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A Bayer entra na fila do SUS

A gigante farmacêutica alemã projeta dobrar, em dois anos, a participação das vendas para o setor público, que hoje responde por 25% do faturamento da companhia no Brasil. lançamentos de remédios de alta complexidade e mudança da sede regional,dos EUA para São Paulo, mostram a confiança da empresa no país.

Crédito: Gabriel Reis

"Tendemos a lançar os medicamentos antes no Brasil do que no resto da América Latina”. Adib Jacob, presidente da divisão farmacêutica da Bayer para a América Latina. (Crédito: Gabriel Reis)

A gigante farmacêutica alemã Bayer sabe exatamente qual o caminho que pretende seguir para manter o crescimento no Brasil: entrar na fila do SUS. A estratégia pode parecer pouco comum para uma empresa que está entre as maiores fabricantes de medicamentos do mundo, mas tem um motivo claro. É no Sistema Único de Saúde que está o maior investimento do governo federal na aquisição de medicamentos. Em 2018, a injeção dos cofres públicos para manter os hospitais abastecidos de remédios foi da ordem de R$ 14,5 bilhões. A Bayer sabe disso e quer uma parte dessa receita. Aumentar sua presença no SUS é fundamental para que a empresa consiga dobrar, em dois anos, as vendas de remédios de alta complexidade para o mercado institucional (governos e planos de saúde). Hoje, esse nicho responde por 25% do faturamento. A Bayer planeja obter dali 50% de tudo que vende – e o governo federal é o principal comprador desse tipo de remédio.

O sinal mais claro de confiança do laboratório no Brasil é a recente mudança física da sede regional da divisão farmacêutica da América Latina da Bayer, do estado de Nova Jersey (EUA), para São Paulo. Com a mudança, Adib Jacob, que já comandava a operação brasileira, passou a acumular o comando da divisão farmacêutica no Brasil e na América Latina. Segundo ele, vários fatores contam a favor do País para justificar a troca do local de comando da companhia nos países das Américas (com exceção de EUA e Canadá). Entre eles está a questão logística. Ir de São Paulo a Buenos Aires ou Santiago, por exemplo, é muito mais rápido do que partir do nordeste americano. E tempo é dinheiro. Sozinha, a unidade do Brasil rendeu à Bayer 500 milhões de euros em 2018, exatamente a metade do faturamento da divisão farmacêutica da companhia na América Latina, que somou 1 bilhão de euros.

 

A logística ajuda, mas não é tudo. O Brasil também tem se destacado na velocidade das aprovações de medicamentos, principalmente os de alta complexidade e ligados a doenças raras, na maioria dos casos atrás apenas do FDA, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) dos americanos. “A empresa não tomaria essa decisão sem confiar, em termos de contexto macroeconômico, político, no Brasil, que representa para a Bayer 50% do mercado da América Latina. Como consequência disso, tendemos a lançar os medicamentos antes no Brasil do que no resto da América Latina. Se aprende com Brasil e propaga para os outros países”, afirma Jacob (leia a entrevista no quadro em destaque).

Segundo relatório da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), as vendas do setor no Brasil avançaram 11% em 2018, gerando negócios de R$ 76,2 bilhões. No caso da Bayer, o resultado foi ainda melhor. O executivo não revela os números, mas afirma que a velocidade de crescimento da empresa no País chega ao ser o dobro da média nacional.

Para avançar ainda mais, a Bayer planeja que ainda este ano a participação do mercado institucional chegue a 35% das vendas. Sete novos produtos, recém aprovados pela Anvisa, irão contribuir para essa meta. Eles atenderão pacientes com câncer colorretal, câncer de próstata e hemofilia, além de serem indicados para tratamentos da saúde feminina. “Vamos ampliar. Nosso portfólio começa a mudar para especialidades, onde o comprador tende a ser a operadora de saúde e o poder público em várias instâncias”, diz Jacob. “Hoje são 75% no segmento farmacêutico, muito amparada pelo Xarelto e contraceptivos, e 25% para o institucional. Estamos lançando produtos focados no mercado institucional e é daí que vem o crescimento exponencial”. Hoje a empresa tem duas formulações incorporadas na cesta de produtos para fornecimento da rede pública de Saúde. O Adempas, desenvolvido para hipertensão pulmonar, pode ser o terceiro. A consulta pública para incorporação foi encerrada no dia 16 deste mês e o executivo demonstra otimismo no resultado.

SEGURANÇA­­­­­“Quando uma empresa global escolhe o mercado brasileiro como sede é sinalização clara da crença no que estamos vivendo agora, com segurança jurídica e movimentos governamentais no sentido de desburocratizar ações”, diz a presidente-executiva da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfama), Elizabeth de Carvalhaes. Ela acredita no crescimento da indústria farmacêutica justamente com o olhar nas novas terapias. “Entendo que a aprovação da reforma da Previdência também foi outra mensagem positiva e forte para o mercado mundial. Ainda assim, temos que avançar na legislação tributária para diminuir os custos e ampliar o acesso de medicamentos aos doentes”, Afirma.

Outro indicador sólido do crescimento da Bayer é a companhia ter conseguiu alcançar a liderança do ranking dos medicamentos mais vendidos do Brasil. Até o ano passado, o Dorflex, da concorrente francesa Sanofi, era o líder em receita. Perdeu o posto para o Xarelto, remédio da companhia alemã para tratamento cardiovascular que faturou R$ 547 milhões. Os dados são baseados no preço de compra de farmácia (PPP). No preço-fábrica (valor máximo permitido para venda), os valores passam de R$ 623 milhões – e Jacob acredita que o atual líder tem potencial para chegar a R$ 1 bilhão. No ano passado foram vendidas 3,4 milhões de caixas, o que significa cerca de 86 milhões de comprimidos ofertados aos pacientes brasileiros.

