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A economia da solidariedade

Em meio à retração provocada pela pandemia de Covid-19, surge uma corrente do bem liderada por empresas conscientes de sua responsabilidade social. Ela envolve desde doações até a criação de fundos emergenciais para socorrer setores afetados pela paralisia nos negócios. Superar a maior crise global desde a Segunda Guerra exige empatia — e isso pode originar um novo capitalismo, mais consciente.

Crédito: Divulgação

Os casos começaram a ser divulgados pelas redes sociais, em grupos de amigos no WhatsApp. Aos poucos, ganharam escala na mídia de todo o planeta. Eram as notícias que todos queriam receber, contrastando com os informes já corriqueiros de colapso nas bolsas, ameaça de recessão global, risco de desemprego em massa e a avalanche de cartas de entidades setoriais alarmadas com o futuro do negócio que representam. Com as pessoas em casa, o que passou a circular não eram apenas novas estatísticas de mortes (infelizmente, elas também continuam avançando em todo o planeta) ou críticas às decisões atabalhoadas das autoridades despreparadas. Não. Agora o contágio se dava de outra forma. E era pelo bem comum.

Depois de anunciar procedimentos para frear a propagação do coronavírus entre colaboradores e de notificar a interrupção ou manutenção de suas atividades, empresas de todos os tamanhos começaram a divulgar sua pauta de generosidade. Fosse em dinheiro ou em produtos essenciais para lidar com a pandemia, a lista de doações chegou a centenas. O álcool gel, cujo preço havia disparado de forma exponencial antes de sumir das prateleiras, entrou no radar de grupos como Ambev e O Boticário. Fábricas foram adaptadas para produzir o desinfetante que seria então doado aos serviços de saúde. A cervejaria não informou o valor investido para produzir 500 mil garrafas PET de álcool que começaram a ser entregues às Secretarias de Saúde de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, onde há maior concentração de casos. O rumor de que frascos chegariam gratuitamente para a população em geral ganhou força antes de ser confirmado como fake news. A irresponsabilidade de alguns disseminadores de boatos não maculou as boas ações de parte do empresariado. “Nossa essência é ser agente de transformação em tudo o que fazemos. Se salvarmos uma vida, salvamos a humanidade”, afirmou o fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Boticário, Miguel Krigsner, ao anunciar a doação de 1,7 tonelada de álcool gel para a secretaria municipal de Saúde de Curitiba.

Na quarta-feira 25, os três maiores bancos privados do Brasil (Bradesco, Itaú e Santander) anunciaram uma inédita união de esforços para importar 5 milhões de testes rápidos de detecção da Covid-19, além de equipamentos, como tomógrafos e respiradores.“Este é um momento difícil e desafiador, de escolhas complexas”, disse Octavio de Lazari, presidente do Bradesco. “Juntos somos mais fortes do que qualquer crise, seja a da pandemia ou a dos efeitos econômicos dela resultantes”, afirmou. Para Candido Bracher, presidente do Itaú, a gravidade da crise demanda que não apenas o governo, mas também a sociedade civil atue de forma rápida e efetiva. “Proteger e apoiar as pessoas, principalmente as mais vulneráveis, é a prioridade de todos nós neste momento tão delicado”.

“Juntos somos mais fortes do que qualquer crise, seja a da pandemia ou a dos efeitos econômicos dela” Octavio de Lazari, Presidente do Bradesco. (Crédito:Glaudio Gatti)

A importância de somar esforços também foi destacada por Sergio Rial, presidente do Santander: “Um apoio em larga escala ao trabalho de nossos profissionais de saúde e aos pacientes vai muito além de tudo o que podemos fazer individualmente, e se soma às iniciativas setoriais que visam a manter o fôlego financeiro de negócios e pessoas durante este período mais crítico de combate à pandemia”.

O mesmo espírito de união empresarial foi decisivo para que a prefeitura de São Paulo pudesse viabilizar em tempo recorde o Centro de Tratamento Covid-19, com um total previsto de 100 leitos (40 deles na primeira quinzena de abril), no Hospital M’Boi Mirim, que funciona sob gestão do Hospital Israelita Albert Einstein. A obra conta com investimentos dos grupos Ambev e Gerdau, e o atendimento será exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde. “É importante que cada um faça a sua parte e nós da Gerdau seguimos firmes cumprindo nosso compromisso com o Brasil. Decidimos participar dessa brilhante iniciativa, pois o momento pede colaboração”, afirmou Gustavo Werneck, CEO da Gerdau.

