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A economia, segundo o Índice Bovespa

Principal indicador do mercado acionário brasileiro completa 50 anos. Conheça os melhores e os piores momentos dessa história

A economia, segundo o Índice Bovespa

Reza a lenda que, na última década do Século XIX, o empresário e jornalista americano Charles Dow, fundador do The Wall Street Journal, quebrou a perna e ficou impedido de frequentar seu lugar preferido: o pregão da Bolsa de Nova York. Isso o fez pensar em uma maneira de acompanhar o sobe e desce das ações olhando um único número. Com a ajuda de seu sócio, o estatístico Edward Jones, ele concebeu uma média de preços das ações das 30 maiores indústrias negociadas em Wall Street, que foi divulgada pela primeira vez em 26 de maio de 1896. Essa carteira teórica fechou, na quarta-feira 26, a 26.385 pontos, uma valorização de 6,7% no acumulado de 2018.

Pregão nos anos 1960: Ações da Vale, do Itaú e da Lojas Americanas permanecem no índice Bovespa

Nos últimos tempos, a relevância do Índice Industrial Dow Jones foi ofuscada pela dos índices S&P 500 e Nasdaq, que incluem ações de empresas de tecnologia e de serviços. Mesmo assim, 122 anos depois de sua fundação, o Dow Jones continua sendo uma das referências mais importantes do mercado. “Não há nada que se compare nos países emergentes, exceto o Índice Bovespa”, diz Juca Andrade, vice-presidente de produtos e clientes da B3, responsável pelo principal indicador do mercado brasileiro, que completou 50 anos neste mês. “O índice foi um reflexo dos movimentos da economia”, diz Andrade. “Refletiu os momentos de euforia e de preocupação.”

Ambos os estados de espírito foram abundantes. Em termos reais, deflacionando-se as cotações pelo índice IGP-DI, o pico foi registrado em maio de 2008, quando a euforia com a descoberta do pré-sal fez o Ibovespa superar 128 mil pontos (observe o gráfico ao final da reportagem). O pior momento foi no início de 1990, quando o confisco da poupança no Plano Collor levou o índice para 2.850 pontos. Na ponta do lápis, porém, investir no índice mostra que o mercado acionário é um bom negócio no longo prazo. Descontando-se a inflação dos últimos 50 anos, o rendimento médio do Índice Bovespa entre 1968 e 2018 foi de 6,93% ao ano. “A única comparação nesse período foi com ativos reais, como imóveis”, diz Andrade. Ele diz estar otimista com o futuro. O cenário econômico para o País, passada a volatilidade das eleições, é de juros estruturalmente mais baixos e uma maior participação dos investidores pessoas físicas.

Analisar as 27 ações de 25 empresas que compõem a primeira carteira teórica do índice é mergulhar na história empresarial do País e perceber que muitas coisas mudaram e outras, nem tanto. Uma das principais ações da primeira carteira teórica era Vale do Rio Doce, com 7,7%. Em 2018, Vale ON permanecia a mais importante, com 12,8% da carteira de 67 ações de 64 empresas. Uma mudança foi a categoria das ações. Em 1968, os papéis da mineradora eram preferenciais e ao portador, ou seja, não eram atribuídos a nenhum acionista. Agora, os papéis são nominativos e têm direito a voto. Outra ação relevante era do banco Itaú América ON, com 7%. Atualmente, Itaú Unibanco PN representa 10,4% do índice, com a diferença que as ações negociadas não dão direito a voto. Outra empresa que estava na criação do índice e nele permanece é a Lojas Americanas, embora sua participação, atualmente, seja de 0,83% da carteira, inferior aos 3,19% de 1968. Já companhias como Casa Anglo, controladora da extinta loja de departamentos Mappin, desapareceram há tempos, e a Ford Willys, subsidiária da montadora americana, frequentou os pregões por um breve período para nunca mais voltar.

