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A crise que rouba livros

Atoladas em dívidas, a Livraria Cultura e a Saraiva pressionam o mercado de livros. O futuro das editoras, que dependem das duas grandes redes, é incerto

A crise que rouba livros

Pedro Herz, da Livraria cultura: o fundador passou o bastão para o filho

Quando a septuagenária rede de livrarias Laselva entrou com um pedido de recuperação judicial em 2013, com dívidas acumuladas em R$ 120 milhões, poucos imaginavam que aquilo seria um presságio de maus tempos para o setor editorial brasileiro. A empresa, que chegou a ter 83 pontos de venda – a maioria em aeroportos –, não conseguiu arcar com o plano traçado para a sua recuperação, deixando mais de 600 credores e centenas de funcionários na mão. Como consequência, a Laselva teve de fechar suas últimas três lojas em março deste ano, data em que a Justiça de São Paulo decretou sua falência. Durante esse mesmo período de declínio da tradicional rede, os dois principais nomes do mercado, Cultura e Saraiva, experimentavam uma expansão acelerada pelo País, financiada por linhas de crédito do BNDES e empréstimos com os bancos privados.

A aposta no crescimento, no entanto, deu errado. Desde o fim de 2013, o setor editorial acumula perdas consecutivas, com um decréscimo de R$ 1,73 bilhão em suas receitas. Com dívidas elevadas, Saraiva e Cultura lutam para manter as portas abertas. “Isso era uma crise anunciada, pois existe uma pressão de custos que é insuportável, tanto fiscal quanto operacional”, diz Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional das Livrarias (ANL). “O mercado de livros vai ter que voltar às origens. Esse efeito sanfona de expansão e retração está mostrando os seus limites.” Voltar às origens significa trabalhar com menos lojas e com espaços reduzidos, mas mantendo o foco em livros, uma alternativa possível para voltar a crescer.

Protestos na Cultura: cerca de 30 ex-funcionários da Fnac protestaram dentro de uma das unidades

Embora não seja uma empresa de capital aberto, a crise da Cultura já era conhecida. Desde 2015, a rede viu seu faturamento cair em aproximadamente 30%. Em 2016, a varejista declarou uma receita de R$ 380 milhões e passou a acumular dívidas com boa parte dos fornecedores. Por isso, surpreendeu a todos quando anunciou, em 2017, que estava adquirindo a operação brasileira da Fnac. Os detalhes da negociação foram mantidos em sigilo, a princípio. Mas, semanas depois do acordo, descobriu-se que a varejista francesa dedicou €36 milhões à Cultura para que mantivesse suas 12 lojas abertas no País e renegociasse seus passivos.

Para muitas pessoas do mercado, aquele foi um “passo maior que a perna”, e um dos fatores que decretou a situação atual da Livraria Cultura, que entrou com um pedido de recuperação judicial na 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, em 24 de outubro. “Se a Fnac estava pagando R$ 135 milhões para sair do Brasil é sinal de que o negócio não vinha bem”, diz Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). “Após a aquisição da Darty na Europa, em 2016, a Fnac decidiu focar no varejo da região, e ‘vender’ seus ativos no Brasil, mesmo com todas as transformações de categorias, investimentos em multicanalidade e em gestão comercial e operacional que estavam sendo implementadas”, disse uma fonte que gerenciou a operação brasileira da Fnac.


Com espaços em pontos comerciais caros e operando unidades deficitárias, a Fnac era um elefante branco. Prova disso é de que a Cultura não demorou muito para fazer o ‘trabalho sujo’ de fechar lojas e demitir funcionários. Em 15 meses, as 12 lojas da Fnac espalhadas por sete Estados do País deixaram de existir. No mês de outubro, parte dos funcionários desligados da rede fizeram manifestações na principal loja da Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo, por conta do atraso no pagamento de verbas indenizatórias. “A Cultura virou as costas para tudo aquilo que a fez ser uma livraria extraordinária até o final dos anos 1990. Ela deixou de dar atenção para os livros, passando a vender CDs, DVDs e itens de papelaria. Perdeu seus funcionários mais experientes e deixou de ter o acervo criterioso que tinha”, diz o editor e livreiro Alexandre Martins Fontes, que vê a receita de sua livraria localizada na Avenida Paulista crescer numa média de 30% ao mês, com o vácuo deixado pelas grandes redes na região.