A família Menin, controladora da construtora MRV, do banco Inter e da Log CP, destinou R$ 10 milhões para que o governo de Minas Gerais pudesse adquirir novos respiradores artificiais. Em São Paulo, a distribuidora de energia EDP, de origem portuguesa, disponibilizou R$ 6 milhões para a organização social Comunitas, encarregada de adquirir respiradores para UTIs de hospitais públicos do estado. Junto com a EDP, um total de 150 empresas levantou em poucos dias R$ 23,4 milhões para a compra de 345 aparelhos essenciais para reduzir os gargalos do atendimento na rede pública da saúde.

A Marfrig Global Foods confirmou o repasse de R$ 7,5 milhões para que o Ministério da Saúde pudesse comprar 100 mil kits de teste do coronavírus. “Este é um momento de união e de solidariedade”, afirmou o empresário Marcos Molina, fundador e presidente do Conselho de Administração da Marfrig, líder mundial na produção de hambúrgueres, ao confirmar sua doação ao Ministério da Saúde, na segunda-feira 23. A decisão foi tomada na véspera, quando o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou que o governo buscava parcerias com a iniciativa privada para financiar parte da compra dos kits. “Esperamos que nossa iniciativa seja seguida por outras companhias brasileiras”, disse Molina.

A Natura, que também controla a Avon, doou 2,8 milhões de sabonetes para comunidades carentes nas cidades do entorno de suas operações em São Paulo, Pará e Bahia, além de outros países da América Latina. A doação inicial da fabricante de detergentes Ypê foi de 21 toneladas de sabão em barra para moradores da favela de Paraisópolis, em São Paulo. Segundo a empresa, outras 25 toneladas seguiriam para o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A rede de fast-food Subway entregou milhares de sanduíches gratuitamente para profissionais de saúde. Na Europa, grandes confecções adaptaram linhas de corte e costura para produzir máscaras e uniformes destinados a médicos e enfermeiros. A espanhola Zara prometeu 300 mil máscaras de proteção. A italiana Prada, 110 mil. Repartir o bolo em um momento como esse é o que se espera de companhias que faturam bilhões ­— e entendem qual é sua responsabilidade social. Em meio a tantas notícias desoladoras, palavras como solidariedade e cooperação passaram a dar o tom de muitas lideranças empresariais.

HOSPITAL EM TEMPO RECORDE: Prefeitura, Ambev, Gerdau e Einstein se uniram para viabilizar o Centro de Tratamento Covid-19, em São Paulo, que terá 100 leitos até o final de abril. (Crédito:Divulgação)

“A gravidade do momento que vivemos exige da iniciativa privada uma postura de cooperação com os esforços governamentais e sociais no combate ao novo coronavírus”, afirmou Miguel Setas, presidente da EDP no Brasil. A empresa já havia doado 50 respiradores e 200 monitores a hospitais portugueses em conjunto com a China Three Gorges, maior geradora de energia hidrelétrica do mundo.

Nem só os grandes decidiram agir. “Acreditamos que o senso de coletivo é fundamental e, por isso, vamos converter nossa estrutura para fornecer materiais aos hospitais, a fim de minimizarmos os impactos na saúde”, afirmou Julio Samorano, diretor e sócio da paranaense Century Estofados ao anunciar que iria interromper sua produção habitual para confeccionar toucas, aventais e lençóis voltados para abastecer gratuitamente os hospitais públicos e universitários da região de Maringá (PR).

Cada uma das ações descritas até aqui merece aplausos, mas elas não bastam. Apenas aliviam as primeiras dores da pandemia. Ainda que as emergências médicas estejam longe de uma trégua, a catástrofe do coronavírus não está restrita ao âmbito hospitalar. Enquanto o vírus se alastra, a única proteção eficaz para detê-lo é a quarentena. Com ela, espalha-se outra chaga: a estagnação econômica. Com um terço da população global confinada, o que todos passaram a necessitar é algo que vai além dos primeiros socorros. Uma calamidade que afeta o mundo de tantas formas só pode ser superada com a criação de projetos de futuro. Isso vale para pessoas, empresas e setores inteiros da economia que foram gravemente feridos e cujas cicatrizes permanecerão abertas por muito tempo. Sobreviver nessas circunstâncias depende de valores que não sejam apenas econômicos. Exige valores humanos.

