Internacional

A China contra o capital selvagem

Gigantes como Alibaba, DIDI e Tencent são apertadas pelo governo de Xi Jinping, que não quer perder a rédea sobre elas.

Crédito: Xie Huanchi

EM NOME DA PROSPERIDADE O presidente da China, Xi Jinping disse que quer elevar o controle sobre as empresas, em especial as de tecnologia, para o crescimento sustentável do país. (Crédito: Xie Huanchi)

Mais capitalista das economias comunistas, a China intensifica a cruzada contra algumas das maiores empresas do próprio país. A ordem do Partido Comunista Chinês (PCC) é, sem muitas delongas, mostrar quem manda e ampliar a distância entre seu o modelo econômico e o liberalismo americano. Na semana passada, o presidente Xi Jinping defendeu, em entrevista ao jornal estatal, maior controle sobre as empresas, em especial as de tecnologia. Segundo ele, o objetivo é “prevenir a expansão irracional do capital” e “combater o crescimento selvagem” das companhias. “A implementação de todas essas regulamentações antimonopólio é absolutamente necessária para melhorar a economia de mercado socialista e promover a prosperidade comum”, disse. Embora todas as gigantes chinesas estejam na mira do partidão, Alibaba (e-commerce), Didi (de mobilidade, dona da 99 no Brasil) e Tencent (games) deverão ser as mais afetadas.

No caso da Alibaba, a mão pesada do governo já se fez sentir. E resultou no “desaparecimento”, por quase três meses, de Jack Ma, fundador da companhia. A razão do sumiço? O interesse do magnata chinês em ampliar a oferta de ações da empresa na bolsa de Nova York. Segundo o economista Arthur Kroeber, especialista em China no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), depois de afrouxar a fiscalização sobre as empresas nacionais durante mais de uma década, “a China tenta resgatar o antigo modelo de escrutínio ao setor produtivo”.

O motivo de maior preocupação do PCC é a internacionalização das companhias chinesas. Em 2020, 27 empresas da China lançaram papéis na Bolsa de Nova York. No primeiro semestre deste ano, o total de IPOs passou de 20. “Além de perder o controle, há o temor de que os conglomerados empresariais que poderiam estar em Xangai espalhem pelo mercado global alguns trilhões de dólares e os dados dos clientes”, disse Kroeber.

Outro conglomerado que deve encolher com a ofensiva do Partido Comunista Chinês é a Tencent, a maior empresa de games da China e uma das Top 10 no ranking das mais valiosas do mundo. Seu valor de mercado, de US$ 560 bilhões (cerca de R$ 2,9 trilhões), equivale a 40% do PIB brasileiro de 2020.

Em um artigo publicado no jornal estatal, o PCC chamou o videogame de “ópio espiritual” e de “droga eletrônica”, um problema ser combatido e controlado pelo governo. Em três dias, a repercussão do texto levou a Tencent a perder US$ 14 bilhões em valor de mercado. Já a Didi, dona do WeChat e da 99 no Brasil, perdeu US$ 22 bilhões depois de receber uma punição por, supostamente, violar a privacidade de dados de seus usuários — argumento no mínimo estranho em um país que em tese não dá qualquer importância para esse tema. Juntas, Alibaba, Didi e Tencent perderam mais de US$ 47 bilhões desde que entraram na linha de tiro do fogo amigo estatal.

Para Michael Witt, professor de estratégia e negócios internacionais do Insead, o Partido Comunista Chinês está colocando freio em um setor de tecnologia, mas não deverá seguir prejudicando as empresas locais por saber que tal comportamento pode afugentar novos investimentos estrangeiros no país, num momento crucial na disputa comercial com os Estados Unidos. “O governo nada mais quer do que o controle e o respeito às diretrizes ideológicas”, afirmou. “O ambiente regulatório ficará mais restritivo, mas a China seguirá puxando as oportunidades de negócios para as empresas no mundo todo.”

PROTAGONISMO ESTATAL O cerco comunista às multinacionais chinesas são se dará da noite para o dia. A regulamentação mais rígida consta de um plano de cinco anos, até 2025. Ele é composto por dez itens e estabelece em um documento que as leis serão fortalecidas para áreas importantes como ciência, inovação tecnológica, cultura e educação. A estratégia é reforçar o Estado como protagonista dos avanços econômicos e sociais do país mais populoso do mundo, e que deverá se tornar a maior economia dentro de uma década. Nesse contexto, o PCC quer aplausos para o governo comunista, e não apenas para as empresas capitalistas chinesas.

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