Antonio ZoratTo Sanvicente, economista: “O índice Bovespa deveria refletir a economia real, mas setores importantes, como o das montadoras, não estão representados”

Esse é um exemplo da maior distorção do índice, avalia o economista Antonio Zoratto Sanvicente, um dos maiores especialistas sobre o assunto. “O índice Bovespa deveria refletir a economia real, mas setores importantes, como o das montadoras, não estão representados”, diz ele. Para Sanvicente, segmentos como o farmacêutico também estão pouco representados. “As ações listadas são de redes de farmácias”, diz ele. “Essas empresas são muito mais próximas do varejo do que da pesquisa farmacêutica.” O economista, professor da Fundação Getulio Vargas, avalia que a metodologia de composição da carteira tende a aumentar o peso das ações mais negociadas, em vez de privilegiar as empresas importantes. “O critério de entrada ou de saída de uma ação é a quantidade de negócios, ao passo que os índices de países desenvolvidos inserem as ações das empresas de maior valor de mercado, ainda que esses papéis não sejam os mais negociados do pregão.”

 

“O Ibovespa é o índice de ações mais importante do País”
Para Gilson Finkelsztain, presidente da B3, muitas empresas deverão acessar o mercado de capitais após o fim da recessão. Leia mais a seguir:

1) Qual a importância dos 50 anos do Índice Bovespa? Como esse índice, que é uma marca bem conhecida, se insere na estratégia de crescimento da B3?

O Ibovespa é o índice de ações mais importante do mercado de capitais de nosso país. Além disso, é o índice mais antigo da América Latina e está presente em mercados de diversos continentes, o que demonstra sua importância como indicador de desempenho da economia brasileira.

2) Como o sr. vê o futuro desse índice?

Com o Brasil saindo de uma longa recessão e retomando um ciclo de crescimento robusto, acredito que muitas empresas acessarão o mercado de capitais para financiar e viabilizar seus projetos de expansão. São muitas as empresas que vão expandir seus mercados e suas atividades, gerando milhares de empregos que ajudarão a alavancar a economia brasileira e, certamente, farão parte do Ibovespa no futuro.

3) Qual a estratégia da B3 para ampliar a participação do investidor pessoa física no mercado acionário? E nos mercados de derivativos e de renda fixa?

Cada vez mais as pessoas físicas estão buscando se educar para investir seus recursos de maneira eficiente, balanceando riscos, liquidez e retorno. Os produtos oferecidos pela B3 compreendem renda fixa, renda variável e mercados derivativos. Para nós, é uma satisfação poder oferecer a todos os investidores, sejam eles iniciantes ou profissionais, uma infraestrutura de classe mundial para operar no mercado de maneira ágil, com credibilidade e com segurança. Por meio de uma sólida parceria com bancos e corretoras, disponibilizamos produtos para todos os perfis de investidores e acreditamos que esse é o caminho para agregar novos investidores e aumentar os recursos disponíveis, que irão potencializar o crescimento do Brasil.

4) Como a B3 está se preparando para isso?

Nos últimos anos, investimos muito em infraestrutura de sistemas e riscos, necessária para suportar o crescimento e a sofisticação dos mercados financeiro e de capitais. Como exemplos destas entregas, temos um novo sistema de negociação, lançado em 2012, um novo data center, entregue em 2014, e a integração das clearings de ações e de derivativos, concluída em 2017. A B3 possui plataformas modernas, com capacidade de sobra para atender à demanda do mercado, que infelizmente cresceu muito menos do que a dos países desenvolvidos.

5) Quais as perspectivas para o mercado?

Com estabilidade fiscal, inflação sob controle, juros baixos e crescimento global forte, teremos uma oportunidade única para expandir os volumes e produtos do mercado brasileiro. Assim sendo, estamos focados em trabalhar junto com nossos clientes e reguladores no desenvolvimento de novos produtos e no aprimoramento dos já existentes.