Editorial

A banca volta a sorrir para Lula

Crédito: NELSON ALMEIDA

São cada vez mais frequentes os sinais do mercado financeiro não de apoio ao candidato petista na corrida presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva, mas, ao menos, de conformismo com a possibilidade de ele realmente vencer a eleição. A última das eloquentes avaliações nesse sentido partiu de ninguém menos que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Em uma entrevista na Globonews, dias atrás, o titular do Banco, perguntado se uma eventual vitória de Lula já estaria “precificada”, sem risco de maiores turbulências, apontou que sim. Que o mercado parece menos receoso e que tem acontecido, mais recentemente, o que ele chama de uma “eliminação de vários preços que mostram risco da passagem de um governo para o outro”.

E reiterou: “a gente vê, quando olha esses preços, que eles atenuaram. Significa que o mercado passou a ser menos receoso”. Não é uma interpretação isolada, muito menos descolada da realidade. Antes mesmo de Campos, o investidor Luis Stuhlberger, um dos grandes da praça, que comanda a Verde Asset Management, apontou que Lula é mais digerível, que não representa tanto o bicho papão de outros tempos até por que, como aponta a carta aos investidores emitida pelo seu grupo, “em praticamente todas as áreas de atuação o que se viu do atual governo foi um desastre”. Em outras palavras, a banca encara Bolsonaro efetivamente como o responsável por empurrar Lula à condição de preferido, no caso de uma disputa polarizada entre os dois. Não há como desconsiderar, o mercado normalmente move-se por mero pragmatismo. Operadores notam que o capitão foi capaz das mais absurdas afrontas à estabilidade e temem seguir nessa toada. Assim, o demiurgo de Garanhuns acabou por ficar mais palatável, apesar dos pesares. Segundo o sócio-fundador da gestora SPX, Rogério Xavier, “o estrangeiro tem uma perspectiva de melhora para o Brasil com Lula assumindo o poder”. A mesma percepção é verificada em diversos nichos sociais inclusive dentro do País. Em mais uma carta-manifesto, empresários, advogados e artistas resolveram organizar um movimento para que o petista Lula fature a disputa ainda no primeiro turno. O que diz o grupo: entre seguir no desastre e retomar a estabilidade democrática institucional, com o fim do negacionismo e da volta ao desenvolvimento, a segunda hipótese está mais visível na alternativa Lula. É uma antecipação de votos consolidados muito grande. Os financistas e praças de investidores, em especial, anseiam por previsibilidade. Não gostam da inquietude imposta a seus negócios por uma política intervencionista ao sabor das vontades de um capitão. Reclamam da algazarra nas regras dos combustíveis, da indefinição em privatizações como a dos Correios e a da Eletrobrás e, noves fora, não engolem a figura do Messias loroteiro. Para Bolsonaro em pessoa, mais do que a antipatia da banca, pesou fortemente o posicionamento de Campos sobre o tema. O Planalto viu como um balde de água fria o que, lá dentro, interlocutores habituais classificaram como “consentimento”.

Afinal, era o presidente do BC tido em alta conta, da tropa de aliados incondicionais do governo. A questão para Bolsonaro e sua entourage é confundir alinhamento com submissão e cancelamento de pontos de vista. Campos, apenas, refletiu e vocalizou o sentimento real encontrado na banca.

(Nota publicada na edição 1261 da Revista Dinheiro)