Entrevista

Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora da Unesco no Brasil

A agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável não será cumprida

Andressa Anholete

A agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável não será cumprida

Para representante da Unesco, o aumento da pobreza, do racismo, e uma iminente catástrofe educacional impedirão a conclusão dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Lana Pinheiro
Edição 17/09/2021 - nº 1240

A pandemia da Covid-19 colocou o mundo em um conflito. Se por um lado evidenciou que não há futuro sem um novo modelo econômico mais inclusivo e ambientalmente responsável, de outro atrasou a adoção das metas socioambientais estabelecidas pela Organização das Nações Unidas. Para reverter o cenário, a Unesco defende que é necessário agir. “É hora de estabelecer uma coalizão internacional pela recuperação global”, disse Marlova Noleto, diretora da entidade, à DINHEIRO.

DINHEIRO — Qual é a sua agenda à frente da Unesco Brasil?
MARLOVA JOVCHELOVITCH NOLETO — Escolhi dedicar minha vida a construir um mundo melhor, mais justo e inclusivo. Por trabalhar nas Nações Unidas, ainda tenho o privilégio de exercer minha escolha em uma perspectiva global. Confesso que é difícil realizar isso a partir de um lugar como o Brasil, que, a despeito de ter avançado muito em políticas sociais desde 1995, vive um período complexo, mas que como Unesco não vou comentar.

Você diria que é feliz na sua opção?
Sou realizada com a escolha profissional que fiz. Mas felicidade é um conceito coletivo. Não dá para ser feliz quando os outros ao nosso redor passam fome e têm seus direitos humanos violados.

Dados da ONU indicam que o Brasil é um dos países com os mais altos índices de depressão e ansiedade. Ainda assim há uma forte pressão para que as pessoas sejam felizes no trabalho. Essa cobrança é justa?
Acho que o conceito de felicidade é relativo. Estamos em um momento peculiar da história provocado por uma pandemia e isso afetou diversos pontos do convívio social e a saúde mental foi seriamente afetada.

Uma das principais agendas da Unesco é a educação. Com as escolas fechadas por tanto tempo, o que se esperar da área na pós pandemia?
Nós tivemos a maior interrupção do sistema educacional de toda a história. No auge da crise, isso impactou 1,6 milhão de alunos no mundo. Os problemas decorrentes dessa situação são muito sérios. Entre eles, atrasos cognitivos que devem ser encarados rapidamente para evitarmos uma catástrofe de aprendizagem. Mas há também impactos sociais, já que a escola tem um importante papel como integradora da rede social. A escola contribui também para redução de abusos, de violência doméstica e de segurança alimentar.

Como a sociedade pode se movimentar para evitar essa catástrofe de aprendizagem?
A Unesco lançou uma coalizão mundial pela educação. Aqui falamos da necessidade de um esforço internacional de cooperação entre os países e dentro dos países. É preciso agir e repactuar o compromisso com o financiamento da educação, revisar os currículos e investir em uma busca ativa para trazer crianças e jovens de volta para as escolas.

Como está a situação no Brasil?
Ficamos mais de 50 semanas com escolas fechadas. Agora é preciso trabalhar a base curricular para melhorar o aspecto cognitivo, já que o ensino remoto aconteceu de maneira muito desigual, e desenvolver as competências e habilidades socioemocionais que deixaram de ser exercidas durante o isolamento.

“O Brasil é a maior diáspora negra fora da África. Temos que assumir o compromisso de rever nossas práticas e acabar com a discriminação racial” (Crédito:Divulgação)

Qual o papel da iniciativa privada nessa retomada da educação?
Fundamental. E a contribuição pode vir de diversas maneiras. No Brasil temos vários exemplos. Algumas empresas fazem doações. Outras, parcerias. Um exemplo na Unesco é o trabalho que fazemos com Vale, Bradesco, BNDES e Universidade Federal do Rio de Janeiro para a reconstrução do Museu Nacional. É gratificante trabalhar com gigantes brasileiras que têm compromisso com avanços de boas práticas ESG.

As empresas brasileiras demonstram ações consistentes rumo à provocação de uma mudança social?
Existem empresas brasileiras que podem servir de exemplo para o mundo. Há uma preocupação no desenvolvimento de ações inovadoras e de resultados.

Muitas dessas ações não são apenas ações de marketing, o famoso greenwashing?
Há empresas com preocupações genuínas com as práticas ESG. Algumas sabem do impacto que têm e trabalham para compensar. Outras vão além. Cito o trabalho de pesquisa que fazemos com o Banco Itaú para geração de conhecimento sobre as favelas. Algumas empresas brasileiras estão na vanguarda de práticas ESG. Mas há muito a ser feito. Para ajudar a iniciativa privada, estamos trabalhando com a EB Capital para a tropicalização desses conceitos.