A Saraiva, por sua vez, também apresenta problemas financeiros de longa data. Uma análise dos resultados trimestrais dos últimos dez anos mostra que as margens da atividade principal vêm encolhendo de maneira gradual, mas irreversível. No segundo trimestre de 2008, ao faturamento – corrigido pela inflação – de R$ 343 milhões corresponderam um lucro bruto de R$ 140 milhões, com margem de 40,8%. A última linha do balanço, porém, já mostrava um prejuízo líquido de R$ 22,3 milhões, decorrente de um salto nas despesas administrativas naquele trimestre.

No comando da rede de sua família, Jorge Saraiva Neto renegocia as dívidas com as editoras

Dez anos depois, a situação piorou sensivelmente. O faturamento registrado no segundo trimestre de 2018 foi de R$ 368 milhões, parecido, em termos reais, com o de dez anos antes. A margem bruta, porém, encolheu mais de dez pontos percentuais, reduzindo-se de 40,8% para 29,5%. Não por acaso, os acionistas não gostaram. Ao longo de sete anos, o valor de mercado da empresa recuou de R$ 1,8 bilhão desde o ápice em janeiro de 2011 até R$ 68 milhões na quarta-feira 7. Uma queda de 96,3% na capitalização da empresa, resultado digno das páginas de uma peça trágica.

Após se reunir com editoras no primeiro semestre deste ano, a Saraiva afirmou que buscava negociar “prazos mais flexíveis junto aos seus parceiros comerciais”. Ficou definido então um “reescalonamento das dívidas” da empresa com seus fornecedores, mas os atrasos voltaram a acontecer. Juntas, Cultura e Saraiva devem R$ 240 milhões para as editoras, segundo estima o Snel. “As editoras estão com muito medo de ver suas dívidas aumentarem, por isso estão cortando o abastecimento para essas redes”, diz Veiga Pereira. A Saraiva só não acusou o golpe antes porque vendeu sua operação de educação da Editora Saraiva em 2015, por R$ 725 milhões.

Retrato da crise: a rede fechou 20 unidades neste mês, como a loja de Santos (SP)

Na época, o montante gerou um estímulo para a empresa, que conseguiu abrir novas lojas e aprimorou seu e-commerce. Em 29 de outubro, poucos dias após o pedido de recuperação judicial da Cultura, a Saraiva comunicou que estava fechando 20 unidades, readequando seu quadro de funcionários “em busca de maior competitividade e desenvolvimento sustentável de sua operação de varejo”. Oito dessas operações descontinuadas eram lojas iTown. Além disso, outra ação da empresa seria uma mudança no mix de produtos, com a venda de itens voltados à telefonia e informática passando apenas para o ambiente virtual.

No mundo, algumas ações prometem virar tendência. Em Paris (FRA), a escassez de estoque da Librairie des Puf chama atenção. Operada pela editora Presses Universitaires de France, a livraria trabalha com títulos sob demanda. Ela imprime os livros na hora, de acordo com o pedido do cliente, através de uma Espresso Book Machine (máquina expressa de livros, em tradução livre). “Um projeto como esse seria muito bem vindo numa época como a nossa”, diz Luís Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). “Mas a nossa realidade é outra. Para enfrentar essa crise, uma de nossas ideias são feiras itinerantes de livros, que precisam receber mais apoio do governo.” A CBL também organiza a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que obteve um público visitante de 663 mil pessoas em agosto. Os números da Bienal crescem a cada edição, mostrando que ainda estamos longe de ver os livros se tornarem obsoletos, como num romance distópico do americano Ray Bradbury.