DROGARIA: Em 2019, o medicamento Xarelto, da Bayer, alcançou o primeiro lugar em faturamento no Brasil, desbancando o popular Dorflex, da concorrente francesa Sanofi. (Crédito:Marcelo Justo)

Com 50 medicamentos em comercialização no Brasil, a Bayer hoje tem em estudos no mundo 50 princípios ativos, que deverão estar disponíveis a pacientes nos próximos anos. O País ainda não conta com centros de pesquisa da empresa, embora o presidente não descarte, num horizonte ainda um pouco distante, esta entrada. “Eles já estão na fase de testes com humanos. Acredito que o Brasil possa chegar a esse patamar, mas ainda falta continuidade em investimentos, tanto públicos quanto privados. Temos 15 centros no mundo e estamos abertos. Hoje ainda não está no horizonte, mas é algo que pode ser pensado no futuro”, reconhece Jacob.

A confiança no Brasil não está necessariamente em alinhamento a governo A ou B, seja federal ou estadual, mas na solidez, segundo o presidente, das instituições que garantem o investimento da indústria farmacêutico no mercado local, como Anvisa e CMED. Há 124 anos no País, a empresa germânica, que chegou poucos anos após a proclamação da República, presenciou renúncia, deposição e dois processos de impeachment de presidentes da República, além de inúmeros planos econômicos (bens e malsucedidos). Conseguiu resistir às fortes ventanias – e ainda crescer. Talvez por essa experiência em não se abalar com solavancos em terras brasileiras é que a companhia tenha mantido há tanto tempo um dos slogans mais longevos do País, criado pelo publicitário pernambucano Manuel Bastos Tigre. Em 1922, ele escreveu aquela que se tornaria uma assinatura irrepreensível para qualquer empresa emprenhada em passar confiança ao consumidor: “Se é Bayer, é bom”.

ENTREVISTA
Adib Jacob

“O setor farmacêutico vai continuar crescendo, principalmente pela inovação. Estou confiante com o futuro do Brasil.”

Como crescer as vendas de medicamentos ao SUS e, com isso, garantir maior receita do setor público para a empresa?
Temos excelente relação comercial com todas as esferas de governo. E eu te digo como brasileiro e presidente que tenho visão muito positiva do Sistema Único de Saúde. E, sim, nós vemos uma grande oportunidade de fornecimento de medicamento de alto custo. Claro que não há dinheiro para tudo, mas estão sendo incorporados produtos importantes. Hoje temos dois incorporados no programa de reembolso federal, o Betaferon (para esclerose múltipla) e o Eylea (trata edema macular diabético), que foi incorporado em outubro e que terá a primeira compra do governo federal no meio do ano. Há dez anos, a empresa estava muito focada em farmácia. E nossa área de pesquisa começou a perceber e desenvolver novos produtos para tratamentos de câncer, problemas oftalmológicos e os produtos começaram a chegar. Não estamos esquecendo mercado das farmácias e sim amplificando o institucional. Esse é o ponto. E a Bayer está muito bem equilibrada. Em 2020, o mercado institucional já deve representar 35% da divisão farmacêutica da Bayer, fruto dessa incorporação e de sete lançamentos para esse mercado. O faturamento na América Latina é da ordem de 1 bilhão de euros e vamos crescer.

A política pode atrapalhar as relações da empresa com o setor público?
O SUS, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) são instituições hoje com governanças muito sólidas, com corpo técnico muito bom. Claro que dependem de verba aprovada pelo Congresso, mas elas são muito maduras, não tão afetadas pelos ciclos políticos. Por ser uma indústria tão estratégica, a farmacêutica é pouco dependente de variações de PIB, de questões políticas. O setor vai continuar crescendo, principalmente pela inovação, independentemente de soluços macroeconômicos. Estou confiante com o futuro do Brasil.

As farmácias ainda são os maiores compradores da Bayer. Como fazer com que esse segmento não seja afetado pela nova visão estratégica da empresa?
Temos ótima relação com grandes redes e as que estão unidas em cooperativas. E, independentemente da geografia ou condição socioeconômica, nossos produtos estão muito presentes nas unidades. Não trabalhamos só grandes centros. O Xarelto está presente certamente em mais de 30 mil farmácias no Brasil. Se o doente for numa farmácia, não acha, vai a outra e não acha o produto, ele adquire outro com o mesmo princípio ativo. E esse é o nosso trabalho, de garantir acesso ao medicamento prescrito.

Quantas moléculas estão hoje em pesquisa e qual a chance de o Brasil sediar um dos centros de estudo?
Cerca de 50. Acredito que o Brasil possa chegar a esse patamar, mas ainda falta continuidade em investimentos, tanto públicos quanto privados. Temos 15 centros no mundo e estamos abertos. Hoje ainda não está no horizonte, mas é algo que pode ser pensado no futuro.

Com todo esse cenário, qual é a nova cara da Bayer no Brasil?
Inovação, com muitos medicamentos em áreas importantes. E ser sólida no institucional e nas farmácias, com crescimento dinâmico sustentado nos próximos anos.

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