Tecnologia

A caçadora de unicórnios

Como a gestora brasileira Monashees conseguiu encontrar duas startups latino-americanas que valem mais de US$ 1 bilhão

A caçadora de unicórnios

Delivery bilionário: avaliada em mais de US$ 1 bilhão, a startup colombiana Rappi, fundada por Simón Borrero, recebeu três aportes da Monashees

Unicórnio é o jargão usado pelo mundo de tecnologia para definir startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais. No mundo, segundo a consultoria americana CB Insights, há 274 empresas iniciantes nesse patamar. Apenas três na América Latina: o aplicativo de transporte 99, a fintech Nubank e o aplicativo de entregas expressas Rappi. Por trás de duas delas está a gestora de venture capital brasileira Monashees, criada em 2005 por Eric Acher, com passagens pela consultoria McKinsey e pelo fundo americano General Atlantic, e por Fabio Igel, herdeiro da família que controla o grupo Ultra. A Monashees captou, desde então, US$ 300 milhões, segundo estimativas. Ao longo do tempo, o fundo de venture capital paulistano foi acumulando não apenas sócios, como Carlo Dapuzzo, Guilherme Décourt e Marcelo Lima, oriundos de consultorias, como Monitor Group e Roland Berger, mas também casos de sucesso, como as tacadas certeiras nas startups 99 e Rappi.

Com estilo low profile, a Monashees se mantém arredia à fama. Seus sócios raramente dão entrevistas. No máximo, limitam-se a participar de eventos dando palestras, como o BlastU, no ano passado. “Temos o objetivo e uma visão de ajudar a construir empresas de tecnologia de classe mundial no Brasil”, disse Acher, durante sua apresentação no festival de empreendedorismo, que aconteceu em São Paulo. Na mentalidade do fundo, quem deve estar sob os holofotes são as empresas nas quais investem. Essas, por sua vez, geralmente estão na fase inicial de suas operações e buscando por uma primeira injeção de capital (fase conhecida como seed money, o dinheiro semente). Depois, a Monashees participa de outras rodadas investimentos, evitando uma grande diluição de sua participação.

Aposta certeira: principal investimento da Monashees no mercado brasileiro, o aplicativo de transporte 99 se tornou um unicórnio em janeiro

Foi assim com a Rappi, fundada pelos empreendedores colombianos Sebastian Mejia e Simón Borrero, que se transformou em um unicórnio depois de receber um aporte de US$ 200 milhões do fundo asiático DST Global, no começo de setembro. Em 2016, a gestora de Acher estava interessada em negócios de entregas expressas na América Latina. Quando conheceram os fundadores da startup, eles pegaram um avião e voaram para Bogotá. “Ficou claro que a Rappi seria um vencedor regional na área de entrega rápida”, diz uma fonte próxima à Monashees. Naquele ano, a gestora brasileira participou da primeira de três rodadas de investimento que fez na Rappi, uma delas liderada pela Sequoia Capital.

Desde sua fundação, a Rappi já recebeu US$ 392 milhões de fundos como Andreessen Horowitz e Redpoint eventures, além dos já citados. O investimento ajudou a companhia a expandir para fora da Colômbia, chegando em países como Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e México. “A Monashees tem muitos contatos e nos ajudaram bastante para entrar no Brasil”, afirmou Mejia à DINHEIRO. Por meio de seu aplicativo, é possível pedir entregas de qualquer coisa, de compras de supermercado a refeições em restaurantes. Dos 3,6 milhões de usuários da empresa, 800 mil estão espalhados por dez cidades brasileiras. Até o fim do ano, 15 municípios no País deverão ter os entregadores vestidos de vermelho circulando pelas ruas.

Olheiro de startups: fundador do fundo brasileiro Monashees, o empresário Eric Archer investe em empresas que ainda estão no estágio inicial de seus negócios

A carteira de investimentos da Monashees conta atualmente com 48 empresas no Brasil, Argentina, Colômbia, Estados Unidos e Israel. Faz parte do portfólio a Yellow, startup de compartilhamento de bicicletas, dos ex-donos da 99, os empreendedores Ariel Lambrecht e Renato Freitas. A lista inclui ainda o Enjoei, um marketplace para pessoas físicas venderem produtos usados; a Méliuz, um programa de fidelidade que aposta no cashback; e a Conta Azul, que faz um software de gestão na nuvem. “Eles acreditam na visão do fundador”, afirma Vinícius Roveda, CEO da Conta Azul. “É diferente de um fundo que fica no dia a dia pressionando por resultados.”

O desafio da Monashees, assim como da maioria dos fundos que atuam por aqui, é a saída do investimento, a hora em que os milhões de dólares investidos precisam se multiplicar. Em conversas com amigos, Acher costuma dizer que, apesar de tanto tempo na estrada, eles ainda precisam provar sua tese de investimento. Até agora, a gestora deixou sete empresas: Algentis, a Boo-box, a Kickoff, a Oppa, o Peixe Urbano, a Strider e a 99. Esta ultima é o principal exemplo de sucesso. A empresa foi vendida por US$ 1 bilhão para Didi Chuxing, o Uber da China – com a transação, a startup brasileira se tornou um unicórnio. “Eles investiram na 99 desde o início e apoiaram os empreendedores durante toda a jornada, com uma posição no conselho, até a venda para a Didi Chuxing”, diz uma fonte próxima a Monashees. Parafraseando um ditado popular: “não acredito em unicórnios, mas que eles existem, existem”. A Mona-shees, por exemplo, já encontrou dois.