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A bilionária rota do futuro

As montadoras aceleram lançamentos de carros elétricos, enquanto empresas de energia, redes de postos e até uma hidrelétrica estruturam projetos para a nova revolução da mobilidade

A bilionária rota do futuro

Na semana passada, enquanto as principais montadoras globais apresentavam no Salão do Automóvel de São Paulo seus carros elétricos como as grandes apostas para o futuro da mobilidade, o executivo português Miguel Setas, presidente da gigante de energia EDP no Brasil, confirmava um contrato de aquisição de cinco modelos BMW i3, movidos 100% a eletricidade, em um primeiro momento, para uso exclusivo da diretoria da companhia. “Os veículos elétricos não são inovações para o futuro, são uma realidade para o presente”, afirmou Setas à DINHEIRO, sem esconder a ansiedade e empolgação com a chegada, nas próximas semanas, dos novos veículos na frota da empresa. A iniciativa de Setas no País está em sintonia com o plano global da EDP de substituir, em até cinco anos, toda a frota da companhia movida a combustíveis convencionais. “Estamos no início de uma revolução no perfil da mobilidade, em que os motores elétricos serão os protagonistas da mudança”, disse o executivo.

Helder Boavida, presidente da BMW: a montadora alemã vai lançar 25 veículos elétricos e híbridos até 2025 em todo o mundo

A julgar pelos projetos em curso, a eletrificação da mobilidade não deve, de fato, demorar a acontecer. Diversas empresas, como a Usina de Itaipu, a rede de postos Ipiranga, distribuidoras de energia como CPFL, Eletropaulo e a Companhia Paranaense de Energia (Copel), além das fabricantes de automóveis, é claro, estão empenhadas em popularizar os carros recarregáveis na tomada. A própria EDP construiu, em parceria com a BMW, o primeiro e maior corredor elétrico da América Latina, ligando as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Em um trajeto de 430 quilômetros, na Rodovia Presidente Dutra, seis postos de recarga oferecem eletricidade gratuita para veículos elétricos. “Este é apenas o primeiro de vários projetos que já estamos estudando”, disse Setas. A ideia, segundo ele, é replicar o sistema de recarga em outras rodovias importantes do Brasil, principalmente no interior de São Paulo. “A demanda por carros elétricos vai crescer na medida em que a infraestrutura de recarga se expandir.”

Um projeto semelhante está sendo tocado pela Copel com Itaipu. Até o ano que vem, dez pontos de recarga ligarão Foz do Iguaçu a Paranaguá, um percurso de 700 quilômetros. “Como empresa, temos um papel fundamental no desenvolvimento de novas tecnologias e no incentivo a alternativas ambientais no planeta”, disse o diretor-geral da Itaipu Binacional, Marcos Stamm. Em todo o planeta, a revolução do carro elétrico já movimenta alguns bilhões de dólares. Atualmente, há 3 milhões de automóveis desse tipo em circulação no mundo, sendo que dois terços do total estão em território chinês, segundo a associação nacional dos fabricantes de automóveis da China. E com razão. O governo de Pequim, que se diz cada vez mais preocupado com os impactos da poluição nas metrópoles do país, concedeu US$ 1 bilhão em subsídios ao setor no ano passado, e ajudou a vender mais de 200 mil carros elétricos. “O Brasil está moldando seu próprio formato nesse mercado, com potencial não só para o motor 100% elétrico, mas também o híbrido a etanol”, disse Tatiana Bruce, pesquisadora da FGV Energia, durante um seminário sobre o tema, em São Paulo.

Rafael Chang, presidente da Toyota: depois de confirmar o Prius e Lexus com motores híbridos a etanol, o executivo aposta que esse mercado vai deslanchar nos próximos anos

Essa constatação de que o carro elétrico pode – e deve – conviver em harmonia com outras tecnologias, principalmente o etanol, tem motivado a rede de postos Ipiranga a investir. A empresa possui, atualmente, 50 postos de combustíveis equipados com bombas de recarga de elétricos em todo o País. Segundo o diretor de varejo, Jeronimo Santos, o plano é intensificar a instalação dessas estruturas. “Temos convicção de que, por muitos anos, o carro elétrico terá uma convivência harmoniosa com os carros a combustão”, diz o executivo. “Nosso ritmo de expansão será proporcional ao aumento da demanda.”