“Este é um momento de união e de solidariedade. Esperamos que nossa iniciativa seja seguida por outras companhias brasileiras” Marcos molina, presidente da Marfrig. (Crédito:Divulgação)

FOCO NA COMUNIDADE Quem costuma tomar a dianteira nesses momentos é o terceiro setor — que depende do apoio de empresas para fazer a roda das boas ações girar. Liderado por Edu Lyra, o Instituto Gerando Falcões, ONG voltada para a capacitação de jovens, montou um fundo de R$ 5 milhões para levar cestas básicas a cerca de 60 mil moradores de 52 favelas e comunidades pobres da periferia paulistana e em outras cidades, de São José do Rio Preto (SP) a Maceió. Entre os doadores estão os empresários Jorge Paulo Lemann, Abilio Diniz, David Feffer e Pedro Bueno. “Vamos superar este momento e cuidar das famílias de extrema baixa renda”, afirmou Lyra.

Em horas assim, dar o peixe acaba sendo mais prático e eficaz do que ensinar a pescar. No longo prazo, o apoio a iniciativas que envolvam a sustentabilidade de pequenos negócios em regiões periféricas é bem mais estratégico. E foi exatamente esse o investimento feito pela Fundação Casas Bahia, gerida pela Via Varejo. “Temos como foco atuar sempre com as comunidades e mulheres empreendedoras. Mais ainda num momento como esse pelo qual estamos passando”, disse Hélio Muniz, responsável pela fundação, ao anunciar que microempreendedoras de áreas menos favorecidas da Grande São Paulo e na Grande Rio de Janeiro poderão contar com um Fundo de Doação de R$ 1 milhão criado pela entidade. A expectativa é beneficiar até 1,2 mil empresárias, que serão selecionadas por uma consultoria especializada. “É o momento de somarmos esforços junto às autoridades, associações e grandes empresas para apoiar as pessoas menos favorecidas, que tendem a ser economicamente impactadas pela crise atual”, afirmou.

“Queremos garantir que o maior número de empresas se mantenha saudável durante esse período” Augusto Lins, presidente da Stone. (Crédito:Tiago Queiroz)

A quarentena tem sido letal para o setor de alimentação fora de casa. Com o fechamento temporário de bares, restaurantes e lanchonetes, especialmente os que operam dentro de shopping centers, veio a ameaça de uma quebradeira sem precedentes em toda a cadeia de refeições. Na tentativa de evitar o pior cenário, a empresa de delivery iFood está colocando na rua uma série de medidas cujo impacto pode preservar milhares de empregos. Em parceria com o Itaú, por meio da processadora de cartões Rede, a empresa vai antecipar os pagamentos aos restaurantes. Também irá lançar um fundo de assistência de R$ 50 milhões aos parceiros e de R$ 1 milhão aos entregadores. O primeiro vai oferecer desconto médio de 20% na comissão paga pelos restaurantes à empresa. “A medida deve dar um respiro a cerca de 130 mil estabelecimentos em 1 mil cidades pelo País”, diz Diego Barreto, vice-presidente de Estratégia do iFood. Segundo ele, as medidas passam a valer a partir do dia 2 de abril e beneficiarão os 150 mil cadastrados na plataforma. “Se houver a ruptura da cadeia, as pessoas vão sair às ruas e estocar comida. Precisamos de medidas efetivas”, afirma. Ao acelerar o repasse dos valores das compras feitas pelo app, a empresa garantirá que os restaurantes beneficiados tenham o dinheiro em caixa sete dias após a venda — e não mais em 30 dias. Com isso, o iFood calcula que serão injetados na economia R$ 1,2 bilhão já no próximo bimestre. O valor arrecadado em taxas do serviço Pra Retirar (quando o cliente faz o pedido via aplicativo e busca diretamente no restaurante) será repassado integralmente aos parceiros. O fundo de R$ 1 milhão, voltado para os 83 mil entregadores que prestam serviço ao iFood pelo Brasil, é uma medida para assegurar renda ao colaborador caso este se afaste das atividades pela Covid-19 ou por suspeita de contágio.

Garantir recursos para que a roda da economia continue girando, principalmente para os pequenos empreendedores, é uma das preocupações da fintech de serviços financeiros Stone, que opera uma rede própria de meios de pagamento eletrônicos. Para dar fôlego a quem usa suas maquininhas e depende do giro diário de vendas para sobreviver, a empresa lançou a campanha Compre Local, Cuide de um Pequeno Negócio. A Stone vai disponibilizar R$ 100 milhões em microcrédito aos associados do setor de varejo nos Estados onde forem determinadas medidas de contenção à pandemia do coronavírus. O incentivo é válido até maio e deve beneficiar parte dos seus 495 mil clientes no País.

