Economia

A economia em compasso de espera

Nas pesquisas eleitorais, Bolsonaro (PSL) e Haddad (PT) avançam como favoritos ao segundo turno. Enquanto isso, empresários e consumidores colocam o pé no freio

O presidente de uma multinacional europeia de bens de capitais com faturamento bilionário no Brasil está apreensivo com as eleições presidenciais. Em conversa com a DINHEIRO, ele pediu para não se identificar porque a matriz considera o tema sensível. O processo de planejamento da subsidiária para 2019 está atrasado e não será concluído antes da definição do nome que subirá a rampa do Palácio do Planalto em janeiro. O temor é de que a vitória de um perfil radical o force a rever os planos de investimento da operação local. “Estamos bastante preocupados”, afirma o executivo. A aflição expressa os cenários eleitorais mais recentes. As pesquisas indicam que o segundo turno será disputado por Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), candidatos sobre os quais pesam dúvidas quanto à real capacidade de realizar as reformas que o País precisa para afastar o problema das contas públicas e crescer com mais força.

A economia está em compasso de espera. A consolidação de uma disputa entre extremos ideológicos na política pesa sobre a decisão de consumidores e empresários. A confiança vem se deteriorando e travando a realização de negócios. “Em termos de fundamentos, há espaço para crescer, mas com a incerteza política, a coisa não está andando”, afirma Helena Veronese, economista-chefe da gestora Azimut Brasil. “O cenário político está paralisando a atividade.” Uma onda de revisões nas projeções de crescimento vem se aprofundando. A intensificação do temor eleitoral é a pá de cal da frustração com 2018. Dados do Boletim Focus, que reúne previsões de cem instituições financeiras, apontam para uma previsão de crescimento de 1,36% do PIB, menos da metade dos 3% esperados em janeiro. No mercado, há ainda uma tendência de baixa e a percepção de que o número ficará mais próximo de 1%, como em 2017, quando o País saía de sua maior crise.

O deputado Bolsonaro vem se consolidando na liderança desde o atentado que o tirou do dia a dia da campanha. Na pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira 20, ele aparece com 28% das intenções de voto, dois pontos acima da última medição (confira quadro na pág. 31). Ele é seguido por Fernando Haddad (PT), que mostrou uma evolução surpreendente após a oficialização de seu nome como o substituto de Lula. O petista tem hoje 16% das intenções de votos. Ambos aparecem empatados no segundo turno. Geraldo Alckmin (PSDB), o preferido do mercado, segue estacionado, com 9% das intenções de voto. Os números confirmam a tendência da pesquisa do Ibope de terça-feira 18. Entre os dois primeiros candidatos, os investidores pendem para o ex-capitão do Exército, que tem por trás o guru econômico Paulo Guedes, responsável por bolar um plano liberal à candidatura. O assessor revelou na última semana a proposta de recriar um tributo sobre transações financeiras nos moldes da CPMF, em conjunto com uma taxa para os dividendos e a redução da alíquota do Imposto de Renda das empresas. Diante da polêmica, o candidato usou as redes sociais para afirmar que não pretende aumentar a carga tributária e aconselhou o assessor a diminuir a exposição.

O programa de Guedes é bem visto pelo mercado. O receio é como se dará a relação com o presidente, se eleito, uma vez que Bolsonaro tem um histórico intervencionista e a favor do Estado em vários temas. A revista The Economist, de posições liberais, estampou o deputado na capa, como uma ameaça à democracia. Na outra ponta, Haddad (PT) é avaliado com grande ressalva entre empresários e investidores. Ele representa o risco de resgate de políticas que se mostraram ineficientes e levaram o País para a sua maior crise, como a redução forçada dos juros e a ampliação desmesurada do crédito. O PT também se posicionou contra a reforma da Previdência, considerada o principal passo para resolver o déficit público. De olho no segundo turno, Haddad começa a moderar o tom do discurso. “Ninguém é a favor de uma trajetória explosiva da dívida”, disse em sabatina na Folha de S. Paulo, na segunda-feira 17. “Nós vamos perseguir uma trajetória de sustentabilidade fiscal, mas temos que observar uma dimensão política e uma dimensão social.”



Representantes da Mercedes-Benz do Brasil admitiram cautela diante das incertezas eleitorais (Crédito:Divulgação)

As reformas são consideradas essenciais pelo mercado para reverter o déficit federal e estancar o crescimento da dívida pública. Sem elas, o País pode sofrer com a desconfiança e inflação elevada e amargar o risco de uma nova recessão. O temor de um quadro como esse é o que reforça a incerteza num cenário de liderança dos extremos. “Se não houvesse o problema fiscal, as eleições não seriam tão relevantes”, afirma o economista-chefe do banco ABC, Luis Otávio Leal. “Se não tivesse as eleições, certamente não haveria o impacto no PIB deste ano, que, hoje, está mais para 1% do que para 1,5%.” A incerteza eleitoral se soma a onda de volatilidade mundial e eleva o risco-país. O dólar rompeu a barreira dos R$ 4,10. Na quarta-feira 19, o Ibovespa, principal índice de ação brasileiro, fechou em queda de 0,2%, na contramão das Bolsas mundiais, na esteira dos dados do Ibope.

O contágio extrapola os índices financeiros e afeta a economia real. As vendas do varejo em julho mostraram o consumidor com o pé no freio. Em vez da alta esperada pelos analistas, o volume registrou o primeiro recuo na comparação anual depois de 15 de meses de alta. “Nenhum setor conseguiu voltar ao nível pré-greve dos caminhoneiros”, afirma Veronese, da Azimut. A paralisação já havia ferido a confiança e provocado a primeira onda de revisões no PIB. Com o avanço das incertezas eleitorais, não deu tempo de se consolidar um movimento firme de recuperação. Nesse clima de desconfiança, os empresários também se retraem. O indicador de intenção de investimentos da indústria, da FGV, caiu ao menor nível desde o terceiro trimestre do ano passado. O percentual das companhias que indicam que investirão menos subiu de 12,8% para 15,3%.

O volume de capital represado nos fundos de private equity, que compram participações em empresas, mostra que a ofensiva maior ainda está por vir. O total de dinheiro levantado de janeiro a julho soma R$ 36 bilhões, 17% acima dos recursos reunidos pelo setor ao longo de todo 2017. Enquanto isso, o número de transações caiu e, em agosto, ficou quase um terço abaixo do mesmo mês do ano passado, segundo dados da Transactional Track Record (TTR). “Esses [fundos] que estão na fase de estruturação, de levantamento de recursos, talvez esperem um pouco a decisão a respeito do cenário político para viabilizar os investimentos”, afirma Elysangela Rabelo, sócia de fusões e aquisições do TozziniFreire Advogados. Ela destaca, porém, que o mercado segue aquecido para transações com bons ativos, em setores como o de saúde e de educação. “Existem muitas oportunidades no Brasil.”

Os riscos não são menores para quem opera no País há décadas. A Mercedes-Benz admitiu que a eleição justificou uma cautela na decisão de abrir um novo turno na fábrica de caminhões em Minas Gerais. Trata-se um movimento que se repete pelo Brasil e se expressa numa queda mais lenta no desemprego, hoje em 12,3%. A letargia na criação de vagas tem impacto no nível de consumo, responsável por 60% do PIB. “Muitos agentes parecem estar em ‘compasso de espera’, tendo em vista a maior percepção de risco”, afirmaram os analistas Lucas Augusto e Rodolfo Morgato, do Santander, em relatório do início do mês, que embasou a revisão da expectativa de crescimento de 2% para 1,5% em 2018. Estão todos de olho nas urnas.

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