportamento dele é incompatível com a disciplina militar. Bolsonaro gosta de se vender como militar, mas não é, de fato, o que tenta se mostrar.



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