Jeronimo Santos, da Ipiranga: a rede vai acelerar a instalação de bombas de recarga de carros elétricos em todo o País

 

E a demanda vai crescer exponencialmente. Isso está evidente no maior evento automotivo da América Latina, o Salão do Automóvel de São Paulo. Desde a semana passada, uma verdadeira enxurrada de anúncios de carros elétricos tem ditado o ritmo do evento. A Audi venderá a partir de 2019 o E-tron, o seu primeiro utilitário 100% elétrico. A Toyota, que já vende no Brasil em torno de 250 unidades ao mês do híbrido Prius, terá motores que combinam combustão de etanol e eletricidade também para modelos da linha de Lexus, de luxo. “Na próxima década, o mercado de veículos elétricos vai deslanchar no Brasil”, afirma Rafael Chang, presidente da Toyota do Brasil.

A General Motors confirmou a vinda do Chevrolet Bolt, e a Nissan vem com Leaf, o carro elétrico mais vendido do mundo, que já pode ser encomendado por clientes brasileiros. A Hyundai trouxe o Saga EV, um SUV compacto elétrico. Já a Renault mostrou o seu Zoe, que será o mais “acessível” da categoria, por R$ 150 mil. Também a Volkswagen, com o Golf, e a Ford, com o Fusion, terão versões com a tecnologia híbrida plug-in, que funciona de duas formas: ou um motor a gasolina carrega o elétrico ou o carro se move com baterias carregadas na tomada, mas em curtas distâncias. E a BMW, pioneira com o i3, prometeu lançar seis novos modelos elétricos até 2021, incluindo o seu híbrido plug-in, o i8 Roadster.

Marco Silva, presidente da Nissan: a partir de 2019, a montadora japonesa colocar no mercado brasileiro seu carro elétrico Leaf , o mais vendido no mundo

 

Os híbridos e elétricos respondem por apenas 0,2% das vendas no Brasil, mas as montadoras esperam que incentivos fiscais possam ajudar o segmento a se desenvolver na próxima década. Na quarta-feira 7, o Congresso Nacional aprovou o programa conhecido como Rota 2030 — a política de incentivos à inovação no setor automotivo que dá isenção de IPI e IOF a carros elétricos. “Em 2025, aposto que 15% do mercado brasileiro será de modelos híbridos e elétricos”, diz Marco Silva, presidente da Nissan no Brasil. “A Nissan é cada dia mais elétrica e vamos ajudar na eletrificação do mercado brasileiro”, diz Silva. A montadora japonesa, que possui 25 unidades do seu veículo Leaf circulando por São Paulo e pelo Rio de Janeiro como projeto-piloto, agora trará a nova geração do seu modelo ao Brasil ao preço de R$ 178 mil, que já será comercializado para o consumidor comum, a partir do primeiro semestre de 2019.

A alemã BMW também é uma pioneira. Ela começou a trabalhar com veículos elétricos já em 2011 — inicialmente, com modelos híbridos como o i3, que já vendeu 300 unidades no País. O próximo passo está em trazer o i8 Roadster. E o seu plano de lançamentos globais prevê 25 modelos de automóveis elétricos ou híbridos até 2025. “Só a iniciativa privada poderá incentivar essa evolução no Brasil. Aqui tem carros híbridos que chegam a pagar mais impostos que veículos de combustão”, diz o presidente da BMW, Helder Boavida, que aguarda incentivos governamentais para ampliação do segmento. “Estamos estudando novas regiões do Brasil para receber corredores elétricos.” Trechos no interior de São Paulo são fortes concorrentes para esses projetos.

Miguel Setas, presidente da EDP: o executivo pretende consolidar a empresa como uma referência em infraestrutura de recarga para carros elétricos em rodovias brasileiras

A Mercedes-Benz promete que a partir de 2020 todos os seus compactos Smart serão totalmente elétricos. O Smart EQ ForFour, um modelo voltado à circulação dentro das cidades, será o modelo para essa transição. Segundo Philipp Schiemer, presidente da montadora no Brasil, o carro pode chegar ao Brasil logo que estiver disponível, representando um retorno do Smart ao País. “Como é um carro pequeno e mais urbano, ele rende mais dentro das cidades. Diferentemente de um carro com motor a combustão que consome menos energia ao trafegar na estrada, para o elétrico quanto mais farol é melhor”, diz Evandro Cunha, diretor de marketing da Mercedes-Benz.

Isso acontece porque o sistema de aceleração e frenagem ajuda a carregar a bateria elétrica. Com autonomia de 150 quilômetros, o que pode servir para dois bons dias de uso dentro de uma grande cidade, o Smart pode ser recarregado numa tomada caseira de 220 volts em oito horas. Seja pela empolgação das montadoras com o lançamento de novos carros, seja pela disposição das empresas para investir em mais infraestrutura para o setor, não faltará combustível, nem energia, para a consolidação do mercado de elétricos no Brasil.