Capital de giro “Serão atendidos os donos dos negócios nos segmentos que mais sofreram suspensão das suas atividades por determinação do governo, como alimentação, educação, turismo e lazer”, diz o presidente da Stone, Augusto Lins. Outros R$ 30 milhões serão destinado a ações que visem estimular o comércio. Estão incluídas isenção de mensalidade para todas as máquinas, além de aparelhos adicionais sem custo para operação delivery, redução de taxas de antecipação para impulsionar o capital de giro e ferramentas para vendas on-line. “Sabemos que muitos negócios vão quebrar e que haverá demissões, como estamos acompanhando em algumas regiões do País. Por isso vamos agir rapidamente. Queremos garantir que o maior número de empresas se mantenha saudável e forte durante todo esse período”, afirma Lins.

“Se houver a ruptura da cadeia, as pessoas vão sair às ruas e estocar comida. A medida deve dar um respiro a cerca de 130 mil estabelecimentos em 1 mil cidades pelo País” Diego Barreto, vice-presidente de Estratégia do iFood. (Crédito:Divulgação)

Ainda que os estragos da Covid-19 sobre a atividade sejam de difícil mensuração, há algumas certezas em meio ao caos. A primeira é que muitos dos combalidos hospitais brasileiros serão reequipados com doações do setor empresarial. Foi assim no passado, quando entidades beneficentes criaram instituições de saúde para atender a comunidades étnicas. Outra certeza é a de que o medo da doença reforçou a empatia. “Tentem se colocar na posição das pessoas que mais precisam”, disse o fundador da XP Inc., Guilherme Benchimol, durante uma live no Instagram para divulgar a iniciativa Juntos Transformamos (leia mais abaixo). “É hora de compaixão, de solidariedade”.

O diretor-geral da Trevisan Escola de Negócios, Fernando Trevisan, acredita que uma crise tão profunda como a do coronavírus pode ser um divisor de águas em diversas esferas, inclusive na atuação social das empresas. Para ele, o maior ato de responsabilidade social que uma organização privada pode ter neste momento é lutar para continuar existindo. “Passada essa pandemia, é possível que o conceito de responsabilidade social corporativa ganhe força e clareza de que, antes de qualquer coisa, só o fato de uma empresa existir e se sustentar economicamente já significa uma contribuição social altamente relevante para o desenvolvimento do País”, afirma Trevisan. A percepção de que as empresas são a chave para o futuro traz embutida a ideia de que o setor privado pode reorganizar as relações sociais no Brasil e no mundo – o que pode transformar até as bases do capitalismo, criando um sistema pautado não apenas na busca do lucro, mas da igualdade e da justiça social.

“É o momento de todo mundo se ajudar”

Às 11h da quinta-feira 26, o fundador da XP Inc., Guilherme Benchimol, usou a rede social Instagram para anunciar, ao vivo, o lançamento da iniciativa Juntos Transformamos. “Como vocês sabem, o Brasil é um país pobre. Apenas 30% dos brasileiros fizeram poupança em 2019. Temos 40 milhões de autônomos. Quando a economia colapsa, eles não conseguem levar comida para casa. A gente tem a obrigação de mobilizar outros empresários a ajudar quem mais precisa a atravessar esse vale, que deve durar de dois a três meses”, afirmou. “Se não ajudarmos essas pessoas, elas vão morrer de fome”. A iniciativa parte de uma doação de R$ 25 milhões, que deve atingir 100 mil pessoas de comunidades carentes por três meses. Para que o dinheiro chegue a famílias em situação de vulnerabilidade, foram firmadas parcerias com as ONGs Gerando Falcões, Amigos do Bem e Visão Mundial.Segundo o comunicado da XP, o aporte inicial tem como objetivo engajar novos doadores, para que um número ainda maior de famílias seja impactado. “Cada centavo do que arrecadarmos será convertido em assistência para colocar comida na mesa de famílias em situação de vulnerabilidade. Nenhuma família pode ficar sem ter o que comer em casa. Faço um apelo para todos que querem ajudar e não sabem como fazer isso de forma segura e transparente: junte-se a nós”, afirmou Benchimol.

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