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A busca pela vacina

Em meio à escalada global de contágio e de mortes causadas pelo coronavírus, laboratórios e institutos de pesquisa no Brasil e no mundo investem bilhões para encontrar a droga que possa frear a pandemia cujos efeitos já são comparados aos da segunda guerra.

Crédito: Claudio Gatti

PESQUISA NO INCOR: Laboratório da Universidade de São Paulo trabalha na descoberta de uma fórmula para imunizar a população. Verba de R$ 500 milhões deverá ser obtida junto ao BNDES. (Crédito: Claudio Gatti)


Enquanto a economia mundial derrete por conta da explosão de casos confirmados de coronavírus nos últimos dias, com mais de 200 mil infectados e 8 mil mortes, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), e a consequente paralisação de atividades industriais, comércio e serviços, governos de vários países — incluindo o Brasil — e as indústrias farmacêuticas partem em uma corrida bilionária para tentar frear a pandemia e encontrar a vacina contra a doença. Somente o presidente dos EUA Donald Trump anunciou US$ 2,5 bilhões (R$ 13 bilhões) para ações no combate ao vírus, incluindo a criação de vacina. Na segunda-feira 16, foram iniciados, segundo o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (Niad), os primeiros testes em humanos, na cidade de Seattle, de uma vacina experimental. Na quinta-feira, Trump divulgou os bons resultados da droga hidroxicloroquina, que pode ser aprovada em breve pelo FDA (órgão equivalente à Anvisa). O desenvolvimento em ritmo recorde da vacina foi possível porque os pesquisadores usaram como referência estudos realizados durante duas outras síndromes respiratórias, parecidas com o coronavírus, e que se espalharam pelo planeta: a Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave), que surgiu na China em 2002, e a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), originária da Arábia Saudita, em 2012.

A corrida pela imunização, além de bilionária, é global. Na cidade chinesa de Wuhan, onde a doença foi disseminada para o mundo, serão iniciados testes em 108 humanos pela empresa CanSino Biologics. O aval para o início dos testes já foi dado pelo governo do presidente Xi Jinping. Um medicamento japonês, produzido pela Fujifilm Toyama Chemical e voltado para a gripe, tem apresentado resultados eficazes na recuperação de infectados pelo coronavírus. Os testes estão sendo feitos com 340 moradores da cidade chinesa que foi o epicentro da crise. Estima-se que haja pelo menos 15 testes para produção de vacinas no mundo. O número, no entanto, muda diariamente, com mais recursos anunciados por governos e pelas indústrias, num ritmo semelhante ao crescimento dos casos e da preocupação com o contágio. O impacto é tão imprevisível que políticos americanos chegaram a comparar o desafio de agora com o enfrentado durante os atentados às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, a Segunda Guerra Mundial e a pandemia da gripe espanhola, em 1918.

 

A União Europeia irá destinar 80 milhões de euros (R$ 450 milhões) para apoiar o laboratório CureVac na produção de possível vacinação contra a proliferação do coronavírus. A empresa chegou a dizer que está a “poucos meses” de apresentar resultado concreto para iniciar os testes. A chanceler alemã Angela Merkel, que também garantiu recursos para a pesquisa, chegou a reclamar publicamente de tentativa de Trump em subsidiar os estudos para garantir os direitos exclusivos da possível droga contra a Covid-19.

Nos Estados Unidos há ainda outro estudo avançado para evitar o contágio da população. Karla Alcazar, CEO da gigante farmacêutica americana Eli Lilly no Brasil, falou à DINHEIRO sobre o início do desenvolvimento, no laboratório da companhia em Indianápolis (EUA), de um medicamento para tratar e prevenir a doença causado pela coronavírus. A pesquisa ocorre em parceria com a startup AbCellera e a nova droga deve ser testada em humanos em quatro meses (leia entrevista nas páginas 34 e 35). No Brasil há 67 anos, a farmacêutica anunciou em dezembro de 2018 o fechamento de sua única fábrica no País. Segundo a empresa, será mantida apenas a operação de venda de medicamentos e não mais a produção.

ANTICORPOS Projetos para desenvolver vacinas são complexos e custosos. No caso da Eli Lilly, estudos iniciais foram feitos a partir de amostra de sangue de um dos pacientes recuperados nos Estados Unidos. A análise, concluída sete dias após o indivíduo estar curado, envolveu mais de 5 milhões de células imunes para detectar as que produziam anticorpos e, consequentemente, ajudariam a neutralizar o vírus. Na etapa seguinte, foram identificadas mais de 500 sequências únicas de anticorpos totalmente humanos. Os pesquisadores irão rastrear quais desses anticorpos são eficazes na neutralização do coronavírus. A companhia não revela o total investido especificamente na pesquisa, mas afirma que são destinados 25% do faturamento global em pesquisa e desenvolvimento, o que equivale a cerca de US$ 5,5 bilhões (R$ 28,6 bilhões). Na Austrália, cientistas disseram ter identificado pela primeira vez o modo como o sistema imunológico combate o coronavírus, algo fundamental para a criação de uma vacina.

