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A descoberta da Ligúria

Importador de móveis apaixonado por vinhos se dedica a trazer rótulos de uvas pouco conhecidas da região italiana onde manter um vinhedo exige um esforço descomunal

Crédito: Shutterstock

Vinhedos ao mar: Parreitas nas escarpas rochosas do litoral lígure e um vilarejo típico da região: dificuldade para plantar, colher e exportar os bons vinhos locais (Crédito: Shutterstock)

Poucas regiões viníferas dificultam tanto a vida do produtor quanto a Ligúria. Encravada em um arco territorial que margeia o Mediterrâneo desde a França até a Toscana, a costa lígure tem uma topografia acidentada, com escarpas rochosas que avançam dos Alpes sobre o litoral. E é exatamente nessas encostas íngremes que os viticultores locais trabalham. Ou melhor, se esforçam para plantar e colher. A exemplo do que ocorre na região demarcada do Douro, em Portugal, a Ligúria sempre exigiu de sua população um esforço extra para o cultivo das videiras. Primeiro, foi necessário construir terraças que permitissem o manejo dos vinhedos. Em alguns deles, na colheita, as caixas de uva precisam ser tranportadas sobre trilhos. Por fim, levar as garrafas para fora dali é outro desafio.

Achado: Antonio Pedroni e o Ampelos, tinto feito com 100% de uva Ciliegiolo por uma vinícola centenária: para conhecedores (Crédito:Divulgação)

“A Ligúria permaneceu praticamente isolada do mundo até bem pouco tempo”, afirma o empresário Antonio Carlos Pedroni, sócio da importadora L’Aretuseo, que se especializou em rótulos da região. Embora tenha como capital a cidade portuária de Gênova, a Ligúria ficou mais conhecida como destino turístico graças ao festival de Sanremo, na ponta ocidental, e à recente descoberta da idílica Cinque Terre, no extremo oposto. “O acesso era principalmente feito por mar”, prossegue Pedroni, explicando que, mesmo hoje em dia, as estradas que levam à Ligúria são formadas por longos trechos de túneis, que chegam quase até Mônaco.

Pedroni, mais conhecido como Toninho, já importava móveis da Ásia antes de se lançar no mercado de vinhos. Sua empresa, sediada em Catanduva, interior paulista, começou a trazer a bebida da Itália em 2013. “Poucos produtores da Ligúria têm capacidade de exportar. Então demorou até chegarmos aos parceiros ideias”, diz ele. A L’Aretuseo tem hoje unidades em Vinhedo (SP) e Itajaí (SC), onde desembarcam os rótulos baseados em uvas raras como a tinta Ciliegiolo. A variedade é usada no surpreendente Ampelos, produzido pela vinícola Rosadimaggio Arrigoni, que já conta mais de cem anos de atividade. Outras castas pouco conhecidas dos brasileiros são as brancas Pigato e Albarola.

Com uma combinação das uvas Vermentino e Rossese di Arcola, a mesma vinícola elabora o sofisticado Vigna del Prefetto, que passa por um processo de maceração de 12 horas em gelo seco antes do início da fermentação. Premiado pelo Guida Oro Il Vini di Veronelli em 2017 e com cinco estrelas no Guida Bibenda Vintage em 2015, o vinho é fresco, vibrante e justifica plenamente o preço de R$ 265 pelo qual é vendido no Brasil. Cada gole parece transportar às paisagens únicas das encostas da Ligúria.