Finanças

A batalha de Lisboa

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O ataque foi desencadeado em várias frentes. Por três vezes o Unibanco despachou jatinhos até Portugal para negociar, junto à estatal Caixa Geral de Depósitos (CGD), a compra do Bandeirantes. O ministro das Finanças, Joaquim Augusto de Pina Moura, e dois ex-ministros da área econômica também receberam visitas dos diretores da instituição brasileira. Para apoiar o avanço, o Commerzbank, sócio minoritário dos Moreira Salles, também deu uma mãozinha. Arno Noellenburg, que representa o banco alemão no Brasil, convenceu o presidente de sua matriz a enviar uma carta à CGD vendendo o peixe dos parceiros. Francisco Murteira Nabo, presidente da Portugal Telecom, associada ao mesmo tempo com o Unibanco e com a Caixa Geral, completou o lobby pelo outro flanco.

O esforço era mesmo necessário. Na disputa pelo Bandeirantes, com R$ 9,1 bilhões em ativos, estavam o Bradesco, o HSBC, o Santander e o Itaú ? que tem, entre seus sócios, a própria CGD, e era tido como o favorito no leilão informal. O Unibanco, porém, caprichou na diplomacia. Nas conversas, seus representantes lembravam de laços históricos com a terrinha. Em 1972 a instituição havia firmado um acordo com o Banco Português Atlântico, acreditando que assim abriria as portas para o mercado lusitano. A parceria foi encerrada traumaticamente três anos depois, quando a Revolução dos Cravos nacionalizou todos os bancos e expulsou os estrangeiros do mercado. A recordação serviu para sensibilizar os interlocutores (ligados ao Partido Socialista) com a sugestão de um relacionamento feliz interrompido por uma briga desnecessária.

Chuva de adendos. As negociações, intermediadas pela corretora americana Merril Lynch, tiveram lances dramáticos. A última proposta foi recebida na quarta-feira, 5, quando ficou claro que a preferência era pelo Unibanco. Mas até o fechamento do negócio, na madrugada de domingo, houve mais de uma dezena de avanços dos outros candidatos, oferecendo aditivos contratuais e novos parágrafos a suas minutas. Quando o presidente da holding do Unibanco, Israel Vainboim, bateu o martelo com os portugueses, todos comemoraram com uma rodada de pastéis de nata. Para a instituição paulista a vitória significou acumular, em quatro meses, negócios maiores que a compra, em 1995, do Nacional, com R$ 9,5 bilhões em ativos. Com a aquisição do Credibanco, em março, e do Bandeirantes agora, o banco engorda R$ 10,9 bilhões, reduzindo à metade a distância que o separava do Itaú no ranking nacional. E a Caixa Geral de Depósitos consegue manter uma presença significativa no Brasil, o que era sua principal preocupação.

O que fez a balança pender definitivamente a favor do Unibanco foi o espaço que ele se dispôs a dar para os portugueses. Como acontece com os alemães do Commerzbank e os japoneses do Dai-Ichi Kangyo, os outros acionistas minoritários, eles terão um departamento só seu dentro da instituição dos Moreira Salles, dirigido por um executivo escolhido diretamente de Lisboa. ?A Caixa não queria deixar as empresas portuguesas abandonadas por aqui?, explica o ex-ministro Marcílio Marques Moreira, da Merrill Lynch, que assessorou a CGD na operação. Há um grande filão, aliás, a ser atendido: o das médias empresas lusitanas, que estão chegando aos punhados no mercado brasileiro e precisam de suporte financeiro.

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O Bradesco, que era guiado em suas incursões a Lisboa pelo ex-sócio Antonio Carlos de Almeida Braga, não fez grandes esforços para vencer o leilão. Estava concentrado na compra do Boavista. Já o Itaú deu um lance inferior ao da concorrência por um motivo simples: uma das jóias mais brilhantes do pacote do Bandeirantes, os créditos fiscais, simplesmente não lhe interessavam. O banco português possui quase 90% de seu patrimônio líquido em créditos tributários, que totalizam R$ 350 milhões. Mas o banco da família Setúbal, que adquiriu o Banerj e o Bemge recentemente, ainda levará de cinco a sete anos para aproveitar os créditos que recebeu dessas instituições. A situação, já inoportuna, se tornaria muito desagradável com a compra do Bandeirantes. Desde o início do ano o BC exige que, em função do volume desses créditos, o banco imobilize proporcionalmente seu capital.

O Unibanco, por sua vez, não titubeou em oferecer bem mais do que o valor de mercado. O Bandeirantes parecia feito sob medida para ele. Líder de mercado no Rio de Janeiro, o banco dos Moreira Salles aumenta sua participação em São Paulo e quadruplica o número de agências no Nordeste, seu ponto mais fraco. A região é tida como a nova fronteira para o crescimento dos bancos de varejo, porque a renda per capita ali cresce anualmente 50% acima da taxa nacional. A instituição engorda sua carteira de poupança em 42%. Sua rede de atendimento cresce 49%, ficando à frente do HSBC e do ABN-Real. E, finalmente, o Unibanco ultrapassa o Itaú em volume de operações de crédito ? critério que, em vários países, é levado em consideração para montar o ranking das instituições financeiras. Sua seguradora também cresce 39%, passando a 5o lugar no ranking, à frente da AGF. ?Os correntistas do Bandeirantes na maioria não têm seguros do banco, nem cartão de crédito, nem planos de capitalização. O Unibanco, que é forte nessas áreas, poderá vender esses produtos para eles?, explica Rafael Guedes, diretor da Fitch, empresa que faz classificação de risco de bancos.

Montado em dois cavalos. Restam dois nós a serem desfeitos. Há três anos o Bandeirantes adquiriu o quebrado Banorte, sob pressão do Banco Central. Seu ex-controlador, Jorge Baptista da Silva, não concordou e vinha tentando um acordo para receber mais dos portugueses que o adquiriram. Agora, Baptista anuncia que entrará na Justiça para tentar cancelar a venda, o que pode melar a operação com o Unibanco. E, mesmo que isso seja resolvido, a operação gerou uma outra incógnita no mercado. A CGD, que já possuía 8% do capital do Itaú, passa agora a ser dona de 14% do Unibanco. Analistas acham que, para ambas as casas, essa situação parece insustentável. Mas a CGD não está preocupada em resolvê-la tão cedo. ?Eles têm apostas em dois bons cavalos. Podem escolher com qual ficarão depois do leilão do Banespa?, comenta um banqueiro português. Não seria surpresa. A Caixa tem participações no capital de vários bancos portugueses e convive normalmente com isso. Na Espanha, o grupo também adquiriu três bancos pequenos.

Com a venda do Bandeirantes, 12a instituição privada do País em volume de ativos, vai-se fechando um ciclo nas finanças brasileiras. Os poucos bancos médios que restam ? Finasa, Sudameris e mesmo o Safra ? devem ser absorvidos por gigantes, nacionais ou estrangeiros. Na década de 80, antes da explosão globalizadora, pregava-se que havia sete bancos nacionais ?too big to fail? (?grandes demais para quebrar?). Três deles, Bamerindus, Nacional e Econômico, faliram. Outro, o Real, foi vendido para o ABN. No início do ano, uma tese defendida na USP pelo economista Alberto Borges Matias, diretor da Austin Asis, deu conta de que mesmo os grandalhões ainda não têm escala para competir a longo prazo com os gigantes globais. O desdobramento é que, depois do leilão do Banespa, os bancões deverão se preparar para valer para comprar ou ser comprados. Na semana passada, o Unibanco ingeriu uma dose maciça de vitaminas para enfrentar esse desafio.

 


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