Economia

A conta do pouso chinês

Segunda maior economia global mostra sinais alarmantes de desaceleração e revela o estrago que isso pode provocar em empresas como a Apple (e em parceiros como o Brasil)

A conta do pouso chinês

Menos filas: a Apple admitiu que a procura por suas lojas diminuiu, em especial na China. O lucro para o último trimestre de 2018 deve ficar 10% menor do que o previsto

Na carta que escreveu aos acionistas da Apple no dia 2 de janeiro, o CEO Tim Cook mencionou as recorrentes filas de clientes ávidos por comprar os produtos da empresa, especialmente iPhones. Desta vez, porém, o tom foi pessimista. “O trafego em nossas lojas diminuiu”, escreveu. O resultado foram lucros 10% menores que o previsto no quarto trimestre de 2018. A notícia confirmou os piores temores dos analistas: o problema está a oeste do Pacífico. “Não previmos a magnitude da desaceleração econômica, particularmente na China”, afirmou Cook. “A maior parte da queda da nossa receita ocorreu ali.”

Os analistas discutem há anos quando as taxas de crescimento econômico chinês vão convergir para a média mundial. E, para isso, eles recorrem a uma analogia aeronáutica: se será um pouso suave ou uma aterrissagem forçada. O crescimento vem perdendo passo há cerca de dez anos. Em 2010, último ano de taxas pujantes, o PIB cresceu 10,6%. Para 2018, a previsão é de 6,6% (confira o gráfico ao lado). É um percentual de causar inveja aos brasileiros, cuja estimativa é de 1,4% para o ano passado. mas reflete a perda de eficiência da economia chinesa, marcada por investimentos estatais e um consumo interno intenso.

A primeira causa do problema deve-se a uma mudança do governo chinês. Temendo uma bolha de empréstimos, Pequim passou a diminuir, a partir de 2016, a concessão de crédito no país, o que acabou prejudicando a economia como um todo. “Como o modelo é baseado em investimento, a atividade econômica é mais sensível a mudanças na oferta de crédito”, diz Chang Liu, economista da consultoria britânica Capital Economics. A desaceleração fez a China ampliar de novo a disponibilidade de empréstimos em meados de 2018, e anunciar que vai investir mais ainda para estimular as empresas a crescer. Na quarta-feira 9, os impostos para pequenas empresas baixaram.

Perda de fôlego: a construção foi um dos grandes motores do crescimento, mas agora o modelo dá sinais de esgotamento

DESACELERAÇÃO A revisão, porém, esbarrou na segunda causa, mais crônica, da freada econômica chinesa: o desgaste do modelo. Após décadas de investimentos em construção e infraestrutura, o número de casas ou pontes diminuiu consideravelmente. Em teoria, o dinamismo econômico seria sustentando pelo consumo interno. A carta da Apple mostra que virar essa chave não é tão simples. “A penetração de smartphones na China é similar a de países desenvolvidos”, afirma Kiranjeet Kaur, pesquisadora da consultoria americana IDC. “Nos últimos trimestres, houve um declínio nas compras.” Os números oficiais comprovam uma desaceleração mais profunda. Em novembro, as vendas do varejo cresceram 8,5%, pior patamar em cinco anos, e a produção industrial avançou 5,4%, menor expansão em dois anos.

Mais recentemente, a desaceleração interna agravou-se devido à ameaça de uma disputa comercial com os Estados Unidos. “A escalada da guerra comercial também foi fundamental para minar a confiança dos consumidores e das empresas”, afirma Diana Choyleva, economista-chefe da Enodo Economics, consultoria especializada em China. O governo Trump pode elevar tarifas sobre mais de US$ 250 bilhões de dólares de exportações chinesas. Pequim promete retaliar à altura. Essa batalha vem fazendo as previsões para o crescimento global serem revisadas para baixo pelos principais bancos e entidades multilaterais. O Brasil não é exceção. A China absorve cerca de 30% das exportações brasileiras e é nosso maior importador, tendo comprado US$ 64,2 bilhões em 2018.

Para os economistas, o aumento da produtividade poderia trazer o dinamismo de volta. Porém, Xi Jinping, o presidente chinês, prefere o jeito antigo. “Pequim está recorrendo mais uma vez ao investimento estatal”, afirma Choyleva. “Mas os gastos em infraestrutura podem, no máximo, produzir poucos trimestres de crescimento. Após isso, a dívida da China vai chegar a um patamar considerado território desconhecido”. O líder também retirou limites para o fim do seu mandato. A insistência em fórmulas desgastadas pode se tornar ineficaz para conter a perda do fôlego. Fica cada vez mais claro que a conta será dividida com o resto do mundo.