No Brasil, o cenário de preocupação é crescente. A população tem acompanhado, perplexa e atônita, a disparada dos casos de contaminação. Até as 14h30 da quinta-feira 19 foram confirmados seis óbitos e mais de 500 casos. O governo do Rio de Janeiro proibiu a entrada de banhistas nas praias. Em São Paulo, foram fechados shoppings, comércios e suspensas as aulas em escolas e universidades, além de eventos de maior porte. Mais de 30% dos paulistanos deixaram de usar transporte público, com muitas empresas adotando o trabalho remoto. Foram implementadas medidas para o isolamento social do público considerado de risco: idosos, doentes crônicos e imunossuprimidos (como pacientes de câncer).

Um dia antes do anúncio da primeira morte por coronavírus no Brasil, na terça-feira 17, o governo federal adotou medidas que, na avaliação do ministro Paulo Guedes, podem ser uma espécie de vacina econômica para conseguir manter, mesmo que num ritmo menor, a roda girando no País. Serão R$ 83,4 bilhões para a população mais vulnerável (como abono e inclusão no Bolsa Família) e R$ 59,4 bilhões para manutenção de empregos, além da decisão de zerar alíquota de importação para produtos médico-hospitalares até dezembro (leia mais sobre o pacote à página 20). O ministério da Saúde também destinou R$ 424 milhões aos estados – os maiores valores são para São Paulo (R$ 92 milhões), Minas Gerais (R$ 43 milhões) e Rio de Janeiro (R$ 34 milhões) – para custeio e ações na saúde pública. Para o SUS, também virá repasse do saldo do DPVAT, que soma R$ 4,5 bilhões.

Com as ações anunciadas, o governo federal age para tapar o rombo causado pela pandemia. Quanto ao empenho para auxiliar pesquisas científicas sobre vacinas e medicamentos e os gastos em prevenção, a conta é bem menor. Exemplo disso é a portaria publicada no dia 11, assinada pelo ministro Marcos Pontes, de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, que cria o Comitê de Especialistas Rede Vírus, envolvendo cientistas e laboratórios brasileiros e destina R$ 10 milhões para pesquisas sobre o vírus. O valor é quase 40% menos dos R$ 16 milhões a que cada um dos 513 deputados federais tem direito a apresentar em emendas no Orçamento da União deste ano. Também é muito inferior aos R$ 75 bilhões que serão oferecidos pela Caixa Econômica Federal como socorro a bancos médios e para capital de giro.

ATÉ 2021 Ainda assim, pesquisadores se esforçam para que o Brasil entre, de fato, nessa corrida contra a Covid-19, ainda que com recursos insuficientes. E resultados iniciais já aparecem. No laboratório de imunologia do Instituto do Coração (Incor), da Universidade de São Paulo (USP), pesquisa coordenada pelo médico Jorge Kalil deve estar pronta para testes em humanos no início de 2021. “Começamos o trabalho em fevereiro e ainda estamos na fase de laboratório, com análises in vitro. Os testes em animais devem começar daqui a dois ou três meses”, diz Kalil, que não prevê o início da produção em menos de dois anos. “Precisamos fazer os testes numa planta-piloto até termos a confirmação de quem poderia produzir.”

Na pesquisa realizada no Incor pelo time de especialistas comandado por Kalil são criadas em laboratório partículas semelhantes a vírus (VLPs, que em inglês significa virus like particles). Elas possuem estrutura, mas não têm material genético do vírus, por isso não se multiplicam. A partícula, criada com fragmentos da proteína do vírus, é introduzida no sistema imunológico para produção de anticorpos e, assim, evitar a contaminação pelo coronavírus. “As pessoas que contraíram a doença poderão estar imunes, porque irão produzir anticorpos que vão neutralizar o vírus”, afirma Kalil.

A fase inicial tem, por ora, míseros US$ 50 mil, e está sendo bancada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Kalil acredita que obterá mais US$ 150 mil de fomento para as primeiras etapas. Ao todo, o especialista imagina que serão necessários R$ 500 milhões (US$ 97 milhões) para a conclusão da vacina – 485 vezes mais que o dinheiro que Kalil estima ter na primeira fase. Mas ele acredita ter o argumento. “Em 2016, quando solicitei R$ 300 milhões para estudo da vacina contra a dengue, no período em que dirigi o Instituto Butantan (em São Paulo), sensibilizei o governo federal, por meio da direção do BNDES”, diz Kalil. “Agora vou buscar financiamento de novo no banco, que poderia receber royalties pela comercialização. Esse modelo se encaixa perfeitamente nesse trabalho. Acredito ser a melhor maneira.”

