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A Easy vai na contramão

Ao contrário de seus principais concorrentes do mercado, a empresa se mantém fiel aos táxis e atrai investidores para um negócio que já pode estar em extinção

Crédito: Thiago Bernardes / FramePhoto

Bruno Mantecón, CEO: “O usuário de táxi é fiel ao modelo e está disposto a pagar um pouquinho mais por isso” (Crédito: Thiago Bernardes / FramePhoto)

O programador Thiago Santos, 30 anos, ainda adota uma prática que se transformou em motivo de piada em seu círculo de amigos. “Eles tiram sarro porque eu ainda uso o táxi em vez de ir de Uber”, diz. Thiago é a prova de que se esse mercado não é mais soberano, ainda segue vivo e pode ser explorado por empresas que entendam a necessidade de seus consumidores. É o caso da Easy. Fundada em 2011 sob o nome de Easy Taxi, que em 2015 foi abreviado para Easy para facilitar a divulgação global da marca, a empresa do aplicativo de táxis tenta sobreviver em uma indústria que, cada vez mais, parece fadada à extinção pela chegada da Uber e de outros serviços de transporte privados. “Existe espaço para todo mundo”, diz Bruno Mantecón, CEO da Easy. “O táxi ainda está crescendo.”

Com operações em 400 cidades de nove países da América Latina, 500 mil motoristas cadastrados, a Easy é a principal empresa de táxi por celular do continente. Depois de receber mais de US$ 77 milhões em aportes de empresas ligadas ao fundo alemão Rocket Internet, a companhia engatou uma mudança de rumo importante no ano passado. Em janeiro de 2017, a holding espanhola Maxi Mobility, que controla a operação do aplicativo de transporte Cabify, incorporou a startup brasileira. O valor do negócio não foi divulgado. Debaixo do guarda-chuva espanhol, a empresa passou a atender 90 cidades no País e já conta com 3,5 milhões de usuários cadastrados. São 140 mil motoristas em atividade. São números tímidos perto da operação da Uber em solo brasileiro. A companhia americana já transportou mais de 20 milhões de passageiros desde 2014 e conta com 500 mil motoristas no País.

Para a Easy, os números superlativos da empresa americana não incomodam. No primeiro semestre deste ano, o número de corridas realizadas no Brasil pelo aplicativo brasileiro cresceu 40%. A quantidade exata de viagens, porém, foi mantida em sigilo. “O usuário do táxi é fiel ao modelo, preza por mais segurança e velocidade e está disposto a pagar um pouquinho a mais por isso”, diz Mantecón. “É um perfil diferente do passageiro do aplicativo de transporte privado.” O executivo não entrou em detalhes, mas espera aumentar a sua base de usuários com passageiros de outros aplicativos de transporte que buscam por mais conforto e velocidade nos trajetos. Não será uma missão simples. Em abril deste ano, uma pesquisa do Departamento de Estudos Econômicos do Cade apontou que, desde que chegou ao País, a Uber causou uma redução de 56,8% nas corridas realizadas por aplicativos de táxi. “É um caminho sem volta”, diz Luiz Vicente Figueira, professor de engenharia de tráfego da Universidade Prebisteriana Mackenzie. “Poderemos ver a extinção do termo táxi.”

Inimigo íntimo: para a Easy, o principal rival da empresa são os táxis parados em pontos nas ruas (à esq.), e não aplicativos de transporte, como a Uber (à dir.)

A aposta da Easy parece ainda mais surpreendente se comparada à posição adotada por sua principal rival no País, a 99. A empresa fundada em 2012 por Paulo Veras, Renato Freitas e Ariel Lambretch entendeu que era preciso mudar o seu negócio se quisesse continuar relevante. Em 2016, a modalidade chamada 99POP, com motoristas particulares e carros comuns, foi integrada ao serviço. A estratégia deu certo. Em janeiro desse ano, a companhia foi adquirida pela chinesa Didi Chuxing, a principal rival da Uber no mundo. O valor da transação não foi revelado, mas o acordo fez com que a 99 se tornasse o primeiro unicórnio brasileiro, termo designado às empresas com valor de mercado igual ou superior a US$ 1 bilhão.

Essa é uma estratégia que passa longe dos planos da Easy. Mesmo porque, a companhia já tentou lançar um serviço semelhante em 2016, chamado de EasyGO. “Muitos passageiros exigem, além da praticidade e da qualidade no serviço, extremas soluções de redução de custo”, disse Fernando Matias, ex-CEO da companhia, em vídeo publicado a época. “É uma decisão importante que tem o objetivo de recuperar os passageiros que perdemos para esses novos concorrentes.” Não deu certo. Sem a adoção esperada, o serviço frustrou a companhia e foi descontinuado no ano seguinte.

Para crescer, o plano da Easy é convencer mais taxistas a utilizarem o aplicativo. Segundo a empresa, os motoristas que usam o programa ganham até quatro vezes mais do que os taxistas “independentes”, além de reduzirem gastos com combustível por não precisarem rodar com os veículos vazios. “Não existe mais a necessidade da existência de pontos de táxi”, afirma Figueira. O único custo neste caso é com a taxa de 15% cobrada pela Easy sobre o valor de cada corrida realizada. Para efeito de comparação, a Uber cobra taxas variáveis, que levam em conta o tempo de trajeto e a distância percorrida. Neste caso, o percentual pode ser de 1%, mas também pode chegar a custar mais do que um quarto do valor total pago pelo passageiro.