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A desconstrução da marca Neymar

A desconstrução da marca Neymar

A crônica futebolística celebrizou a máxima “quem não faz toma”. Se ela fosse verdadeira, nenhuma partida acabaria em zero a zero. Não conseguir meter a bola na rede no tempo regulamentar faz parte do jogo. Sair de campo vaiado depois de uma atuação ruim, idem. Acusado de estupro em um caso ainda bastante nebuloso, Neymar passou a jogar na própria defesa, apoiado pela família e por colegas, mas sem ter uma tática vencedora.

Contratado pelo Paris Saint-Germain pelo equivalente a US$ 600 milhões, Neymar pode ser facilmente comparado a uma grande empresa em termos de faturamento. Entre os salários pagos pelo clube, contratos publicitários e receita das redes sociais, ele recebeu algo próximo dos US$ 100 milhões em 2018, o que o coloca na quinta posição entre os atletas mais bem pagos do mundo. Mas, diferentemente do que faz uma grande empresa, ele tem se descuidado em um ativo dos mais importantes: a reputação.

Depois de frustrar a torcida brasileira com uma atuação que virou motivo de piada na Copa da Rússia, de ter pedido a cabeça ao esmurrar um torcedor do Paris Saint-Germain e de ser obrigado a entregar a braçadeira de capitão da Seleção, ele corre o risco de ficar de fora da Copa América, que começa na sexta-feira 14. Ainda que a CBF garanta a participação de Neymar no elenco, a acusação de estupro que o motivou a divulgar um vídeo em redes sociais afirmando que fez sexo consensual ainda pode trazer consequências deletérias a uma imagem que já vem se degradando.

Neymar é um atleta e não uma empresa. Mas isso não impede que sua imagem tenha um valor de mercado. O quanto essa marca vale é definindo pelos atributos que o qualificam. Desde muito jovem, sua atuação em campo costumava desequilibrar qualquer partida. Rápido, talentoso, criativo e goleador, ele se tornou o principal jogar brasileiro de sua geração. Um ídolo que faz sombra aos demais, embora nunca tenha sido eleito o melhor do mundo. Sua posição de destaque faz com que esteja especialmente sujeito à opinião pública – um árbitro mais severo que qualquer juiz da FIFA e até mesmo o VAR.

Se a Copa de 2018 deu ao camisa 10 a fama de cai-cai, fora de campo ele também tem tropeçado. Bem antes da acusação estupro, Neymar e seu pai tiveram bens bloqueados pela Justiça espanhola em decorrência de uma investigação por fraude financeira. No Brasil, a Receita Federal também impôs ao jogador uma multa de R$ 69 milhões. A suspeita é que houve sonegação dos valores pagos em sua transferência do Santos para o Barcelona – atitude análoga à de empresas que burlam o fisco. Isso se resolve com advogados ou com um pedido de perdão ao presidente Bolsonaro, como fez o pai do jogador.

O problema que Neymar enfrenta agora, contudo, é bem mais grave. O vídeo em que ele contesta a acusação de estupro e afirma não ter havido nada além do que um homem e uma mulher fazem entre quatro paredes já foi retirado da internet. Fora do âmbito legal, a defesa da imagem do jogador tem se dado na presença do pai, em programas de televisão. A família, evidentemente, o apoia. A verdade sobre o que correu entre ele e a brasileira em Paris talvez jamais seja esclarecida. Mas se há algo que Neymar pode fazer daqui pra frente é seguir o conselho da mãe: “Se concentre no que você mais ama na vida que é jogar futebol!”.