“Estamos na fase de laboratório, in vitro. Os testes em animais devem começar daqui a dois ou três meses.” Jorge kalil, médico que lidera as pesquisas da vacina no INCOR. (Crédito:Luis Ushirobira)

Para facilitar o diagnóstico e reduzir a presença de pessoas em postos de saúde e hospitais, o Ministério da Saúde decidiu antecipar a Campanha Nacional de Vacinação contra a gripe (que não protege contra o coronavírus), da segunda quinzena de abril para a próxima segunda-feira 23, quando serão imunizados idosos a partir de 60 anos e trabalhadores da saúde. Duas semanas depois, entram professores e profissionais de segurança e salvamento. A partir de 9 de maio, a imunização será em crianças de 6 meses até cinco anos e 11 meses, doentes crônicos, pessoas com 55 anos ou mais, grávidas, mães no pós parto, população indígena e portadores de condições especiais.

As 75 milhões de vacinas foram produzidas pelo Instituto Butantan. Isso significa que um em cada três brasileiros será vacinado este ano. O diretor do instituto, Dimas Tadeu Covas, afirma ter condições de produzir a vacina no momento em que os primeiros estudos sejam concluídos e considerados prontos para imunizar a população. “O Butantan tem inúmeras parcerias ao redor do mundo. A intenção é incorporar a produção de vacina na nossa fábrica de forma rápida, quando for apresentada algum resultado concreto”, diz Covas. “Há estudos avançados em vários países, mas não acredito que isso aconteça em menos de um ano e meio.” Ele estima em 25 milhões de doses a capacidade de produção para a vacina contra o novo vírus.

O que não se sabe ainda é se a corrida dos pesquisadores será rápida o suficiente para frear as mortes e o enorme impacto na economia global provocado pelo isolamento social e pânico ao redor do mundo. Para isso, o exemplo das autoridades – sem minimizar a crise sanitária ou considerar a preocupação como uma “histeria” – é fundamental para que a população possa seguir e atender as recomendações. “Acredito que essa crise dure pelo menos cinco meses, mas é necessário que as medidas sejam eficientes”, diz o diretor do Butantan. “O agente público precisa ter responsabilidade para evitar mais mortes”, conclui. Recado dado ao Palácio do Planalto.,

ENTREVISTA
Karla Alcazar, ceo da Eli Lilly no Brasil

“Temos de entender que a desaceleração da curva de contágios está em nossas mãos” (Crédito:Divulgação)

Dinheiro – Como a senhora enxerga a pandemia que o mundo vive por conta do coronavírus?
Karla Alcazar – Para mim, está muito claro que estamos passando por uma crise global que nunca tínhamos visto. A situação não é simples. A indústria farmacêutica está bem posicionada para, com os governos, lutar contra esse vírus.
A Lilly está atuando em investigar tratamento contra o coronavírus, mas não é a única que neste momento faz isso. As empresas estão reagindo rapidamente. Acreditamos que em quatro meses vamos testar a vacina em humanos.

Quando estará disponível?
A conclusão não será rápida, possivelmente no fim do próximo ano. Mas esse é o caminho, de buscar tratamento. No caso do coronavírus, a investigação é dupla, já que além de tratamento estamos focando na prevenção. Nesse momento, estamos estudando os anticorpos.

A decisão do governo de zerar a importação para produtos médico-hospitalares foi acertada ?
Isso faz parte do trabalho desenvolvido pelo governo brasileiro a favor da população. Nesse momento, qualquer medida para assegurar que pacientes consigam acesso aos produtos para tratar as doenças é importante.

A pesquisa ocorre em Indianápolis, EUA. Como o Brasil se situa nesse desenvolvimento?
Temos operações de pesquisas clínicas no Brasil em todas as áreas terapêuticas em que atuamos, como oncologia, imunologia, diabetes, neurociência e isso nos coloca em posição de destaque no mercado global. Este ano seremos o maior mercado da América Latina, ultrapassando o México e estamos no top 10 no mundo. Também registramos crescimento de dois dígitos nos últimos anos, o dobro da média da indústria, que se manterá em 2020. Crescemos 17% de 2018 para 2019 e esse crescimento veio de produtos novos, dos 15 lançamentos nos últimos dois anos, com 60% do faturamento vindo da receita desses produtos.

Testes em humanos começaram a ser feitos nos Estados Unidos na última semana de uma vacina experimental. Como a senhora enxerga essa ação?
De forma muito positiva. Isso mostra como indústria está dedicada a encontrar solução para vencer esse vírus. Toda pesquisa vai ajudar. Dentro do Brasil também temos cientistas importantes que podem contribuir muito.

O que a companhia está fazendo para proteger os funcionários?
Desde o início da crise, reforçamos que nossos objetivos mais importantes eram cuidar de nossos funcionários e proteger nossas operações para assegurar que os pacientes mantenham seus tratamentos. No Brasil, temos cerca de 600 colaboradores e desde a semana passada nossas equipes da área adminstrativa e profissionais que fazem visitas médicas estão em home office. Estamos acompanhando as decisões do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e sempre focando a proteção de
nossos funcionários.

O Brasil já registra mortes e os números de casos disparam. Na sua avaliação, as autoridades estão tomando as medidas certas?
O que temos de entender é que a desaceleração dessa curva está nas nossas mãos. Temos que ficar cientes que ficar em casa hoje pode salvar vidas.