Edição nº 1112 15.03 Ver ediçõs anteriores

A cruzada do Banco Central

A cruzada do Banco Central

O guardião da moeda partiu para aquela que será talvez a sua mais ardorosa batalha: impor juros baixos nas mais diversas linhas de financiamento, nas taxas de mercado, nas praticadas na ponta do tomador. Não apenas o juro Selic, que serve de referência, ficará a valores atrativos. Essa é a promessa. Difícil será cumpri-la. Durante anos muitos buscaram o intento, em vão. Os bancos privados e demais instituições financeiras seguem outra dinâmica. De todo modo parece surgir um entendimento favorável à ideia de que algo precisa mudar. O primeiro passo nesse sentido está sendo tomado naquele que é o mais popular dos instrumentos: o cheque especial. Os bancos pensam em oferecer, já a partir de julho próximo, uma opção mais barata para quem se endivida por essa linha de financiamento. Não foram tomados por um súbito impulso de bondade.

O motor da transformação é a concorrência. O plano é fazer uma espécie de parcelamento da dívida do cheque especial que vai funcionar como uma solução para quem está com a conta corrente negativa há muito tempo. Nas dívidas superiores a R$ 200 a negociação poderá ser aberta. A dívida nessa modalidade de crédito – cujos juros superam os 320% ao ano – poderá ser trocada por outra de período mais longo e a custo mais baixo. Como efeito secundário, o sistema financeiro espera uma queda da inadimplência e, por consequência, uma melhoria do saneamento de seus próprios balanços. Os clientes, naturalmente, não serão obrigados a aceitar a oferta, mas a possibilidade de que muitos venham a aderir deve reduzir significativamente o risco de calote embutido nesse tipo de operação, com benefícios em cascata para todos. O mentor dessa articulação é o atual presidente do BC, Ilan Goldfajn, que não tem se furtado a adotar medidas ousadas.

Não faz muito tempo, o Banco Central impôs novas regras ao cartão de crédito provocando rapidamente a queda do juro do rotativo. Em outra frente, Goldfajn flexibilizou os pagamentos, permitindo diferentes preços de mercadoria para pagamento em dinheiro – algo que já vinha sendo praticado informalmente, mas que ganhou a anuência oficial do Banco durante a sua gestão. A redução dos compulsórios, os estímulos aos cartões de débito e a regulação das fintechs de crédito também auxiliaram bastante para o atual estágio de entusiasmo do mercado. Com a sua administração um tanto quanto heterodoxa – comparativamente a de seus antecessores – o atual presidente está fazendo história naquela instituição e demonstrando que é possível sim colocar as práticas financeiras dentro de práticas mais civilizadas.

(Nota publicada na Edição 1065 da Revista Dinheiro)


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