Edição nº 1096 15.11 Ver ediçõs anteriores

Diversidade x assédio

Diversidade x assédio

A diversidade ajuda a construir uma sociedade mais justa e igualitária para todos

Reza a lenda que o Brasil só começa a funcionar após o carnaval, o que acontece de fato com boa parte da economia. Então, nada melhor que aproveitar esta semana para não só fazer uma projeção do que será o ano de 2018, mas também atentar para os destaques e, principalmente, as tendências de evolução do mercado, da gestão e de temas que permanecerão em pauta neste ano.

Neste primeiro artigo, assim como no decorrer do ano, continuaremos focando em um tema que veio para ficar, teve seu grande boom em 2017, e olhando para as tendências de mercado e consumo está longe de sair de pauta, pelo contrário, estará cada vez mais presente no meio corporativo que é: diversidade.

Em conversas realizadas com diversos CEOs, sempre pontuei a importância da diversidade, levando-se em consideração três aspectos que julgo extremamente fundamentais para a sobrevivência das empresas neste mundo de tantas mudanças rápidas e estruturais envolvendo todos os aspectos da vida social. São eles:

1) A diversidade é boa porque ajuda a construir uma sociedade, um país e um mundo mais justo e igualitário para todos.

2) A diversidade é boa porque traz mais lucros para as empresas. A partir do momento em que eu trago mais diversidade para o meu ambiente de trabalho eu abro a possibilidade de um maior contato com negros, mulheres, LGBTs, jovens, idosos, ou seja, tenho a oportunidade de ter um contato direto com a maioria da população consumidora do meu produto ou serviço. É o melhor feedback, pois terei uma amostra objetiva e que se bem trabalhada me dará uma prévia sobre o consumo do meu produto ou serviço.

3) O terceiro e mais delicado ponto é sobre a imagem que quero construir da minha empresa. Seria uma imagem que valoriza a diversidade em todos os aspectos ou eu quero uma diversidade só para o consumo do meu produto ou do meu serviço? Outro aspecto que pode causar danos irreparáveis é se a minha companhia for taxada como uma empresa que não valoriza a diversidade, ou até mesmo que discrimina. Hoje em dia é cada vez mais comum os consumidores terem acesso à direção e à composição hierárquica das empresas. E qual será a reação desse consumidor quando perceber que a empresa na qual ele gasta seu dinheiro é formada majoritariamente no quadro de direção e funcional por homens brancos no comando, como em geral é no Brasil, e não representam a maioria da população que é de mulheres e de negros?

Esses são aspectos que tenho debatido e levado em pauta, nas várias empresas nas quais presto consultoria, seja nacionais ou multinacionais. Porém, uma recente pesquisa a que tive acesso demonstra um quarto componente que se deve levar em conta nas estratégias de implementação da diversidade. Em um local de supremacia de um só gênero, no caso masculino e uma só etnia, a branca, cria-se um ambiente mais propício para todos os tipos de assédios.

Segundo dados de uma pesquisa sobre o uso de canal de denúncia nas empresas, realizada pela ICTS Outsourcing, um dos braços da consultoria global Protiviti, em 10 anos de atuação foram registrados 170 mil relatos de assédio, distribuídos em 229 empresas. Segundo a pesquisa, os casos mais recorrentes nos últimos cinco anos foram de práticas abusivas, como assédio moral e sexual, agressão física, discriminação e preconceito, representando 26% do total de denúncias.

O curioso foi que a maior parte dos registros de denúncias foi realizada por homens, que foram responsáveis por 60,1% dos relatos, contra 39,9% feitos por mulheres. Talvez frutos de uma maior sensibilização e preocupação do público masculino em relação a temas como assédio moral e discriminação e seus impactos negativos no ambiente de trabalho e na reputação das organizações.

E como relatei há pouco, os clientes estão mais antenados e de olho nas corporações. A pesquisa também apontou que fornecedores e clientes estão realizando maior uso dos canais de denúncia corporativos nos últimos anos. Manifestações provenientes desses grupos aumentaram significativamente nos últimos anos e já representaram 11,3% dos registros. O líder ou responsável pelas operações nas corporações continua a ser o agente mais denunciado nas empresas, com 55,9% dos registros só em 2017.

Temos ciência que está longe de se eliminar os problemas de assédio moral, assédio sexual e as discriminações de raça, gênero ou de quaisquer outras formas correlatas de abusos, mas não há dúvidas de que um ambiente mais diverso ajuda, sim, a combater essas práticas.


Sobre o autor

O blog Diversidade Corporativa, de Mauricio Pestana, ex-secretário de Igualdade Racial do município de São Paulo, é um espaço destinado à reflexão e ao debate sobre o panorama da diversidade racial e de gênero no mundo empresarial. Traz temas relacionados a políticas afirmativas e inclusão social e apresenta soluções para fomentar o desenvolvimento socioeconômico da população historicamente excluída da economia e ambiente corporativo no Brasil


Mais posts

Maior encontro sobre diversidade no Brasil

São Paulo sediará, em dezembro, o “Fórum Brasil Diverso” no Museu da Imagem e do Som (MIS). Com formato inovador e criado a partir de [...]

Primavera da inclusão

Setembro sempre traz inspiração. Mês de renascer, florescer, afinal, é primavera. Neste contexto realizei duas palestras em dos bancos [...]

A diversidade no centro do debate

Há mais de 30 anos acompanho a evolução das ações afirmativas no Brasil. Inicialmente lenta, que eu me recordo apenas três empresas [...]

A Copa da Diversidade

Uma das frases que costuma encerrar meus depoimentos e palestras, quando falo sobre diversidade, é o exemplo que o Brasil tem dado para [...]

Parada do orgulho LGBT e inclusão nas empresas

Na semana em que a cidade de São Paulo prepara-se para receber a 22ª Parada do Orgulho LGBT, agendada para o próximo domingo, [...]
Ver mais
X

Copyright © 2018 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.