O que é esse projeto?
Temos que adaptar os conceitos ESG à realidade brasileira. Não dá para simplesmente importar os conceitos e aplicá-los. É preciso revisar as práticas ambientais, de consumo consciente e de desenvolvimento econômico para a realidade local.

Um país que enfrenta questões como racismo e pobreza, por exemplo?
O combate à pobreza e a desigualdade social são questões urgentes. O racismo é um tema que nos preocupa muito. O Brasil é a maior diáspora negra fora da África. Temos que assumir o compromisso de rever nossas práticas e acabar com a discriminação racial.

O empresário brasileiro está pronto para tomar decisões socioambientais mais responsáveis?
Promover um modelo de desenvolvimento econômico sustentável é imperativo. A pandemia mostrou que precisamos estabelecer novos padrões de produção e de consumo com menos impacto no meio ambiente e mais inclusão social. No Brasil, temos empresas muito ativas nesta agenda. Suzano, Klabin, Natura e Osklen são algumas delas. São precursoras do consumo consciente e da inserção de comunidades marginalizadas na cadeia produtiva. Podem servir de exemplo para o mundo.

Dentro desse conceito de desenvolvimento sustentável, como a Unesco enxerga o potencial da bioeconomia no Brasil?
O país que tem a Amazônia tem o dever de ser exemplo global em bioeconomia, em práticas e modelo de consumo sustentáveis. Neste momento, Unesco e o grupo LVMH (dono da marca Louis Vuitton) trabalham em um projeto na floresta para propor soluções em quatro frentes: ação climática e redução de riscos de desastres; ações integradas de conservação e desenvolvimento; conservação florestal com base nos conhecimentos tradicionais de povos indígenas e de comunidades locais acerca do combate aos incêndios; e restauração de sistemas hídricos e florestais. Também temos uma linha de trabalho que estimula o desenvolvimento sustentável por meio de formação de novas gerações que entendam esse novo imperativo ético e que trabalhem para o futuro do planeta.

Dessa crise sanitária emergirá uma sociedade mais consciente?
Não tenho dúvida. O mundo entendeu que os recursos naturais não são inesgotáveis.

Temos evidências desse mundo mais consciente? Há sempre o receio de que seja só discurso.
Há uma maior adesão das empresas à Agenda 2030. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) são um apelo global para garantir que as pessoas possam desfrutar da paz e das riquezas que a sociedade e que o planeta produzem de forma mais igualitária. Quando os países se comprometem com a Agenda, elas se comprometem com o desenvolvimento sustentável.

Como a Unesco avalia a evolução da Agenda 2030 no setor privado?
Dentro da ONU, o Pacto Global é a iniciativa que trata de como as empresas podem se engajar na adoção dos princípios da Agenda que foram derivados da Declaração Universal de Direitos Humanos, dos princípios da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção. O que vejo é um aumento de engajamento à Agenda no mundo inteiro, incluindo o Brasil, mas há dificuldades de implementação. Apesar dos avanços, a Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável não será cumprida em sua totalidade.

“Nós acreditamos no poder da ciência e da cooperação global. Foi essa combinação que nos permitiu ter vacinas em tempo recorde” (Crédito:Evandro Leal)

Quais são os entraves?
Como Unesco, posso falar do ODS 4 (Educação de Qualidade) que é o que se conecta com a nossa área de atuação. Como já falamos no começo, ele foi muito impactado pelo fechamento das escolas e esse atraso terá impacto em diversos setores.

Outra área de conhecimento correlata com grande impacto foi a cultural. Recentemente, a atriz Fernanda Montenegro disse que “nada contribui mais com o emprego do que a cultura”. Qual o peso desse atraso no mercado de trabalho?
É imenso. Um exemplo vem de um conceito de que gostamos muito, que é o de economia criativa. Sempre quando vemos um filme, uma peça de teatro, um show estamos criando condições para que as empresas de entretenimento gerem milhares de empregos. Esse é um dos motivos pelos quais diversos países criaram políticas de bolsa, de incentivo e de subsídio às artes. Veja a Broadway (EUA), ali são movimentados milhões de dólares. A pandemia é um problema global de saúde pública, mas que afetou diversas cadeias produtivas.

Como acelerar o tempo de recuperação da economia global?
Nós acreditamos no poder da ciência e no da cooperação global. Foi essa combinação que nos permitiu ter vacinas em tempo recorde.

Nesse mesmo contexto cresce o negacionismo da ciência…
O negacionismo aliado à desinformação são temas sobre os quais precisamos nos debruçar com muito cuidado. O problema é tão crítico que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Unesco cunharam um termo para falar do assunto: infodemia. É o que estamos encarando como uma doença da desinformação alimentada por uma corrente de notícias falsas. Isso é gravíssimo.

Qual seria o remédio para a infodemia?
Um deles é a necessidade de uma imprensa livre, de qualidade, que tenha o compromisso com a checagem dos fatos.

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