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A diversidade protege as empresas

Uma gestão com mais diversidade serviria não só para melhorar as políticas de inclusão, mas também para defender a imagem da empresa

A diversidade protege as empresas

“Não fazemos gol de mão”, afirma o presidente do Burger King Brasil, Iuri Miranda, na primeira página do código de ética da companhia. “A conformidade com a lei e os princípios éticos não são opcionais.” Na seção “Ética, Honestidade & Integridade”, o primeiro item diz respeito à política de não discriminação. “O BK proíbe a discriminação”, aponta o documento, categoricamente. As informações são complementadas por exemplos práticos, elucidados no formato de pergunta e resposta. O conteúdo é didático e bem apresentado. As últimas páginas estão reservadas para o Termo de Aceite, que deve ser preenchido, datado e assinado pelo empregado. Todo esse cuidado, no entanto, não evitou que um cliente da rede de fast-food, David Reginaldo de Paula Silva, que é negro, acusasse um funcionário de uma de suas lanchonetes de chamá-lo de macaco.

O episódio aconteceu em São Paulo, na semana passada. Ao buscar seu pedido, David notou que, no recibo, onde deveria estar anotado seu nome, constava a palavra macaco. Ofendido, preferiu não discutir. Dois dias depois, fez um boletim de ocorrência por injúria racial. Procurado, o Burger King disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que “o consumidor é um ex-funcionário da companhia”, que “o funcionário que atendeu ao reclamante comunicou a gerência do restaurante que seguiu instruções diretas do consumidor”, “que o funcionário em questão foi afastado preventivamente enquanto a investigação está em curso”, e que “lamenta profundamente o episódio que vai totalmente contra seus princípios”. A Polícia Civil investiga o caso.

A preocupação explícita do Burger King em orientar seus funcionários quanto a não aceitação do racismo, entretanto, não foi suficiente para evitar o ocorrido. E os recorrentes casos de discriminação registrados em grandes companhias, no Brasil e no mundo, demandam uma reflexão mais abrangente. São episódios como o da campanha da H&M que vestiu o único menino negro de uma peça publicitária com um moletom escrito “o macaco mais legal da selva”. Essas empresas possuem códigos de ética, com “missão, visão e valores” bem definidos e promovem a inclusão. Mas falharam em proteger a dignidade de seus funcionários e clientes. Como resultado, fracassaram na tarefa de zelar por suas marcas.

Para começar a entender o motivo desse fracasso, é preciso olhar com mais atenção às estruturas empresariais. O site de Relações com Investidores do Burger King, que abriu seu capital no Brasil em dezembro do ano passado e movimentou R$ 2,2 bilhões, oferece informações importantes. Dos nove conselheiros da companhia, não há, sequer, uma mulher. Na diretoria, a situação é marginalmente melhor: sete posições são ocupadas por homens e uma por mulher. Um indecoroso 7 a 1. Não há negros em nenhum dos corpos diretivos. É provável que o porcentual de negros e mulheres entre seus 12 mil funcionários seja significativo. Porém, fica claro que ambos os grupos estão alijados do alto comando. Uma gestão com mais diversidade serviria não só para melhorar as políticas de inclusão, mas também para defender a imagem da corporação. Uma pesquisa recente da consultoria McKinsey, que analisou mil empresas, por exemplo, mostra que as companhias com maior diversidade têm 33% mais chances de terem lucros acima da média do mercado.

Há que se levantar, ainda, a baixa qualificação do trabalhador brasileiro. Um estudo da Fundação Dom Cabral, do fim do ano passado, com 200 empresas de grande porte, mostra que quase metade das companhias aponta a falta de formação básica como o principal entrave na hora de contratar. É um problema endêmico da ineficiente educação brasileira. Soma-se a isso a alta rotatividade dos cargos mais baixos, o que gera deficiências de treinamento e, na ponta, falta de habilidade em lidar com situações mais complexas – o setor de fast-food, por sinal, é conhecido pelos baixos salários e pela inexperiência de boa parte de seus times de atendimento. Mas o setor produtivo tem como ajudar: com condições de trabalho mais favoráveis e políticas de valorização e retenção de pessoal. Afinal, discursos e folhetos já não estão dando conta.