Economia

A carga pesada das exportações

A carga pesada das exportações

Há quatro anos, Guilherme Gmeiner, CEO da Dry Up, embarcou para os Estados Unidos com uma mala repleta de produtos e um sonho: exportar. As demonstrações do produto de limpeza ecológico da sua marca causaram boa impressão com executivos de companhias aéreas e o incentivaram a seguir em frente. Era o começo de um calvário. Ele visitou 12 escritórios de contabilidade e advocacia nos Estados Unidos, bateu na porta da embaixada americana, buscou a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), mas não conseguiu informações suficientes para dar o primeiro passo. Nem a busca por uma certificação específica bastou para a conquista de novos ares na ocasião. O primeiro embarque acontecerá somente neste mês, fruto de um processo longo de persistência que levam o empresário a desabafar: “Foi desmotivador, confesso, porque as orientações eram diversas”, afirma “Tudo parecia correto e, mesmo assim, não conseguíamos exportar.”

Uma das principais queixas ao longo dos quatro anos de esforços foi a clareza e precisão das informações, uma dificuldade que ainda faz a diferença para os negócios da Dry Up. “Só quando já tinha fechado o contrato, soube que poderia ter utilizado uma linha de crédito para exportar, afirma o empresário. “Não deu para usar desta vez, mas pretendo utilizar no futuro.” Trata-se de uma barreira comum a todos os exportadores. Segundo a pesquisa “Desafios à Competitividade das Exportações Brasileiras”, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 43,7% das empresas exportadoras utilizam pouco ou não utilizam instrumentos de financiamento às exportações. A falta de informação é o principal entrave: 26,9% das empresas afirmam desconhecimento sobre os instrumentos. “Embora o acesso tenha melhorado nos últimos dois anos, ainda é muito preocupante a quantidade de empresas que não usam financiamento”, afirma o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Eduardo Abijaodi. “Estamos perdendo oportunidades lá fora.”

Crédito De acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC), entre 80% e 90% do comércio mundial é financiado por crédito ou apoiado algum por seguro de crédito. Para Constanza Negri, Gerente de Política Comercial da CNI, este dado revela a importância na divulgação destas linhas de crédito. Ela explica que as linhas como a de equalização de taxas de juros, por exemplo, são importantes para impulsionar exportações de alto valor agregado. “Cada US$ 1 financiado alavanca, em média, exportações no valor de US$ 19”, afirma Negri. “É urgente considerar que o produto de comércio exterior faz parte da política de crescimento do país, estes desafios precisam de um olhar abrangente”.

Além do financiamento, as 589 empresas exportadoras participantes da pesquisa relataram ainda insatisfações com a proliferação de leis, normas e regulamentos de forma descentralizada, a existência de legislações complexas e conflituosas, a divergência na interpretação dos requisitos legais por diferentes agentes públicos e o demasiado tempo levado para a fiscalização, despacho e liberação das mercadorias. Com exportações que somam pouco mais de US$ 200 bilhões no acumulado até novembro, o Brasil detém hoje apenas 1,2% das vendas externas globais, na 26º posição no ranking mundial de exportadores, atrás de Polônia, Austrália e Tailândia. Cerca de 24 mil empresas estão registradas como exportadoras no País, de um universo de pouco mais de 2 milhões de companhias.

Para se tornar a maior exportadora da cadeia produtiva de café, a Cooxupé, precisou aprender lidar com as barreiras diariamente. “Por sermos o maior player de café, não sofremos tanto como os pequenos e médios, mas também temos nossos entraves”, diz Lúcio de Araújo Dias, superintendente comercial da cooperativa. O grupo vai exportar, neste ano, 3,8 milhões de sacos de café, contra uma meta inicial de 4,2 milhões sacos. “No primeiro semestre, enfrentamos a falta de contêineres, entraves no mercado internacional de frete e as preocupações com a tabela de frete no Brasil.” Rodolfo Coelho, diretor comercial da Airways International, reconhece uma melhora no processo burocrático com a implantação da Declaração Única de Exportação (DUE) em substituição a três outros documentos, mas levanta a questão da qualificação. “Infelizmente, boa parte dos contadores não está preparada e muito do trabalho recai sobre o despachante aduaneiro, que não é o profissional mais indicado.”

Uma saída para tornar mais simples o processo de exportações é o investimento em processos digitais. É o que vem tentando o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços com a implementação, desde maio de 2017, do programa Portal Único de Comércio Exterior, que busca a reformulação dos processos de importação, exportação e trânsito aduaneiro. Ali, estão reunidos os 22 órgãos do governo que atuam no comércio exterior e um dos objetivos é justamente promover a integração entre todos os atores. Dentre os resultados esperados com a ação está a redução de prazos e custos de exportação.

Persistente A vontade de exportar era maior que os desafios e levou Guilherme Gmeiner a um verdadeiro calvário que durou quatro anos . Foram muitas viagens aos Estados Unidos e inúmeras tentativas frustradas em busca de informações. A maioria, desencontrada (Crédito:Gabriel Reis)

desempenho Até agora, a iniciativa apresentou alguns resultados, mas bem tímidos. No próprio portal, há a informação de que, um dos objetivos é melhorar a classificação do país no Projeto Doing Business, do Banco Mundial, que apresenta índices que permitem a comparação da qualidade das regulamentações de negócios de 190 países. Um dos pontos analisados é justamente o desempenho dos países no comércio entre fronteiras. Segundo o relatório de 2017, uma exportação de bem conteinerizado no Brasil levava, em média, 13 dias para ser concluída. Em 2019, este tempo caiu apenas para 12 dias, frente à expectativa do governo de uma redução para 8 dias.

Neste ranking que mensura o tempo, o custo e as dificuldades burocráticas para realização de negócios internacionais e comércio exterior, o País passou da 139ª posição para a 106ª. “Temos que criar canais que facilitem a vida do exportador”, afirma Marcos Stefaninni, CEO da Stefanini, presente em 40 países e com mais de 24 mil funcionários pelo mundo. “Poderíamos ter no Rio Grande do Sul, por exemplo, um trade digital para que as vinícolas da região se comunicassem com o mundo. Isso já existe na China”. Para o especialista, é preciso criar mecanismos que facilitem a transação do ponto de vista prático, que democratize algo que o empreendedor nunca conseguiria fazer sozinho. “Derrubar barreiras é o primeiro passo para nosso crescimento”