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“A decisão sobre a capitalização vai ficar para o próximo governo”

O presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Jr., falou à DINHEIRO:

“A decisão sobre a capitalização vai ficar para o próximo governo”

Por que as distribuidoras não cabem dentro da Eletrobras?
Na estratégia que tínhamos desenhado, o foco é em geração e em transmissão de energia, pela relevância dentro da Eletrobras. A geração representa 31%, a transmissão, 49%, e a distribuição, menos de 4%. A concessão das seis distribuidoras não foi renovada. O custo delas continua, para operar e manter em caráter precário, com algumas salvaguardas. Para nós, a venda é muito boa porque a companhia não é uma boa operadora de distribuição. Hoje, o segmento é privado no País. Fizemos uma avaliação de empresas que foram liquidadas. A rede ferroviária federal, por exemplo, tem mais de duas décadas de liquidação e o processo ainda não terminou. Por isso, tem de trabalhar fortemente para privatizar e não para liquidar. Como proposta, estamos assumindo R$ 11,2 bilhões em dívidas dessas empresas, além dos R$ 8,5 bilhões a pedido da União, que serão compensados com créditos. É o melhor para todo mundo, para os empregados, para os consumidores e também para a Eletrobras, porque é quase um stop loss.

A venda das distribuidoras será por um valor simbólico. Por quê?
O interessado está comprando uma empresa, teoricamente, por R$ 50 mil. Mas essas empresas geram prejuízo mensalmente. No ano passado, foi algo em torno de R$ 400 milhões por mês. Então, para ficar claro, não é de graça, não. Estamos entregando companhias que têm de ser reestruturadas. Para isso, tem de investir na modernização da companhia, em novas redes. É uma obrigação do contrato de concessão, que estabelece uma série de compromissos, metas e prazos para serem atingidos pelo operador privado. É preciso capitalizar algo em torno de R$ 2,4 bilhões, no conjunto das seis distribuidoras. Isso é 30% do investimento a ser feito em cinco anos. Se for comprar a empresa da Amazonia, são R$ 490 milhões. A do Piauí necessita de R$ 720 milhões de capital e a de Alagoas, R$ 546 milhões, e assim por diante. Vai pagar R$ 50 mil quando comprar, mas um mês depois, se não fizer nada, tem um prejuízo a absorver.

Por que haverá interesse na compra de companhias que dão prejuízo?
Porque essas companhias têm oportunidades de criação de valor. Como? Reduzindo perdas, que nessas distribuidoras são bastante elevadas, entre 26% e 43%. Ao reduzir perdas, cria-se valor bem rápido. Outra oportunidade é que o custo operacional delas é maior que o definido pela Aneel. Se o comprador fizer um plano de demissão voluntária e renegociar contratos com terceiros, imediatamente terá um custo menor. O comprador projeta o negócio para daqui a 30 anos, que é o prazo do contrato, que ainda é renovável por um período igual de tempo. Com certeza, os interessados não estão olhando para os R$ 400 milhões de prejuízo que a distribuidora pode dar em um mês, mas o que ela pode alcançar em um ou dois anos.

Quando será feito o leilão das participações minoritárias em geradoras e transmissoras?
As Sociedades de Propósitos Específicos (SPEs) são operações consolidadas, que dão lucro e estão financiadas. Fizemos um trabalho com uma consultoria externa e interna e definimos um preço mínimo, com base nessas duas avaliações. O Tribunal de Contas da União demandou uma análise, que está em curso neste momento. Temos a expectativa de que essa análise esteja concluída entre julho e agosto, para fazermos um leilão público na B3. Essas participações são mais fáceis de vender, pois há interesse do controlador do negócio. São ativos espetaculares.

A privatização da Eletrobras fica para o ano que vem?
Sim, porque não há como fazer um processo de capitalização da Eletrobras antes de ter resolvido os drenos dela, das distribuidoras e os prejuízos causados por essa operação até a alavancagem. Por isso, a importância de vender as SPEs, que vão colocar dinheiro, efetivamente. As SPEs que estamos colocando em leilão tiveram uma avaliação de R$ 2,6 bilhões. Reduzimos a dívida líquida da empresa em 13% em um ano e meio e vamos reduzir ainda mais com a venda desses ativos. Lembrando que já vendemos ações da Eletropaulo, da CPFL, e da Energisa. As distribuidoras e as SPEs são o próximo passo. Essas duas desmobilizações vão permitir à Eletrobras, finalmente, ficar em uma zona satisfatória de alavancagem. De 8,8 vezes a geração de caixa em julho de 2006 para 3 vezes no fim de 2018. Isso foi possível pela queda do endividamento e pelo aumento da geração de caixa em 120%. Isso é fruto de aumento de eficiência da companhia.

A Eletrobras volta a ser uma empresa competitiva?
Quando terminar todo processo deste ano, a companhia vai ficar com um endividamento saudável, na comparação com o setor. Isso significará uma capacidade de investimento de R$ 5 bilhões a R$ 6 bilhões, por ano. Mas, para manter a participação de mercado, a companhia teria de investir R$ 14 bilhões por ano. Com o tempo, a Eletrobras vai perdendo participação de mercado, ano a ano. O único jeito de a companhia realmente manter essa participação e continuar crescendo é ter o processo de capitalização. Mas a decisão sobre a capitalização vai ficar para o próximo governo. Nesse próximo trimestre, se Deus quiser, terminaremos os temas das distribuidoras e das SPEs. Após a eleição, o novo governo terá contato com essa realidade e vai avaliar o que prefere fazer.

Como o sr. está lidando com a pressão pela sua saída? 
Entendo que são agendas difíceis, sobretudo do ponto de vista dos empregados e dos sindicatos. Eles têm uma reação natural e não é diferente do que aconteceu na Vale, no Banespa e nas empresas de energia que foram vendidas. Um processo de privatização significa uma mudança de status quo, que assusta. É um sinal de que vai ter eficiência. Eles têm uma agenda e se animaram com a saída do Pedro [Parente, ex-presidente da Petrobras, que deixou a empresa após a paralisação dos caminhoneiros]. Sou item da pauta deles, além dos pedidos de um reajuste espetacular e de não à privatização. Mas eles fazem de uma maneira exagerada e desrespeitosa, na minha opinião. Fico aborrecido porque tenho trabalhado pelo bem da companhia, mas eles não conseguem ver que a agenda é convergente.

É uma crítica ao seu modelo de gestão?
Mais que o ódio pelo presidente, tem uma discussão política nessa disputa eleitoral, com várias correntes estatizantes vis-à-vis os liberais. Um segundo ponto é a mudança da Lei Trabalhista. Os sindicatos se aproveitaram desse movimento de privatização para se fortalecer junto aos empregados. Tem uma batalha importante que eles estão travando e acabei ficando no meio dessa confusão. É uma pena. Mas estou firme aqui e o meu mandato é até o ano que vem. Espero concluir esse trabalho que estou liderando. Temos posição divergente. Eu respeito a deles, mas eles respeitam menos do que deveriam a minha, que represento o controlador. Mas é do embate político. Compreendo, mas não gosto da forma.